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2015-04-30_16.40.40

O AUTOR COMO LEITOR – Miguel Sanches Neto

13 Perguntas sobre livros e leituras

“Até a obra de Roberto Bolaño ganharia com uma boa edição”

 

“Tudo que não é literatura me irrita”, diz a sério Miguel Sanches Neto, parafraseando Kafka, para explicar sua grande, diversificada e brilhante produção literária. O tempo para essa produção é devido não a morar distante do eixo Rio-São Paulo, mas principalmente ao fato de toda sua libido, toda sua paixão, estar dirigida à escrita, à leitura e à família. Miguel acaba de lançar pela Intrínseca A segunda pátria, que está conquistando estrepitosa aclamação crítica. O romance narra uma história de amor entre um negro e uma descendente de alemães tendo como pano de fundo o Brasil de Getúlio Vargas, que no final dos anos 30 teria feito um pacto com Hitler, entregando-lhe as colônias germânicas do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Uma distopia histórica magnificamente escrita, de aguda originalidade e muito assustadora, que toca no fundo da psique brasileira e, por isso mesmo, está despertando interesse em toda parte; seus direitos para cinema acabam de ser negociados pela VB&M.

A versatilidade de Miguel não se limita a sua capacidade de transitar entre romances (seis publicados, um pronto para ser apresentado aos editores), contos (três volumes publicados, um no prelo da Companhia das Letras, outro sendo finalizado por ele), crônicas (oito livros publicados), histórias para crianças e jovens (sete publicadas, uma no prelo da Bertrand), poesia (cinco), memórias, diário, aforismas. No romances e nos contos, ele brinca e experimenta com a autoficção, com o histórico, com o policial.

Um tanto de sua literatura conta sua trajetória de leitor e escritor (ver principalmente o romance autobiográfico Chove sobre minha infância, os contos de Então você quer ser escritor? e as crônicas de Herdando uma biblioteca), mas felizmente Miguel Sanches Neto, também professor universitário, 50 anos em julho, encontrou tempo para responder às perguntas da VB&M (“trabalhosas mas divertidas”), descortinando como sempre sua excepcional experiência de leitura e uma imensa sensibilidade literária. Uma entrevista com dicas preciosas para leitores e escritores, como sua sugestão para a presidente Dilma Roussef, as memórias de Autran Dourado, A gaiola aberta; e a observação de que toda obra pode se beneficiar de uma boa edição e um enxugamento, até clássicos contemporâneos como Roberto Bolaño.

O que você está lendo?

Mantenho um leque de leituras, tentando abarcar os meus vários interesses. Leio A ilha de Sacalina, de Tchékhov, uma reportagem em forma de diário. Os romances O Todomeu, de Andrea Camilleri, e Submissão, de Michel Houellebecq. O volume de poemas póstumos de Bukowski (As pessoas parecem flores finalmente). Os novos contos de Rubem Fonseca – Histórias curtas. E o monumental O idiota da família, os textos de Sartre sobre Flaubert.

Qual é o romance histórico de mais alta qualidade literária na ficção brasileira?

O tempo e o vento, o painel transgeracional de Érico Veríssimo. É tão bom que nem lemos como romance histórico, apenas como uma grande narrativa.

E na ficção internacional?

Gosto muito de Memorial do convento, do José Saramago. Portugal tem uma tradição de romance histórico. Dos mais recentes, gostei de Equador, de Miguel Sousa Tavares.

Diga uma narrativa de autoficção que você aprecie.

No Brasil, o grande romance de autoficção é Quase romance – quase memória, de Carlos Heitor Cony, um marco primoroso desta vertente. Fora do Brasil, A história de uma viúva, de Joyce Carol Oates.

Aponte três livros que tenham contribuído para formar o escritor que você é hoje.

A Bíblia, na tradução literária de João Ferreira d’Almeida. Os contos completos de Julio Cortázar. Infância, as memórias de Graciliano Ramos.

Com qual escritor, contemporâneo ou não, você gostaria de passar uma tarde conversando?

Com Lima Barreto, tomando parati em algum boteco do Rio. Sempre gostei dos encrenqueiros.

Quem é o seu poeta preferido?

Fernando Pessoa, que é quem mais releio quando estou triste.

E o contista?

Dalton Trevisan, o maior contista da língua portuguesa.

Existe alguma obra do cânone que você considere supervalorizada?

Toda obra canônica é supervalorizada, isso está na essência do cânone. Respeito o valor e a contribuição para a mudança do código narrativo, mas não sou um bom leitor de Ulisses, do Joyce.

Qual título da literatura brasileira ou internacional poderia se beneficiar de um bom trabalho de edição?

Quase todo livro se beneficiaria de um bom trabalho de enxugamento. Gostei bastante de Detetives selvagens, de Roberto Bolaño, mas ele ganharia com uma boa edição.

Quais foram seus livros preferidos na infância? Que tipo de leitor você era?

Nunca tive infância. Vindo de uma família de agricultores pobres, só me fiz leitor a partir dos 12/13 anos, já dentro da literatura adulta. E aí o impacto muito grande que sofri foi da obra de Graciliano Ramos.

Diga um livro pelo qual você não dava muito ao começar a leitura mas que acabou surpreendendo-o positivamente.

1Q84, do Haruki Murakami, o livro é muito inverossímil e no entanto não consegui me desprender dos 3 volumes. Taí outro livro que ganharia com um trabalho de edição.

Agora a dica de leitura para a presidente Dilma Roussef.

Gaiola aberta, as memórias de Autran Dourado sobre sua passagem pela assessoria de imprensa do presidente JK. O livro tem passagens deliciosas como esta: “Logo no início do governo JK, o [Augusto Frederico] Schmidt aconselhou-o a conviver com gente mais culta e inteligente. Cafajeste é para campanha, para carregar nos ombros, disse ele. Já tenho os meus escritores, que não me dão problemas, disse JK. Mas você não convive com eles, não os convida para almoçar e jantar, não lhes dá importância, disse o poeta”.

Comentários ( 1 )

  • carolina abreu diz:

    Brilhante! Adorei a dica para a presidente do Brasil. Muito original. Quiçá ela te ouça… e escuta o povo brasileiro!

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