abril 2015

2015-807864227-2015041430911.jpg_20150414

Um comentário já velho sobre a VB&M na imprensa do fim de semana. Saiu no Globo uma simpática matéria sobre a despedida de Karin Schindler, que está encerrando suas atividades como agente. Eu (Luciana) fui ouvida e minha declaração aparece no alto da matéria, mas não achei que estivesse clara. O jornalista me perguntou se Dona Karin era realmente a doce senhora que dava a impressão de ser, ou se tinha seus momentos de durona, como diziam. Afirmei que ela sempre foi doçura pura e, se algumas vezes batia o pé quanto a algum ponto da negociação, eu sempre soube que estava seguindo a orientação do cliente. O agente que representa clientes estrangeiros para o Brasil, o que também fazemos na VB&M, às vezes recebe solicitações despropositadas. Podem vir de um lado ou de outro, do editor brasileiro ou do cliente estrangeiro, e nem sempre é fácil intermediar e encontrar o necessário equilíbrio. Foi isso que eu quis dizer.

Dona Karin é a decana nesse ramo do negócio do livro no Brasil, sempre fez com maestria essa intermediação. Ela jamais representou autores brasileiros, seja para o Brasil ou para o exterior, um aspecto do negócio com características muito diferentes do co-agenciamento.

“Para quem se aposentou há menos de um mês, Karin Schindler demonstra uma disposição invejável. Com 84 anos, vividos entre Alemanha, Uruguai e Brasil, esta senhora judia alemã naturalizada uruguaia trabalhou 41 anos como agente literária e praticamente testemunhou a formação do mercado editorial brasileiro como o conhecemos hoje. Daqui para a frente, diz ela, vai fazer o que mais gosta: sentar no jardim nos fundos de sua casa e ler, de preferência nada que seja literatura.

— Estou lendo um livro (em alemão) sobre a origem de expressões idiomáticas. Gosto mais disso do que de literatura — admite Karin em seu sotaque carregado, que mascara um português perfeito.

O aspecto meigo e bem-humorado esconde a negociadora implacável que várias gerações de editores tiveram de enfrentar. Luciana Villas-Boas, ex-diretora editorial da Record e hoje agente literária, conta que trabalhou diretamente com Karin durante 17 anos e continua vendo-a como a “doce senhora”.

— O convívio sempre foi muito bom enquanto estive na Record e continua sendo hoje em dia — diz Luciana. — Ocorre que o agente que representa o escritor e a editora estrangeiros muitas vezes tem demandas e necessidades diferentes. Ele tem que explicar as peculiaridades daqui e nem sempre eles entendem lá. Eu sempre soube quando ela estava sendo dura para atender a uma necessidade dos clientes dela.

À frente da Agência Schindler, que instalou em um anexo no fundo do sobrado onde mora no Brooklin, Zona Oeste de São Paulo, Karin representou desde F. Scott Fitzgerald até Stephen Hawking, passando por Agatha Christie, Isaac Asimov e Harold Robbins, entre outros best-sellers.

Suas histórias envolvem menos a relação direta com autores e mais casos de negociações com editores e livros.

— Para nós, (os autores) são apenas pedaços de papel — observa ela, o sorriso aberto e o olhar atento.

Entre outras coisas, Karin conta que quando começou a agenciar autores, em meados dos anos 70, o mercado editorial era informal e os contratos ainda eram muito amadores. Segundo ela, os adiantamentos, verba dada para os escritores antecipando a venda dos livros, não ultrapassavam US$ 200.

Uma história curiosa da agente aposentada diz respeito à disputa dos direitos de um livro cujo autor é sinônimo de sucesso garantido. Depois de instituir um leilão em que sobraram apenas dois editores, um deles arrematou os direitos de publicação por US$ 95 mil.

— Liguei para ele e disse: “Você ganhou”. Desligamos o telefone e estava tudo bem. Até eu receber uma nova ligação dele, agitado, dizendo que me pagaria US$ 100 mil. E eu falei que não precisava, porque os direitos já eram dele. Mas ele insistiu, dizendo que queria ter certeza de que publicaria a obra — conta ela, que não revela nomes, mas confirma que a compra valeu cada centavo investido.

Karin fala muitos nomes estrangeiros ao citar seus autores, de Sigmund Freud a Dale Carnegie, este último autor do sucesso “Como fazer amigos e conquistar pessoas” (lançado aqui pela Companhia Editora Nacional). Não menciona escritores brasileiros por uma simples razão: não quer ser “babá”.

