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Por Alison Entrekin

Começou com um email do Cristovão Tezza no qual brincou: “Ainda quero escrever um romance ‘inglês’ clássico. Penso nisso – linguagem clean, tempos precisos etc. Será que um brasileiro consegue?” Não consegui tirar a pergunta da cabeça. Sem saber, ele tinha tocado em algo que eu vinha sentindo faz tempo, mas que ainda não havia articulado muito bem para mim mesma. Vou tentar agora.

Toda vez que vou verter um texto brasileiro para o inglês, fico impressionada com a quantidade de coisas que são suprimidas no português, e lá vou eu fazer aquele trabalho de formiguinha, devolvendo para o texto as migalhas da gramática faltantes, numa série de preenchimentos obrigatórios para que o texto ganhe sentido em inglês. Faço os sujeitos ocultos mostrarem a cara, tiro pronomes oblíquos e complementos de verbos dos esconderijos, decido se os “seus” e “suas” são deste ou daquele personagem e, como na cena de um crime, vou forensicamente atribuindo partes de corpos (o braço, a cabeça) a seus donos (her arm, his head). E imagino que os tradutores trabalhando na outra direção vão apagando essas micropartículas lingüísticas tão essenciais em inglês que devem soar repetitivas demais – ou até desnecessárias – em português.

Também fico impressionada com a relativa liberdade que o brasileiro tem com os tempos verbais do passado. Em inglês, numa narrativa no passado, quando há menção de uma ação anterior ao tempo da narração, usamos o pretérito mais-que-perfeito – o passado do passado. Em português, nem sempre. Muitas vezes o pretérito perfeito fica no lugar do mais-que-perfeito. É engraçado que quase não reparo nisso durante a leitura do original e ao longo do processo de tradução, mas, invariavelmente, na hora de revisar a tradução em inglês, aquela anarquia de tempos verbais salta aos olhos, e lá vou eu – a formiguinha – botar ordem no passado.

Até aí, nenhuma novidade, traduzir de um idioma para outro é isso – o tradutor procura trazer à tona na tradução as coisas que são óbvias para leitores do original.

Nos primeiros anos de carreira, a sensação que eu tinha era de que tudo ia se desanuviando à medida que eu passava o texto para o inglês, e por muito tempo atribuí isso ao simples fato de eu não ser nativa da língua portuguesa e sim da língua inglesa. Faz sentido que as coisas pareçam mais em foco na língua nativa, não?

Mas, com o passar do tempo, nesta queda de braço diária com textos brasileiros, comecei a notar outras coisas que sempre pedem explicitação. Se eu tivesse que chutar, eu diria que – diferentemente do inglês, que tem um verbo para cada jeito de andar ou olhar – o português tem mais palavras e frases polivalentes, dificílimas de traduzir pelo leque de possíveis traduções. São várias, mas minha favorita é “disfarçar”, principalmente quando aparece sozinha sem nenhuma pista. Disfarçou. Como assim, “disfarçou”, sem mais nem menos? Para passar para o inglês, preciso saber o que a pessoa fez para fingir que não estava fazendo outra coisa. Sem uma palavra igualmente abrangente em inglês, vou à cata de mais informações, que às vezes nem estão no original.

Também dão trabalho os diminutivos e aumentativos, que encapsulam várias informações numa só palavra e transmitem ironia e humor de maneira ímpar. Recentemente, num fórum online de tradutores literários, alguns de nos ficamos discutindo uma única “inha” (de “professorinha”) durante um dia e meio! Às vezes, na descompactação necessária para transpor a idéia toda para o inglês, é difícil manter a graça do original – talvez porque a graça resida justamente no fato de as informações serem mais implícitas, menos na cara, quase uma inside joke. A primeira vez que me dei conta disso foi com a palavra “orelhudinho”, que me provocou um excesso de riso quando percebi a volta que teria que dar para dizer a mesma coisa em inglês. “Menino/homem pequeno de orelha grande” não tem a mesma graça.

