maio 2015

palomanes

 

O respeitado professor e livre-docente, historiador Francisco Palomanes Martinho, talvez o maior especialista em histórica ibérica no Brasil, publicou hoje um artigo devastador na página 3 da Folha de S.Paulo sobre o estado da melhor universidade brasileira, a USP. Uma descrição impressionante do campus: condições profundamente adversas para as atividades fundamentais de uma universidade, o ensino e a pesquisa. Se a USP converteu-se nesse lixão físico e de ideias, o que pensar de outros espaços universitários menos cotados pelo Brasil afora?

A causa, além do desgoverno e da irresponsabilidade que caracteriza o exercício do poder público no Brasil, é a super-ideologização da sociedade. Qualquer tentativa de realizar um trabalho decente, de criar regras de convivência, de fazer nossos espaços funcionarem minimamente, passou a ser vista como uma ação de “direita”.

O resultado é esse Brasil em que vivemos, um país do passado, voltado para o passado, que só acelera em direção ao abismo. Ou alguém acredita que com universidades assim conseguiremos ser considerados um país de média importância no conjunto das nações?

LINK: http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2015/05/1635112-francisco-carlos-palomanes-martinho-a-universidade-nao-e-uma-agora.shtml

A excelente publicação The Atlantic traz uma reportagem e um perfil sobre o italiano Mario Marazziti, o grande ativista contra a pena de morte em todo o mundo, autor de 13 WAYS OF LOOKING AT THE DEATH PENALTY, livro que representamos no Brasil para a Seven Stories Press. O artigo dá destaque ao fato de os Estados Unidos estarem pessimamente acompanhados: China, Irã, Iraque (que, diga-se, enfrenta guerra em seu território), Arábia Saudita e Indonésia são alguns dos outros países que ainda aplicam a pena de morte.

No mundo todo, 105 países já aboliram a pena de morte oficial, e 43 declararam moratória para a sentença _ entre estes, Gabão, Mongólia, Camboja, Quirguistão, Albânia e Rússia. Cuba, neste momento, não tem nenhum condenado à morte. Já nos EUA, onde o Estado matou oficialmente 1.400 americanos desde 1976, o estado de Utah é o mais espantoso, restituindo a morte por esquadrão de fuzilamento.

Quando a pena recai sobre um monstro como Dzhokar Tsarnaev, o terrorista da maratona de Boston, tendemos a mirar só a árvore em vez da floresta e a pensar que talvez a sentença fatal não seja tão bárbara, mas até justa. Mas se lembrarmos quantas vezes a Justiça já errou em sua condenações e a irreversibilidade da pena de morte, veremos que em lugar nenhum do mundo ela pode vigorar. Nem nos EUA, nem _ jamais _ no Brasil.

This man came from Rome to show Americans why the death penalty is wrong

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O AUTOR COM LEITOR – JACQUES FUX

13 perguntas sobre livros e leituras

“Nesse mar de corrupção no Brasil, todos nos sentimos brochas”

Jacques Fux está entre os grandes destaques dessa nova geração de autores brasileiros que vem chamando a atenção de público e crítica. Formado em Matemática com doutorado e pós doutorado em Literatura, foi premiado em quase tudo o que publicou: sua brilhante tese Literatura e Matemática: Jorge Luis Borges, Georges Perec e o OULIPO ganhou o prêmio Capes de Melhor Tese de Letras/Linguística em 2010 e Antiterapias, sua estreia na literatura propriamente dita, foi um dos vencedores do Prêmio São Paulo de Literatura em 2013. Seu próximo livro, Brochadas, está para sair pela Rocco e promete arrancar boas risadas dos leitores_ essa é, por sinal, uma das fortes características de Jacques: fazer graça de si mesmo e do mundo no mais fino humor e ironia judaicos. Perguntado sobre a leitura que recomendaria a nossa excelentíssima presidente, não teve dúvidas: Brochadas. Afinal, quem não se sente brocha diante do Brasil_ e da Dilma_ atualmente? Mas além de piadas e gracejos sobre suas venturas e desventuras_ digo suas pois Jacques é sempre o centro de seus próprios personagens_ seus livros são permeados de referências literárias e filosóficas, de questionamentos sobre a estranheza da existência e os modos de construção de si a partir do outro. Entre reflexões existenciais e significações sociológicas, há as “bundinhas”, sempre as “bundinhas”…

Que livros estão atualmente em sua mesa de cabeceira?

Estou relendo os livros do grande Saul Bellow! O cara é bom demais!

Qual foi o último livro que arrancou de você uma boa gargalhada?

Na verdade, foi uma piada que li no último livro de Ruth Wisse, No Joke: Making Jewish Humor: “Estavam no deserto um italiano, um alemão e um judeu. Vagavam, e já sem esperança alguma de serem salvos, certos do iminente fim, começaram a devanear. O italiano disse: ‘eu estou com tanta sede, tanta sede, que daria tudo por uma taça de vinho’. O alemão suspirou e disse: ‘estou com tanta sede, mas tanta sede, que daria tudo por um copo de cerveja’. O judeu então disse: estou com tanta sede, mas tanta sede, que eu devo estar com certeza com diabetes’.” Também me diverti muito com o maravilhoso humor do Alberto Mussa em seu O senhor do lado esquerdo.

Entre os grandes autores judeus da literatura norte-americana, quem explora melhor o humor judaico?