— Uma única vez aceitei agenciar um autor brasileiro, há muito tempo. Um dia, eu estava em casa em um fim de semana com a família, recebendo amigos para um almoço, quando o telefone tocou. Era esse escritor me perguntando: “Por que o meu livro não está exposto na livraria Brasiliense da Barão de Itapetininga?” Nunca mais.

Lucia Riff, que atuou como editora na Nova Fronteira antes de abrir a Agência Riff há 24 anos, guarda com carinho o gesto da veterana agente literária quando soube que deixaria a edição para passar a agenciar autores e representar editoras.

— Ela foi muito carinhosa comigo me chamando para um café da manhã. Falou sobre como seria e me alertou sobre autores brasileiros, inclusive contando essa experiência dela com o tal escritor — lembra Lucia. — E é verdade que isso acontece, mas era uma das coisas que eu queria ao mudar: trabalhar com autores brasileiros.

Nascida em um subúrbio de Berlim, Karin Schindler fugiu de casa com a família em abril de 1940 levando apenas a roupa do corpo. Do porto de Gênova, na Itália, partiu para o Uruguai, que acolhia judeus alemães fugidos do nazismo.

— Por isso não abro mão da cidadania uruguaia. Eles nos acolheram e aqui (no Brasil) nos fecharam as portas. O senhor Getúlio (Vargas, presidente à época) estava no balanço da conveniência — diz Karin.

Ela desembarcou no Porto de Santos em 1955, casou-se no ano seguinte e mudou-se um ano depois para o sobrado do Brooklin onde mora até hoje. Depois de um período de adaptação, o marido conseguira equilibrar as contas e sugeriu que a mulher parasse de trabalhar como secretária trilíngue. Após um período, ela voltou à ativa, como secretária de Johannes Bloch, dono de uma das primeiras agências literárias do Brasil, a Bloch.

Filho do fundador de uma editora de peças teatrais, Bloch fugira primeiro para a Inglaterra, onde continuou trabalhando como editor, e depois veio para o Brasil a fim de representar oito editoras, entre as quais Penguin, Oxford e Cambridge. Foi Jorge Zahar, da editora homônima, quem sugeriu a ele a abertura de uma agência. Pouco tempo depois, Bloch se afastou do trabalho em razão de saúde e ela foi obrigada a cuidar do negócio.

— Me jogaram do lado fundo da piscina e tive que aprender a nadar — lembra.

Em 1976, dois anos depois de mergulhar no mundo literário, ela foi a Londres visitar as editoras que passaria a representar. Das 36 contatadas, 35 aceitaram a representação de Karin. A única que recusou pediu desculpas porque havia se adiantado em razão do estado de saúde de Bloch e procurou outra pessoa, lembra ela.

Trinta e cinco anos depois, Karin está satisfeita com o arranjo que mantém a agência nos fundos de sua casa, agora sob os cuidados da ex-editora Sueli Pedro dos Santos.

— Eu fico aqui e eles ali, ambos respeitamos os nossos espaços — conta, apontando primeiro o chão da sala de sua casa, e depois o apertado escritório que divide os fundos da construção com o orquidário deixado pelo falecido marido, Rodolfo. — Mas eu não entendo nada de orquídeas e plantas. Para mexer nisso, chamo um jardineiro.”

Reprodução do site O Globo: http://oglobo.globo.com/cultura/livros/agente-literaria-karin-schindler-relembra-formacao-do-mercado-editorial-brasileiro-15966665

2015-04-30_16.40.40

O AUTOR COMO LEITOR – Miguel Sanches Neto

13 Perguntas sobre livros e leituras

“Até a obra de Roberto Bolaño ganharia com uma boa edição”

 

“Tudo que não é literatura me irrita”, diz a sério Miguel Sanches Neto, parafraseando Kafka, para explicar sua grande, diversificada e brilhante produção literária. O tempo para essa produção é devido não a morar distante do eixo Rio-São Paulo, mas principalmente ao fato de toda sua libido, toda sua paixão, estar dirigida à escrita, à leitura e à família. Miguel acaba de lançar pela Intrínseca A segunda pátria, que está conquistando estrepitosa aclamação crítica. O romance narra uma história de amor entre um negro e uma descendente de alemães tendo como pano de fundo o Brasil de Getúlio Vargas, que no final dos anos 30 teria feito um pacto com Hitler, entregando-lhe as colônias germânicas do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Uma distopia histórica magnificamente escrita, de aguda originalidade e muito assustadora, que toca no fundo da psique brasileira e, por isso mesmo, está despertando interesse em toda parte; seus direitos para cinema acabam de ser negociados pela VB&M.