Na fase de edição, fico admirada com as perguntas dos editores de língua inglesa. Questionam cada detalhe dos livros – não só a escolha de palavras e a gramática, mas a lógica interna do texto. Devolvem os manuscritos com dúvidas do tipo: “Se está algemado, como é que vai alcançar a chave no criado-mudo?” Muitas vezes há uma explicação plausível. Neste caso, uma página antes há uma rápida menção de um certo jogo nas algemas, compradas num sex shop, e depois, de fato, se esticando e se contorcendo, o protagonista consegue pegar a chave. Mas se algum detalhe desse tipo não for tão explicito no texto, os editores sugerem que seja. Independentemente de serem – numa análise mais rigorosa – verossímeis ou não, são coisas que geralmente passam pelo autor, editor, revisor, leitores, tradutor etc. sem ninguém notar. Parece haver uma confiança maior por parte dos brasileiros que o leitor vai acompanhar, que vai preencher qualquer lacuna usando a imaginação e o raciocínio. Mas as editoras de língua inglesa – sobretudo as americanas – parecem ter uma etapa de revisão a mais, justamente para pegar qualquer deslize ou ambigüidade. Acho um luxo ter uma pessoa com olhos “virgens” para ler o texto e procurar possíveis defeitos, ao mesmo tempo que me pego pensando – naqueles devaneios a que sou dada – se a “suspensão voluntária da descrença” do Coleridge anda um pouco menos voluntária nos países de língua inglesa de hoje. Será?

Bom, se você já chegou à conclusão de que nós anglófonos somos um tanto pedantes, acho que somos, de certa forma. Pelo menos somos mais apegados às certas regras que os brasileiros — sem que isso contenha qualquer julgamento de valor. Aliás, eu acho que o brasileiro navega as entrelinhas com uma desenvoltura extraordinária.

Deixando de lado os textos para pensar um pouco na vida no Brasil, muitas coisas obedecem a uma série de subentendidos, em que nada é tão preto ou branco quanto pode parecer para alguém de fora – de modo que um brasileiro dificilmente vai tomar um “vamos combinar” ou um “passa lá em casa” ao pé da letra. E mesmo quando algo de concreto seja combinado, o horário pode ser bem elástico, principalmente na vida social. Ainda me divirto com o fato de ser possível marcar um encontro num bar para uma janela de tempo – entre tal e tal hora – em vez de um horário fixo. E, uma vez no bar, não é falta de educação dizer “me vê mais uma” omitindo o “por favor”, se a inflexão da voz for simpática, ou se a frase começar ou terminar com um “amigão”, ou coisa que o valha. Ou, se a voz não alcançar, um dedo indicador apontado para o copo vazio seguido por um dedão erguido[1] dá conta do recado, para citar apenas um de centenas de gestos que substituem ou acompanham as palavras, constituindo quase uma terceira dimensão da fala brasileira.

Se as coisas não são tão preto ou branco na vida no Brasil, porque seriam na literatura? Não estou dizendo que todos os autores brasileiros são superelípticos na maneira de escrever, nem que nós anglófonos não sejamos capazes de lidar com textos sofisticados ou sutis, mas, de forma geral, acredito que procuramos referentes mais fixos nos nossos textos. Comparado com a gente, creio que o brasileiro depende um pouco menos do que é explícito e tira o sentido das coisas de uma série de outras fontes. É um bom entendedor por excelência.

 


[1] Esse gesto específico é usado fora do Brasil também, mas o vocabulário de gestos brasileiros é imenso. Aposto que se eu falar “lotado” ou “sei lá” ou “fodeu”, um brasileiro já consegue visualizar o gesto que exprime aquilo.

[Reprodução do site Revista Pessoa: http://www.revistapessoa.com/2015/04/o-bom-entendedor/]

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