Eu gosto muito do Philip Roth. Difícil não falar dele. A questão da Mãe, dos complexos, das neuras, dos medos, das paranoias… e também das famigeradas brochadas! Diariamente recebo emails de leitores americanos apontando várias referências que Roth faz aos meus textos. Fico mais que agradecido!

Quais são os melhores títulos de ficção e não ficção sobre a questão judaica? E sobre a Shoah?

E será mesmo que existe uma “questão judaica”? Será que a “grande questão” não é a incapacidade humana de conviver e aceitar o diferente? O estranho? O outro e o igual? Talvez A hora da estrela e o texto “Pertencer” (Nota da Edição: de A descoberta do mundo), ambos da Clarice Lispector, tratem delicadamente dessa questão. Eu me emociono profundamente com suas palavras. Sobre a Shoah, os livros do Primo Levi são fundamentais (numa entrevista ao vivo, o apresentador queria saber mais sobre a minha convivência com esse meu querido “primo”, o Levi, que cito várias vezes no Antiterapias. A minha ficha demorou para cair!). Tem um outro livro muito arrogante, ousado, enciclopédico, mas que apresenta um estudo ficcional, polêmico e rigoroso sobre a Shoah: As benevolentes, do Jonathan Littell.

Diga três livros que contribuíram para o escritor que você é hoje.

Grande sertão veredas, para chorar diante da possibilidade da beleza; Crime e castigo, para se admirar diante do encanto com sofrimento; Cartas a um jovem poeta (NE: de R.M. Rilke), para me proteger de escrever sobre temas banais e cair no lugar comum.

Quem são seus autores favoritos?

O Guimarães Rosa é oitavo Dan! Quase um Deus! Hahaha! Meus favoritos são: Marcel Proust, Jorge Luis Borges, Georges Perec, Italo Calvino, Isaac Bashevis Singer, Melville. E tantos outros.

Qual é o mais importante ensaio de sua experiência de leitor?

A terceira margem do Rio” (NE: de Pequenas estórias) do Rosa, “Os precursores de Kafka” (de Outras inquisições), do Borges, “O tradutor cleptomaníaco” (do livro húngaro sob o mesmo título, bravamente publicado no Brasil pela Editora 34), do (Deszo) Kosztolányi.

Quais são seus três personagens judeus prediletos e por quê?

O Alexander Portnoy, do Roth, por viver o tempo todo no banheiro dedicando-se à autoficção (ele claramente me copiou); o Sabbatai Tzvi (que realmente existiu), por sua brilhante loucura, por convencer muitos de que era o verdadeiro Messias e, logo depois, se converter largando mão dessa tarefa complicadíssima que seria mudar o mundo; e o Golem (não o Gollum, do Tolkien, não!), por sua magia cabalística e pelas inúmeras e infinitas histórias que ainda tem nos proporcionado.

Você já parou no meio de um livro? Qual e por quê?

Claro! Ou o livro estava chato demais, ou eu estava de saco cheio, pensando em largar tudo e ser jogador de squash! Lembro-me de ter começado e largado várias vezes O vermelho e o negro, do Stendhal (estava lendo uma tradução antiga bem ruim!).

Que tipo de leitor você foi na infância? Qual era seu livro favorito?

Leitor? Eu gostava mesmo era de jogar futebol, basquete e tênis! “E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil”, adorava ficar admirando as “bundinhas” drummondianas por aí!

Qual o melhor livro sobre matemática para um leigo?

Eu gosto muito de um cara chamado Raymond Smullyan. Alguns de seus livros foram traduzidos: O enigma de Sherazade, Alice no país dos enigmas, A dama ou o tigre?. Também Alice no país das maravilhas, do (Lewis) Carroll, é um livro fundamental, tanto para a matemática e lógica, quanto para as questões sexuais-analíticas –  junto com o Lolita (de Nabokov).

Qual leitura você mais recomendaria para a presidente Dilma Roussef? E para o povo brasileiro, atualmente?

Sem dúvida alguma eu recomendaria o meu próximo livro: Brochadas. Nesse mar surreal, e quase literário, de corrupção, preconceito e desencanto, acho que todos nós nos sentimos, por vezes, impotentes, prostrados e inteiramente brochas! (Mas brochas são esses perversos ladrões!)

Entrevista por Anna Luiza Cardoso

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Ela é minha cabeça ao avesso, tudo que eu queria ser e não sou. Ela me completa. É papagaio de pirata, empoleirado no meu ombro, me censurando, e, doula paciente, ajudando nos partos mais dolorosos, ano após ano. Quando a chamo de “chata”, ela acha graça. “Mala sem alça”, praticamente chora. Porque, para nós, tradutoras literárias, são as atribuições mais elogiosas imagináveis. A gente se orgulha de ser cricri.

Conheci minha advogada do diabo anos atrás, no curso de tradução da Associação Alumni, em São Paulo. A primeira vez que a vi, estava toda de preto, com unhas azul-cintilante, meia-calça roxa comprada em Londres (escutei ela contando para outra pessoa), e uma improvável queimadura solar vermelho-camarão encobrindo a brancura paulistana habitual. Um dia, ela me deu carona para a pensão onde eu dormia quando estava em São Paulo, decidimos então ir a um bar próximo para continuar o papo. A dose se repetiu nas noites de aula seguintes, e a conversa nunca mais teve fim. Vibrávamos com as mesmas coisas, geralmente de ordem linguística. Nos cafezinhos entre aulas, trocávamos artigos sobre teoria de tradução e nos divertíamos cotejando textos originais e traduzidos para achar pistas que entregavam a direção da tradução.