A versatilidade de Miguel não se limita a sua capacidade de transitar entre romances (seis publicados, um pronto para ser apresentado aos editores), contos (três volumes publicados, um no prelo da Companhia das Letras, outro sendo finalizado por ele), crônicas (oito livros publicados), histórias para crianças e jovens (sete publicadas, uma no prelo da Bertrand), poesia (cinco), memórias, diário, aforismas. No romances e nos contos, ele brinca e experimenta com a autoficção, com o histórico, com o policial.

Um tanto de sua literatura conta sua trajetória de leitor e escritor (ver principalmente o romance autobiográfico Chove sobre minha infância, os contos de Então você quer ser escritor? e as crônicas de Herdando uma biblioteca), mas felizmente Miguel Sanches Neto, também professor universitário, 50 anos em julho, encontrou tempo para responder às perguntas da VB&M (“trabalhosas mas divertidas”), descortinando como sempre sua excepcional experiência de leitura e uma imensa sensibilidade literária. Uma entrevista com dicas preciosas para leitores e escritores, como sua sugestão para a presidente Dilma Roussef, as memórias de Autran Dourado, A gaiola aberta; e a observação de que toda obra pode se beneficiar de uma boa edição e um enxugamento, até clássicos contemporâneos como Roberto Bolaño.

O que você está lendo?

Mantenho um leque de leituras, tentando abarcar os meus vários interesses. Leio A ilha de Sacalina, de Tchékhov, uma reportagem em forma de diário. Os romances O Todomeu, de Andrea Camilleri, e Submissão, de Michel Houellebecq. O volume de poemas póstumos de Bukowski (As pessoas parecem flores finalmente). Os novos contos de Rubem Fonseca – Histórias curtas. E o monumental O idiota da família, os textos de Sartre sobre Flaubert.

Qual é o romance histórico de mais alta qualidade literária na ficção brasileira?

O tempo e o vento, o painel transgeracional de Érico Veríssimo. É tão bom que nem lemos como romance histórico, apenas como uma grande narrativa.

E na ficção internacional?

Gosto muito de Memorial do convento, do José Saramago. Portugal tem uma tradição de romance histórico. Dos mais recentes, gostei de Equador, de Miguel Sousa Tavares.

Diga uma narrativa de autoficção que você aprecie.

No Brasil, o grande romance de autoficção é Quase romance – quase memória, de Carlos Heitor Cony, um marco primoroso desta vertente. Fora do Brasil, A história de uma viúva, de Joyce Carol Oates.

Aponte três livros que tenham contribuído para formar o escritor que você é hoje.

A Bíblia, na tradução literária de João Ferreira d’Almeida. Os contos completos de Julio Cortázar. Infância, as memórias de Graciliano Ramos.

Com qual escritor, contemporâneo ou não, você gostaria de passar uma tarde conversando?

Com Lima Barreto, tomando parati em algum boteco do Rio. Sempre gostei dos encrenqueiros.

Quem é o seu poeta preferido?

Fernando Pessoa, que é quem mais releio quando estou triste.

E o contista?

Dalton Trevisan, o maior contista da língua portuguesa.

Existe alguma obra do cânone que você considere supervalorizada?

Toda obra canônica é supervalorizada, isso está na essência do cânone. Respeito o valor e a contribuição para a mudança do código narrativo, mas não sou um bom leitor de Ulisses, do Joyce.

Qual título da literatura brasileira ou internacional poderia se beneficiar de um bom trabalho de edição?

Quase todo livro se beneficiaria de um bom trabalho de enxugamento. Gostei bastante de Detetives selvagens, de Roberto Bolaño, mas ele ganharia com uma boa edição.

Quais foram seus livros preferidos na infância? Que tipo de leitor você era?

Nunca tive infância. Vindo de uma família de agricultores pobres, só me fiz leitor a partir dos 12/13 anos, já dentro da literatura adulta. E aí o impacto muito grande que sofri foi da obra de Graciliano Ramos.

Diga um livro pelo qual você não dava muito ao começar a leitura mas que acabou surpreendendo-o positivamente.

1Q84, do Haruki Murakami, o livro é muito inverossímil e no entanto não consegui me desprender dos 3 volumes. Taí outro livro que ganharia com um trabalho de edição.

Agora a dica de leitura para a presidente Dilma Roussef.

Gaiola aberta, as memórias de Autran Dourado sobre sua passagem pela assessoria de imprensa do presidente JK. O livro tem passagens deliciosas como esta: “Logo no início do governo JK, o [Augusto Frederico] Schmidt aconselhou-o a conviver com gente mais culta e inteligente. Cafajeste é para campanha, para carregar nos ombros, disse ele. Já tenho os meus escritores, que não me dão problemas, disse JK. Mas você não convive com eles, não os convida para almoçar e jantar, não lhes dá importância, disse o poeta”.

disfarce1-1024x768

Por Alison Entrekin

Começou com um email do Cristovão Tezza no qual brincou: “Ainda quero escrever um romance ‘inglês’ clássico. Penso nisso – linguagem clean, tempos precisos etc. Será que um brasileiro consegue?” Não consegui tirar a pergunta da cabeça. Sem saber, ele tinha tocado em algo que eu vinha sentindo faz tempo, mas que ainda não havia articulado muito bem para mim mesma. Vou tentar agora.

Toda vez que vou verter um texto brasileiro para o inglês, fico impressionada com a quantidade de coisas que são suprimidas no português, e lá vou eu fazer aquele trabalho de formiguinha, devolvendo para o texto as migalhas da gramática faltantes, numa série de preenchimentos obrigatórios para que o texto ganhe sentido em inglês. Faço os sujeitos ocultos mostrarem a cara, tiro pronomes oblíquos e complementos de verbos dos esconderijos, decido se os “seus” e “suas” são deste ou daquele personagem e, como na cena de um crime, vou forensicamente atribuindo partes de corpos (o braço, a cabeça) a seus donos (her arm, his head). E imagino que os tradutores trabalhando na outra direção vão apagando essas micropartículas lingüísticas tão essenciais em inglês que devem soar repetitivas demais – ou até desnecessárias – em português.

Também fico impressionada com a relativa liberdade que o brasileiro tem com os tempos verbais do passado. Em inglês, numa narrativa no passado, quando há menção de uma ação anterior ao tempo da narração, usamos o pretérito mais-que-perfeito – o passado do passado. Em português, nem sempre. Muitas vezes o pretérito perfeito fica no lugar do mais-que-perfeito. É engraçado que quase não reparo nisso durante a leitura do original e ao longo do processo de tradução, mas, invariavelmente, na hora de revisar a tradução em inglês, aquela anarquia de tempos verbais salta aos olhos, e lá vou eu – a formiguinha – botar ordem no passado.

Até aí, nenhuma novidade, traduzir de um idioma para outro é isso – o tradutor procura trazer à tona na tradução as coisas que são óbvias para leitores do original.

Nos primeiros anos de carreira, a sensação que eu tinha era de que tudo ia se desanuviando à medida que eu passava o texto para o inglês, e por muito tempo atribuí isso ao simples fato de eu não ser nativa da língua portuguesa e sim da língua inglesa. Faz sentido que as coisas pareçam mais em foco na língua nativa, não?

Mas, com o passar do tempo, nesta queda de braço diária com textos brasileiros, comecei a notar outras coisas que sempre pedem explicitação. Se eu tivesse que chutar, eu diria que – diferentemente do inglês, que tem um verbo para cada jeito de andar ou olhar – o português tem mais palavras e frases polivalentes, dificílimas de traduzir pelo leque de possíveis traduções. São várias, mas minha favorita é “disfarçar”, principalmente quando aparece sozinha sem nenhuma pista. Disfarçou. Como assim, “disfarçou”, sem mais nem menos? Para passar para o inglês, preciso saber o que a pessoa fez para fingir que não estava fazendo outra coisa. Sem uma palavra igualmente abrangente em inglês, vou à cata de mais informações, que às vezes nem estão no original.