Um dia, resolvi traduzir alguns contos da escritora goiana Augusta Faro, para enviar para algumas publicações no exterior. Se quisesse ingressar no mercado editorial, imaginava, era preciso ter currículo, coisas traduzidas e publicadas, para depois conseguir, quem sabe, que alguém me pedisse a tradução de um livro. Pedi para a Daniela ser minha revisora/consultora. Deu muito certo. Eu mandava os contos para ela com as dúvidas assinaladas e ela devolvia com explicações, contextos e empurrões em outras direções. O que mais me encantava era a sua maneira de lançar luz sobre as partes mais encrencadas do texto sem insistir nesta ou naquela solução. É claro que, quando lhe ocorria alguma coisa óbvia, falava, mas a maior parte do tempo ela me contava uma historinha que me levava a enxergar aquilo de forma diferente, ou sugeria que eu investigasse tal sinônimo ou “algo nessa linha”.

Mas ela não parava por ali. Também olhava as coisas que não tinha pedido para olhar, e quando via algo que a incomodava, falava. Foi aí que descobri, com muita alegria, que ela era muito chata. As nossas conversas, sempre à noite, por ela ser uma criatura noturna (sem falar que as ligações interurbanas eram menos caras – ainda não existia o Skype), eram um verdadeiro cabo de guerra entre línguas e culturas. Discutíamos acepções, impressões e associações por horas a fio. Desligávamos só para beber água e ir ao banheiro, e em seguida retomávamos a conversa. Às vezes, ficávamos um tempão em silêncio, cada uma metida num dicionário de sinônimos. E aquilo era maravilhoso.

Era tão maravilhoso que fiquei esperta: quando ficava ligeiramente em dúvida sobre alguma coisa, mas não muito, eu passei a não grifar nada. Ela é tão obsessiva que, se eu grifava algo, era capaz de cismar sobre aquilo por dias a fio até chegar a alguma conclusão, ou cismar sem fim. Mas se eu não grifava, ela só chamava minha atenção àquilo que realmente a incomodava. E, como o taco dela é tão bom, eu queria aproveitar sua reação espontânea, em vez de eu ir lá plantar uma semente de dúvida numa mente já pra lá de surtada.

Depois vieram os livros. Não pude trabalhar com ela em todos, mas em todos os mais difíceis trabalhei (Cidade de Deus, O filho eterno, Perto do coração selvagem, entre outros). Quando é assim, e sei que vou alugá-la um monte, pago alguma coisa – sempre menos do que ela merece, mas proporcional ao que eu ganho. E quando sei que só vou alugá-la um pouquinho, lá vou eu pedir ajuda fiado, e a gente pendura na conta de um futuro hipotético em que todos os profissionais do livro ganham bem e as contas são acertadas da forma mais justa.

Quando ela viaja ou quando, às quintas-feiras, a faxineira dela está passando o aspirador e não dá para conversar, é um sofrimento. Mas, depois de tantos anos de convivência, se eu começar a elaborar minhas dúvidas para ela num email, às vezes consigo até escutar sua voz me dizendo para olhar em outra direção, e encontro a solução.

Bem que ela me disse que seu masterplan era me viciar. Já tentei me livrar dela, sem sucesso. Nas vezes que tentei tirar dúvidas com pessoas “normais”, tive que dar tanto contexto para que a pessoa compreendesse a dúvida, para depois ouvir um “acho que sim” ou “acho que não” ou “sei lá, nunca pensei nisso”, que desisti. Com ela, meia palavra basta. Às vezes nem isso. Às vezes basta grifar uma palavra ou frase e ela já sabe por que estou surtando, porque sabe como penso. E essa economia de tempo e palavras não tem preço. Adoro não ter que me explicar. Até chegamos a desenvolver uma espécie de taquigrafia para encurtar ainda mais as palavras necessárias para chegar a um entendimento. VDB, por exemplo, significa o “valor do bonitinho”, quando a graça ou fofura da palavra é tão ou mais importante que o significado. “Superornou” é o mais alto elogio. E um suspiro ao telefone pode ser uma de duas coisas: ou a tradução está péssima, ou ela nem sabe por onde começar a responder a dúvida. De qualquer maneira, significa que estou frita.

Alguns anos atrás, ela deixou de trabalhar como tradutora em tempo integral porque estava deprimida com o mercado e as baixas perspectivas. Por ser perfeccionista, ela não consegue entregar um texto perfeito em menos tempo do que o necessário, o que acaba esbarrando no prazo… e como ela é muito cricri, imagine quão perfeito tem que ser! Só que, de forma geral, o mercado não remunera pelo perfeccionismo e o tempo gasto para chegar lá, e sim por lauda, ou por palavra, o que realmente torna a sobrevivência do tradutor perfeccionista problemática (falo por experiência própria). Foi fazer outras coisas da vida, mas nunca conseguiu largar de vez a tradução. E eu continuo batendo na porta dela toda hora, por hábito, por vício, por amor. Porque ela estava lá na gênese de tudo. Porque sem ela não dá.