Também dão trabalho os diminutivos e aumentativos, que encapsulam várias informações numa só palavra e transmitem ironia e humor de maneira ímpar. Recentemente, num fórum online de tradutores literários, alguns de nos ficamos discutindo uma única “inha” (de “professorinha”) durante um dia e meio! Às vezes, na descompactação necessária para transpor a idéia toda para o inglês, é difícil manter a graça do original – talvez porque a graça resida justamente no fato de as informações serem mais implícitas, menos na cara, quase uma inside joke. A primeira vez que me dei conta disso foi com a palavra “orelhudinho”, que me provocou um excesso de riso quando percebi a volta que teria que dar para dizer a mesma coisa em inglês. “Menino/homem pequeno de orelha grande” não tem a mesma graça.

Na fase de edição, fico admirada com as perguntas dos editores de língua inglesa. Questionam cada detalhe dos livros – não só a escolha de palavras e a gramática, mas a lógica interna do texto. Devolvem os manuscritos com dúvidas do tipo: “Se está algemado, como é que vai alcançar a chave no criado-mudo?” Muitas vezes há uma explicação plausível. Neste caso, uma página antes há uma rápida menção de um certo jogo nas algemas, compradas num sex shop, e depois, de fato, se esticando e se contorcendo, o protagonista consegue pegar a chave. Mas se algum detalhe desse tipo não for tão explicito no texto, os editores sugerem que seja. Independentemente de serem – numa análise mais rigorosa – verossímeis ou não, são coisas que geralmente passam pelo autor, editor, revisor, leitores, tradutor etc. sem ninguém notar. Parece haver uma confiança maior por parte dos brasileiros que o leitor vai acompanhar, que vai preencher qualquer lacuna usando a imaginação e o raciocínio. Mas as editoras de língua inglesa – sobretudo as americanas – parecem ter uma etapa de revisão a mais, justamente para pegar qualquer deslize ou ambigüidade. Acho um luxo ter uma pessoa com olhos “virgens” para ler o texto e procurar possíveis defeitos, ao mesmo tempo que me pego pensando – naqueles devaneios a que sou dada – se a “suspensão voluntária da descrença” do Coleridge anda um pouco menos voluntária nos países de língua inglesa de hoje. Será?

Bom, se você já chegou à conclusão de que nós anglófonos somos um tanto pedantes, acho que somos, de certa forma. Pelo menos somos mais apegados às certas regras que os brasileiros — sem que isso contenha qualquer julgamento de valor. Aliás, eu acho que o brasileiro navega as entrelinhas com uma desenvoltura extraordinária.

Deixando de lado os textos para pensar um pouco na vida no Brasil, muitas coisas obedecem a uma série de subentendidos, em que nada é tão preto ou branco quanto pode parecer para alguém de fora – de modo que um brasileiro dificilmente vai tomar um “vamos combinar” ou um “passa lá em casa” ao pé da letra. E mesmo quando algo de concreto seja combinado, o horário pode ser bem elástico, principalmente na vida social. Ainda me divirto com o fato de ser possível marcar um encontro num bar para uma janela de tempo – entre tal e tal hora – em vez de um horário fixo. E, uma vez no bar, não é falta de educação dizer “me vê mais uma” omitindo o “por favor”, se a inflexão da voz for simpática, ou se a frase começar ou terminar com um “amigão”, ou coisa que o valha. Ou, se a voz não alcançar, um dedo indicador apontado para o copo vazio seguido por um dedão erguido[1] dá conta do recado, para citar apenas um de centenas de gestos que substituem ou acompanham as palavras, constituindo quase uma terceira dimensão da fala brasileira.

Se as coisas não são tão preto ou branco na vida no Brasil, porque seriam na literatura? Não estou dizendo que todos os autores brasileiros são superelípticos na maneira de escrever, nem que nós anglófonos não sejamos capazes de lidar com textos sofisticados ou sutis, mas, de forma geral, acredito que procuramos referentes mais fixos nos nossos textos. Comparado com a gente, creio que o brasileiro depende um pouco menos do que é explícito e tira o sentido das coisas de uma série de outras fontes. É um bom entendedor por excelência.

 


[1] Esse gesto específico é usado fora do Brasil também, mas o vocabulário de gestos brasileiros é imenso. Aposto que se eu falar “lotado” ou “sei lá” ou “fodeu”, um brasileiro já consegue visualizar o gesto que exprime aquilo.