REPRODUÇÃO DO SITE REVISTA PESSOA: http://www.revistapessoa.com/2015/05/minha-mala-sem-alca/

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O AUTOR COMO LEITOR – MARINA CARVALHO

13 perguntas sobre livros e leituras

“Paula Pimenta foi minha inspiração para me tornar escritora”

Marina Carvalho é uma das expoentes dessa nova geração de escritores brasileiros, que, criando histórias voltadas principalmente para o público jovem, estabelecem pelas mídias sociais uma relação forte e direta com os leitores, sem intermediação da crítica universitária, de colegas autores, de recomendações ao editor. Seus primeiros livros foram publicados pela Novo Conceito –  SIMPLESMENTE, ANA; DE REPENTE, ANA; AZUL DA COR DO MAR e ELA É UMA FERA, releitura de A MEGERA DOMADA, que saiu apenas eletronicamente, mas é o ebook de mais alta vendagem da editora. Agora, Marina está lançando, desde a semana passada em grande turnê pelo Brasil, ELENA, que é a filha de Ana, um livro com o selo Galera Record, já considerado um sucesso dentro da editora.

Nascida na pequena Ponte Nova, Marina é mineira como tantas entre as mais exitosas escritoras do gênero (Laura Conrado, Paula Pimenta, Bruna Vieira) – um fenômeno que dá o que pensar. O que terão as mineirinhas para saberem conversar tão bem com os jovens? O certo é que o talento de Marina para esse diálogo não dispensou uma boa formação como leitora. Ela se graduou em jornalismo e chegou a trabalhar nessa área, mas hoje, além de escritora, é professora de Português e Literatura no ensino médio. Aliás, considera que esse contato diário com a garotada é fundamental para manter atualizado o seu registro linguístico da fala da juventude. Nesta entrevista a Gabrielle Cunha, Marina recorda que os mineiros Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino fizeram parte de seu repertório de criança, põe Érico Veríssim no panteão, mostra que está perfeitamente a par de tudo que suas colegas brasileiras de geração estão escrevendo, revela que sua inspiração para se tornar escritora foi Paula Pimenta e por fim conta de seu orgulho por conseguir que seus filhos sejam também leitores apaixonados.

Quais títulos poderiamos ver agora em sua mesa de cabeceira?

Boa Ventura!, de Lucas Figueiredo, um relato precioso sobre a exploração do ouro brasileiro no período colonial. Além dele, estou lendo um romance gostoso, da autora nacional Bianca Briones, O descompasso infinito do meu coração.

Quais foram seus livros favoritos na infância? Que tipo de leitora você foi?

Sempre gostei muito do Pedro Bandeira. Li todos os livros que ele escreveu para a série Os Karas e, em seguida, fui atrás de seus outros trabalhos. Pedro tem o dom de cativar, com sua linguagem envolvente, crianças e jovens. Mas também devorei toda a coletânea da série Vagalume, motivada especialmente pelo autor Marcos Rey, gênio dos romances policiais juvenis. Além deles, incluo as obras de Ana Maria Machado, os contos de Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos, as histórias de Maria José Dupré e, claro, os quadrinhos de Maurício de Sousa. Fui uma criança muito tranquila, que se contentava com a diversão proporcionada pelos livros. E, por perceber esse meu amor pela leitura, minha mãe não media esforços para me disponibilizar obras de gêneros variados e de todas as épocas.

Qual livro provocou em você a vontade de escrever para jovens?

Acredito que foi Pedro Bandeira o responsável por isso, embora, na época, eu não soubesse que chegaria a escrever profissionalmente. Mas, se eu levar em consideração o momento em que concluí que poderia me tornar algo mais que uma escritora de gaveta, assumo que Paula Pimenta, autora mineira, contemporânea, de grande sucesso entre crianças e adolescentes, foi minha grande inspiração, com seu livro Fazendo meu filme. Assisti a uma palestra dela na escola onde trabalho e saí de lá pensando: “Por que não?”

Qual a sua personagem  de ficção chick-lit favorita (para quem não sabe, literatura que agrada às meninas e moças entre 12 e 30 anos)? Por quê?

Gosto muito das personagens criadas pela inglesa Sophie Kinsella, uma especialista em histórias do gênero. Entre elas, aponto a Becky Bloom como a mais engraçada, por ser uma mulher destemperada, mas, ainda assim, muito meiga e imbuída do objetivo de se dar bem na carreira, mesmo tendo que lidar com um vício (quase) incurável: sua compulsão por compras. Já dei muitas gargalhadas com essa personagem e, por causa dela, leio tudo o que a Sophie publica.

Qual livro você gostaria de ter escrito?

Se eu fosse uma mulher do passado, gostaria de ter escrito todas as histórias sobre o detetive mais egocêntrico do mundo, o belga Hercule Poirot, criado pela dama do crime, Agatha Christie. Na adolescência, eu ficava completamente perplexa com a sagacidade daquela mulher, tão genial naquilo que se propunha – escrever fascinantes livros de mistério – e na vida que levava também. Uma pioneira, sem dúvida. Também muito me agradaria ser a mente por trás da saga O tempo e o ventode Érico Veríssimo. Sou fã de histórias épicas, que envolvem questões familiares complexas e atrelam elementos da História, unindo ficção e conhecimentos gerais.

Que livro você leu, gostou, mas tem vergonha de admitir, porque não é considerado boa literatura?

Ah (risos)! Sério? Se tenho vergonha de admitir (e tenho mesmo!), como vou revelar? Mas, está certo, darei uma dica: o título une palavras e um numeral inteiro.