[Reprodução do site Revista Pessoa: http://www.revistapessoa.com/2015/04/o-bom-entendedor/]

2015-04-09_14.33.02

João Almino – O AUTOR COMO LEITOR

13 perguntas sobre livros e leituras

A obra inteira de Graciliano é cinematográfica”

João Almino está se desfazendo de mais uma de suas preciosas bibliotecas, pois deixa seu posto diplomático em Madri para voltar por um período a Brasília, enquanto prepara o lançamento de seu último romance, Enigmas da primavera. João Almino notabilizou-se como o escritor de Brasília, produziu um quinteto de romances passado na cidade _ Ideias para onde passar o fim do mundo, Samba enredo, As cinco estações do amor, O livro das emoções e Cidade Livre.

Só o gênio do João para fazer do Distrito Federal uma cidade literária tão intensa. Mas seu novo livro não se resume nem de longe a Brasília. A história se constroi em torno de um jovem brasileiro de ascendência árabe, família tipicamente disfuncional, criado pelos avós, que vive todo o tempo na realidade virtual das mídias sociais e se encanta com sites islâmicos fundamentalistas.

O incrível é que João Almino escreveu esse livro não no ano passado, quando explodiram as notícias sobre os recrutamentos do Estado Islâmico na Europa e nos EUA, mas ao longo da primeira metade de 2013, cujos protestos também são eixo do romance.

É um livro sobre o vazio da contemporaneidade e a possibilidade da esperança para a humanidade, um tour de force, que será colocado nas livrarias na virada de abril para maio pela editora Record. Além de romancista e amante da obra de Proust e Graciliano Ramos, João Almino, casado com a artista plástica Bia Wouk, é um imenso conhecedor e crítico de cinema, também tema literário para ele. Tudo que João conhece, ele conhece muito, como se pode ver na entrevista a seguir sobre suas leituras, jogando luz sobre tantos autores, livros e visões nada óbvios.

Qual livro ou quais livros você está lendo neste momento?

Five Women, de Robert Musil.

Quem é o romancista que você mais admira na literatura universal?

Marcel Proust.

Quem são os melhores escritores em atividade hoje?

São tantos os bons escritores… Sem citar brasileiros, que são os que mais leio, eis alguns que me que vêm à mente agora: Edward St Aubyn, Ian McEwan, Ricardo Piglia, Haruki Murakami e John Ashbery.

Quais são as cidades brasileiras mais bem retratadas na literatura e em quais romances?

O Rio de Janeiro, de maneira oblíqua, nos cinco romances da fase madura de Machado de Assis.

Quais são as cidades estrangeiras mais bem retratadas e em quais romances?

A cidade imaginária de Combray, em Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, baseada na Illiers de sua infância.

Qual romance dos últimos 30 anos refletiu mais profundamente o mal-estar da civilização na virada dos séculos XX para o XXI até os dias de hoje?

Les désorientés, de Amin Maalouf. (Nota da entrevistadora: Saiu em português pela Bertrand Brasil, Os desorientados.)

Quais foram os livros mais interessantes ou importantes que tenham saído recentemente sobre o mundo islâmico? Ficção ou não-ficção, pode citar dois ou três títulos.

Nem todos são tão recentes, mas eis uma lista um pouco maior: de Mohamad Arkoun, Comment lire le Koran?; de Massimo Campanini, The Qur´an, The Basics; de Abdelwahab Meddeb, A enfermidade do Islã; de Mohamad Charfi, Islã e liberdade; de Paolo Dall´Oglio, Amoureux de L´Islam, croyant en Jésus.Na ficção, alguns dos contos de Beirut 39, New writing from the Arab world, editado por Samuel Shimon.

Qual livro conquistou a melhor e mais fidedigna adaptação cinematográfica?

Le temps retrouvé, de Raoul Ruiz, sobre o livro de mesmo título (último de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust).

Qual livro foi mais injustiçado pelo cinema?

O Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald, livro várias vezes injustiçado no cinema

Qual o romance mais cinematográfico que ainda não foi filmado?

Que eu saiba, dos romances de Graciliano Ramos, Caetés ainda não foi filmado. São todos muito cinematográficos.

Qual livro você gostaria que outro escritor produzisse _ um grande tema sobre o qual gostaria de ler, mas que não o empolga para escrever?

Se eu gostaria muito de ler e ainda não foi escrito, tomaria notas para tentar escrevê-lo em algum momento.

Bia e você vão oferecer um jantar. Quem são os cinco escritores convidados?