Você se lembra de alguma adaptação cinematográfica de obra literária que, como filme, tenha resultado tão bom quanto o romance que lhe deu origem como literatura?

Eu simplesmente adoro a versão cinematográfica produzida em 1959 do romance épico Ben-Hur. Para mim, é uma das poucas adaptações para o cinema consideradas tão fantásticas quanto o livro de origem. Por isso estou com medo do que Hollywood aprontará na nova filmagem, que estreará no ano que vem.

Qual o seu autor brasileiro preferido?

São vários, mas vou apontar apenas um: Érico Veríssimo.

Qual o seu romance histórico preferido?

A saga O tempo e o vento.

Com qual escritora contemporânea você gostaria de ficar conversando e tomando um chá de fim de tarde?

Eu diria que gostaria de fazer isso com várias, pois admiro o trabalho de tantas! Mas como ainda não a conheço pessoalmente e sou muito fã do trabalho dela, adoraria passar um tempo com a Carina Rissi, grande nome do chick-lit nacional.

Diga um livro cuja leitura você parou no meio, porque era aborrecidíssimo. Ou por qualquer outra razão (violentíssimo, por exemplo).

Recentemente eu comecei a ler A bibliotecária de Auschwitz, mas fui obrigada a interromper a leitura, porque fiquei extremamente deprimida ao revisitar o horror dos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial. Já li tanto a respeito, mas sempre me choca pensar no sofrimento das pessoas naquela época.

Sua paixão pela leitura foi transmitida a seus filhos? Quais são os autores preferidos deles?

Sim, eles gostam de ler. Isso me faz uma mãe muito orgulhosa. O João, meu filho de sete anos, adora as histórias da Ana Maria Machado. Ele pega os livros dela na biblioteca da escola. Acho essa atitude a coisa mais linda do mundo. Já o Hugo, de 11 anos, é fanático por aventuras e mistérios. Já leu toda a série Percy Jackson, todos os livros da coleção Diário do Banana e, mais recentemente, tornou-se fã incondicional de Star Wars.

Você tem uma dica de leitura para a presidente Dilma Roussef?

Opa! Isso é bem difícil, não? Bom, sugeriria o próprio Boa Ventura!, do Lucas Figueiredo. Nunca é demais conhecer melhor a nossa história para que possamos entender nossas atuais condições, não é mesmo? E, a partir daí, tentar modificá-las.

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Anna Luiza Cardoso

O último livro do monge budista Matthieu Ricard se chama PLAIDOYER POUR LES ANIMAUX, EM DEFESA DOS ANIMAIS, e foi originalmente publicado na França pela Allary no final do ano passado. Trata-se de um belo ensaio sobre o amor aos animais e a compaixão por seus sentimentos, um apelo para que se respeite esses seres tão vivos quanto nós e tão sub humanamente tratados, como costumamos fazer com tudo aquilo e aqueles que julgamos menores que nós em nossa risível superioridade racional.

Quando do lançamento do livro, as críticas foram muitas, a maioria delas no sentido de menosprezar a necessidade de uma conscientização quanto ao modo como lidamos com os animais diante das mazelas humanas. Por que se preocupar com o sofrimento animal quando há tantos seres humanos sofrendo também? Por que defender seus direitos quando há pessoas em situações trágicas ao redor de todo o mundo? De que importa o sofrimento de um boi, um porco, um cachorro, um gato, qualquer bicho que seja, quando há gente sendo escravizada, torturada e humilhada? Não importa mais nem menos, na verdade, mas simplesmente importa. Todo e qualquer sofrimento importa e tudo o que é vivo merece respeito.

Do centro de nosso egoísmo e em meio ao universo feito de nosso próprio umbigo humano, exploramos e humilhamos os mais fracos, desrespeitamos a natureza, destruímos o que não nos dá retorno financeiro imediato. Esquecemos que somos todos feitos da mesma matéria energética basilar e subjugamos tudo aquilo que julgamos não pensar. Esquecemos do sentir. E, se egoístas que somos, esquecemos o que sentimos nós mesmos, que dizer do que sentem os outros? É nesse sentido que importa a compaixão e o amor à vida_ dos animais, das plantas, dos mares, da terra, dos seres humanos. Enquanto não aprendermos a nos amar e respeitar, continuaremos a destruir e fazer sofrer tudo o que e quem nos cerca, a começar pela própria espécie humana.

Felizmente, apesar da polêmica inicial, o livro foi muito bem recebido na França; publicado em meados de outubro, já ultrapassou a casa dos 50.000 exemplares vendidos. Ainda, tem encontrado editoras em diversos países _ EUA, Holanda, Alemanha, Espanha, Coreia_, o que permite pensar que a humanidade começa finalmente a se dar conta de seus equívocos. Um dia, quem sabe, olhará a maneira como tratamos os animais com o mesmo horror com que hoje lembramos a escravidão?

Aqui no Brasil os direitos de tradução ainda estão livres, mas no que depender da VB&M, encontraremos muito em breve a editora ideal para um ensaio tão importante como esse.

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O AUTOR COM LEITOR – MARCELO BACKES

13 perguntas sobre livros e leituras

 

Pelo tema do pacto com o diabo, Dilma deveria ler Doutor Fausto”

 

Marcelo Backes é um viajante. No momento em que postamos este blog, ele está embarcando para Istambul. Entre inúmeras atividades, Marcelo guia por vários países do mundo grupos de alunos _ que fazem com ele oficinas de imersão na obra de diversos autores clássicos _, em um projeto de viagens literárias desenvolvido com a Casa do Saber. Mas a vocação de viajante começou quando ele deixou para trás sua Campina das Missões, no interior do Rio Grande, para estudar Jornalismo e Literatura em Porto Alegre. Logo viu-se na Alemanha, tirando um doutorado sobre a poesia de Heine na Universidade de Friburgo (Freiburg). Ficou por lá oito anos, período em que veio a conhecer toda a Europa e que lhe rendeu a criação de Estilhaços Maisquememória, publicados pela Record. Depois de voltar ao Brasil, passou a dar palestras em universidades da Alemanha e da Áustria quase anualmente, parando em Berlim para residências literárias.

No últimos tempos, escreveu O último minuto e A casa cai, publicados pela Companhia das Letras, mais fincados no Brasil. O último minuto saiu ainda pela Del Vecchio na Itália, onde vem sendo aclamado pela crítica _ um forte romance sobre a crise existencial de um ex-técnico de futebol, e uma reflexão sobre o sentido das mudanças na sociedade brasileira. A casa cai traz à cena um personagem que já surgira em O último minuto, ex-seminarista que se apaixona pela viúva do pai e monta para ela uma cobertura no complexo da Selva de Pedra, no Leblon, um dos muitos imóveis do espólio paterno. A narrativa _ sobre pecado, culpa e expiação _ reflete esses temas também no plano do desenvolvimento urbano do Rio de Janeiro, uma cidade cujas áreas para o investimento imobiliário foram abertas a ferro e fogo não contra o mato e a floresta, mas contra inteiras populações.

Backes é também tradutor. Já traduziu mais de 30 autores austríacos e alemães, incluindo aí Goethe, Schiller, Heine, Nietzche, Kafka e Arthur Schnitzler para várias edições premiadas. De Schnitizerl, está organizando toda a obra em um monumental projeto com a Record. Com tanto envolvimento com a Alemanha, só poderia sair dela a dica de leitura para a presidente Dilma Roussef: O Doutor Fausto, de Thomas Mann, pelo tema do pacto com o diabo.

Que livros se encontram agora sobre sua mesa de cabeceira?

Neste momento, o Corão em três línguas, a poesia de Hafez, um dos maiores poetas de todos os tempos, grandioso, genial, autor de algumas das mais belas metáforas da literatura universal;de Rumi, de Firdusi, e oRubaiya de Omar Khayyam. Tudo por conta de uma viagem de Istambul a Teerã que farei em breve.

Quais são seus romances urbanos favoritos? Romances em que a cidade onde se passa a história seja quase um personagem.

São tantos! Acho maravilhoso conhecer o Rio de Janeiro de novo pelas páginas de Dom Casmurro, passeio pelas ruas de Viena através das obras de Arthur Schnitzler, pelas de São Petersburgo nas páginas de Dostoiévski. Mas não sou exatamente fascinado pelos assim chamados romances de metrópole; John dos Passos e Joyce não estão entre meus escritores preferidos. Sou mais Proust e seu mundo anímico ou Guimarães Rosa e seu sertão, ou então Nabokov e seu interior americano. E prefiro (Robert) Musil a (Alfred) Döblin, embora reconheça a maravilha que é Berlim Alexanderplat.

Qual a cidade mais literária de todos os tempos?

No Brasil, indiscutivelmente é o Rio de Janeiro, que eu aliás homenageio no meu romance A casa cai. Na Europa são tantas: a Londres de Dickens, a Paris de Balzac, a São Petersburgo de Tolstói e Dostoiévski, a Dublin de Joyce

Há algum romance que, tendo o esporte como pano de fundo, o tenha apaixonado? Fora O último minuto, é claro.

Sinceramente, não; sou mais vinculado às coisas da alma aqui dentro do que do mundo lá fora (e o esporte é bem do mundo lá fora), o que aliás também pode ser percebido em O último minuto.

Qual o melhor texto de ficção sobre o futebol _ brasileiro ou não?

Gosto muito, por exemplo, de um conto, bem breve, chamado “Meia encarnada, dura de sangue” de Lourenço Cazarré.

Você conhece algum romance ou texto ficcional cuja tradução _ de e para qualquer idioma _ tenha se igualado ou superado o original?

Se eu tivesse lido Paulo Coelho em português ou em qualquer outra língua do mundo, a resposta seria fácil. Mas já li algumas de suas páginas em português e em alemão e garanto que traduzido ele é um pouco melhor. É muito difícil dizer isso acerca de uma obra de arte, de uma peça literária bem acabada. Às vezes há sonatas compostas para piano que ficam muito bem na flauta, mas o que mais acontece são emendas piores do que os sonetos.

Qual a mais importante obra literária do cânone mundial?

Eu acho que, no século XX, é Em busca do tempo perdido, de (Marcel) Proust, ou então O homem sem qualidades de Robert Musil, cujo título eu talvez traduzisse como “O homem sem propriedades”, ou então “O homem sem atributos”. Na tradição clássica, A divina comédia de Dante e o Fausto de Goethe; são obras de alcance insuperável, inclusive pela abrangência.

Quais são seus romances mais queridos? Não mais que três, por favor.

”  Em busca do tempo perdido, de Proust; Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa; e Doutor Fausto, de Thomas Mann.

Quais são os livros da literatura alemã mais importantes de serem conhecidos pelo leitor brasileiro?

O homem sem qualidades, de Robert Musil, e Doutor Fausto, de Thomas Mann _ se quiseres que eu cite algo volumoso. Michael Kohlhaas, de (Heinrich von) Kleist, e O tenente Gustl, de Arthur Schnitzler, se quiseres duas novelas breves e geniais.

Vão oferecer-lhe um jantar e dizem para você levar três escritores. Quem seriam e por quê?

Autores vivos? Para um jantar eu convidaria amigos e por serem amigos. Meus amigos escritores são quase todos alemães: eu convidaria Ingo Schulze, eu convidaria Sasa Stanisic, e aqui no Brasil eu convidaria Sérgio Faraco, de quem aliás sinto muita saudade. E teria a certeza de que não falaríamos de literatura durante o jantar.

Com qual escritor contemporâneo você gostaria de passar uma tarde conversando?

Com a escritora holandesa Franca Treuer; quem já a viu, não perguntaria por quê.

Qual escritor em atividade vem surpreendendo-o positivamente com seus últimos trabalhos?

E  Eu sempre me surpreendo com o que Ingo Schulze faz, com o que Sasa Stanisic faz.

Que livro a presidente Dilma Roussef precisa ler urgentemente?

Acho que o Doutor Fausto, de Thomas Mann, também pelo tema do pacto com o diabo, seria uma boa.

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Nossa parceira na Espanha, Ella Sher, agente primária de Ivan Repila, nos envia hoje a magnífica resenha de seu EL NIÑO QUE ROBÓ EL CABALLO DE ATILA, no Le Monde Diplomatique. Na França, deram ao romance – que no Brasil vendemos para a sensível editora da Rovelle,  Cristiane Pacanowski – o título de Le Puits, “O poço”.

O enredo envolve dois irmãos presos em um poço e lutando pela sobrevivência. O poço é metáfora do mundo, da sociedade, com um sistema político, ou de poder, inerente. Na luta pela vida, os irmãos conhecem fome e sede e aprendem o significado de crueldade e injustiça.

Por seu estilo,  o livro é frequentemente comparado à obra de Beckett,  e encontrou a mais calorosa recepção crítica não só na Espanha e na França, mas também na Grã-Bretanha (aqui segue ainda o link para  The Irish Times). Diz o Monde Diplomatique: “Por meio de uma linguagem crua, um estilo brutal de grande precisão, Ivan Repila, nascido em Bilbao, em 1978, com Le Puits escreveu um primeiro romance fulgurante sobre o amor fraternal, a sobrevivência e o sacrifício, um fábula que tem a força dos grandes livros da infância.” Mas tudo que se diz sobre o romance é consagrador, difícil pinçar um elogio mais forte, e já saíram grandes matérias e críticas em todos os grandes jornais, desde o espanhol El País até o francês Le Monde, passando por uma imensa vairedade de publicações nos países onde o livro já foi publicado.

Para o mercado brasileiro, Cristiane prepara uma edição audaciosa de O MENINO QUE ROUBOU O CAVALO DE ÁTILA. Será ricamente ilustrada e voltada diretamente para o leitor jovem. No resto do mundo onde o livro já chegou às livrarias, as edições não foram trabalhadas especificamente para esse público, embora saiba-se que os jovens se apaixonam pelo texto.

O livro foi publicado na Grã-Bretanha pela charmosa Pushkin e na França pela Denoel; na Itália, os direitos são da Sellerio _ três das mais charmosas editoras internacionais. Na Holanda, O MENINO QUE ROUBOU O CAVALO DE ÁTILA sairá pela De Bezige Bij, na Romênia pela Univers, na Coreia do Sul pela Mirae N.

 

 

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Irish Times: http://www.irishtimes.com/culture/books/the-boy-who-stole-attila-s-horse-by-iván-repila-and-out-in-the-open-by-jesús-carrasco-soaring-like-poetry-dragged-down-by-cliche-1.2170086

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Com muito orgulho, anunciamos a contratação de uma nova cliente nos Estados Unidos: The Feminist Press, que tem sede na City University de Nova York. E nosso orgulho não se deve somente à beleza de seu catálogo, que nos encantou e fascinou e do qual já vendemos um título, meteoricamente – TATTERHOOD, organizado por Ethel Johnson Phelps, uma reunião de narrativas folclóricas e mitológicas do mundo inteiro com grandes protagonistas femininas. Conseguimos promover até um pequeno e rápido leilão, e Julia Schwarcz, da Seguinte na Companhia das Letras, arrematou a obra.

O orgulho tem mais a ver com a visão de mundo de quem trabalha na VB&M. Somos todas feministas e mais o Raymond Moss, que tem uma visão sobre a mulher mais aberta e justa do que muita brasileira. Vemos com enorme alegria que a ideia do feminismo, tão simples, de igualdade de direitos entre homens e mulheres, finalmente começa a entrar no Brasil, com décadas de atraso, começa a “pegar” entre nós. (No Brasil, como sabemos, leis e ideias “pegam” ou “não pegam”.)

Livros sobre a condição da mulher, com mensagens de teor feminista, começam a ter sucesso. As colunas de Ruth de Aquino, na Época, e de Helena Celestino, no Globo, crescem em popularidade, sem falar nos textos maravilhosos de Míriam Leitão, quando ela aborda o tema da desigualdade de gênero. Matérias saem nos jornais dizendo que o feminismo está na moda entre nós. (Todo mundo deve ter visto a que saiu no Caderno Ela, de O Globo.)

Ficamos docemente surpreendidas com a recepção calorosa dos editores ao catálogo e aos “highlights” para a Feira de Londres de The Feminist Press, que enviamos na semana passada. Não que tenhamos qualquer dúvida sobre a qualidade, a inteligência e a originalidade da lista, em um momento em que todo mundo anseia por algo diferente. Mas, simplesmente, não esperávamos tanta resposta.

No que me diz respeito (quem escreve é Luciana), o feminismo e os direitos dos (outros) animais, foram o que me restou de paixão ideológica. Não há como negar a justiça das duas causas ou temer que mulheres e cães, gatos, feras de todo tipo, tomem os aparelhos de Estado para criar novas formas de dominação.

Escrevendo este texto, só me vem uma frase em inglês à cabeça: The human species sucks. A espécie humana fede, o capitalismo fede, e as alternativas políticas que chegaram ao poder federam mais ainda: União Soviética, China, Romênia, Cuba, Coreia do Norte, etc. e etc., e o PT, que na prática nem anticapitalista foi.

Já as mulheres apanham dos homens (e os animais apanham dos homens e de muitas mulheres também, mas isso é outra história e não pode ter lugar neste post). Por isso consideramos tão importante uma iniciativa como The Feminist Press; por isso temos tanto orgulho de representar esta quarentona – 45 anos, mais em forma do que nunca. FP é a mais antiga editora independente de mulheres em todo o mundo com uma jovem equipe que atua com entusiasmo e brilho. Uma inegável contribuição para disseminar a ideia do feminismo e conscientizar as mulheres de sua situação e seus direitos.

Ainda vamos falar muito da Feminist Press neste blog. De cada um de seus livros. Estamos loucas para divulgar SLUT, um livro feito graças a um impressionante trabalho de crowd funding para conscientizar meninos e meninas, pais e professores, da maldade, da grosseria, da injustiça que é classificar uma adolescente de “piranha”, das consequências desse rótulo na vida de uma mulher. Do absurdo que é a sociedade ficar fiscalizando a maneira como as jovens conduzem suas vidas sexuais, enquanto para os rapazes qualquer trepada é motivo de aplauso e admiração.

Por enquanto, vamos somente reproduzir uma carta de Jennifer Baumgardner, diretora da FP, pedindo apoio de seus leitores para a editora. Quem contribuir com cem dólares ou mais vai ganhar uma sacola ecológica com o logo FP45. Tudo a ver: para as mulheres, ter orgulho da própria idade é libertação.

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Dear Luciana,

At 45, the Feminist Press is the longest-running independent women’s publisher in the world. Our staff is young and vibrant, our books are relevant as ever, and we plan to continue transforming culture for at least the next 45 years with your help!

Support feminist thinkers, doers, and books that change the world with a contribution of $5, $25, $45, $250, or $450.

And if you support us today with a gift of $100 or more, you will receive a limited-edition tote bag, proudly embellished with our special “FP45” logo. Let’s wear our age like the badge of honor it is!

Thank you,

Jennifer Baumgardner

Executive Director

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Em nome da Seven Stories Press, vamos começar a representação de um romance magnífico, que está mexendo com o mundo psicanalítico norte-americano e, se publicado no Brasil, vai chacoalhar o nosso também. É o novo livro da feminista Anne Roiphe, The Ballad of the Black and Blue Mind (daríamos o título de “A balada dos deprimidos”), uma narrativa que, tendo Nova York como pano de fundo, conta histórias de ladrões e cleptomaníacos, crianças infelizes, gente que se auto-mutila e que está perturbada quanto à própria sexualidade _ tudo sob o ponto de vista da dra. Estelle Berman, uma psiquiatra que vive e trabalha no Upper West Side.

A dra. Estelle é capaz de perceber sinais de seu próprio declínio, aceitando-o da maneira como observa as idiosincrasias de seus pacientes, uns mais queridinhos que outros. São gente como Justine, filha de um colega, estrela do cinema muito louca, que não consegue deixar de provocar os paparazzi, criando complicações para si; Edith Forman, poeta espaçosa cujos finos livros que publica têm a magreza que ela não consegue conquistar fisicamente; e Anna, uma universitária que se auto-mutila, filha de renomados professores. Há ainda Gerald, o filho de Estelle, que nunca criou com ela a intimidade que tinha com o falecido pai. E agora tem também o neto de Estelle, filho de Gerald, o primeiro a se tocar de que algo muito errado está se passando com a própria psiquiatra.

O romance ganhou uma resenha estrelada da Booklist, legítimo objeto de desejo dos escritores americanos. Diz a publicação: “(o romance) explora o arsenal completo das emoções, motivações e frustrações humanas através do mundo rarefeito daqueles cujo trabalho é decifrar o comportamento da espécie.” Finaliza afirmando que, com uma prosa pungentemente bela e incrivelmente sábia, Roiphe demonstra uma paixão brilhante e aguda pela investigação e pela compreensão da vida humana.

Ficcionista e ensaísta, Anne Roiphe já publicou dezoito livros, desde os romances Up the Sandbox e 1185 Park Avenue até volumes de memórias como Art and Madness e Epilogue. Fruitful foi finalista do National Book Award. Ela colabora frequentemente com The New York Times Magazine, Vogue, Elle; já teve colunas no The New York Observer e no The Jerusalem Post.

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