Convidaríamos alguns velhos amigos de nossa geração que por acaso são também escritores: Ana Miranda, Reinaldo Moraes, Laura Restrepo, Milton Hatoum e Lorrie Moore.

Agora, a dica de leitura para a presidente Dilma Roussef, neste momento de crise aguda da sociedade brasileira.

O Livro do Príncipe Shang (ou Shang Yang), um tratado político chinês do quarto século A.C. sobre a natureza do poder do Estado.

Por Anna Luiza Cardoso

          Muita gente acha que na Europa tudo é melhor que no Brasil. Não é. Mas se tem algo, além do sistema de transportes, que precisamos aprender já com o velho continente é o hábito da leitura. Aqui, todo mundo lê, e lê muito, lê de tudo, o tempo todo, em qualquer lugar. Os números de vendas no Brasil são risíveis se comparados aos de países como França e Alemanha, por exemplo, tão menores em extensão e população. Se vendemos dez mil exemplares já vibramos com o bom desempenho do livro. Os alemães ficam envergonhados. E essa diferença é vista nas ruas, nos ônibus e metrôs em que quase todo mundo leva um livro a tiracolo. Felizmente, a meu ver, puxa saco que sou do livro de papel, a proporção de ebooks nesse quantum de leitores é ainda pequena. Nada contra, pessoalmente, o livro digital cumpre um papel importante e admito já ceder a ele em tantas ocasiões; mas não há nada no mundo como o cheiro de um livro, a textura de suas páginas, a diagramação de seu texto. Faz parte da experiência sensorial, da performance interativa em que autor, designer, editor, livreiro e leitor participam.

          Essa experiência sensorial alcança o seu auge na ida a uma livraria, cada uma um pequeno – ou não – templo literário, espaço que está para os livros como as galerias estão para as artes. Mesmo diante da invasão amazonesca, que passa por cima dos livreiros com o ímpeto e poder de destruição de um trator desenfreado, cidades como Barcelona, Londres e Paris ainda são um paraíso para os aficionados pelas livrarias: têm uma a cada esquina, para todos os gostos, com todos os focos. Tivesse eu tido antes a ideia de colocar em texto meus lugares literários prediletos por aí, a lista seria imensa, passando por tantas cidades. Mas me restrinjo aqui a alguns endereços que valem a visita em Paris, onde passei uma semana durante esta temporada de feiras, entre Bolonha e Londres:

image

SHAKESPEARE & COMPANY

Figurinha fácil em qualquer lista de livrarias parisienses, a charmosa Shakespeare & Co é especializada em literatura em língua inglesa, é linda, linda e tem uma bela vista da catedral de Notre Dame.

image (1)

L’ÉCUME DES PAGES

Situada bem ao lado do famoso Café Flore, no Boulevard Saint-Germain, número 174, a L’Écume des Pages tem um belo acervo de ensaios literários e filosofia política, além, é claro, de literatura francesa. Sua arquitetura me lembra a da querida Argumento, no Leblon, toda em madeira e tons de verde escuro.

image (4)

LA HUNE 

Também em Saint Germain, na esquina das rue Bonaparte e rue l’Abbaye, a La Hune é uma livraria charmosíssima que fica aberta até tarde da noite. É especializada em literatura, principalmente francesa, ciências humanas e belas artes, e faz parte do grupo Flammarion.

image (3)

F. DE NOBELE 

No número 35 da mesma rue Bonaparte está a De Nobele, um sebo especializado em livros de arte difíceis de se encontrar.

image (6)

 GIBERT JEUNE

A Gibert Jeune é uma rede de livrarias parisiense com várias lojas espalhadas nos arredores da Place Saint Michel – são nove! A maior delas, com vários andares dedicados à literatura de todo o mundo, fica na própria praça, e tem livros tanto em francês quanto nos idiomas originais. Na dúvida sobre onde encontrar qualquer coisa, só ir até lá!

photo (1)

LA BELLE HORTENSE

Situada no coração do Marais, na esquina das ruas Vieille du Temple e Sainte-Croix de la Bretonnerie, a La Belle Hortense é uma cave bar literária super charmosa. Ali você pode sentar para tomar um café ou uma taça de vinho no meio do dia, enquanto lê seu próprio livro ou dá uma fuçada nas recheadas prateleiras. Vira e mexe há eventos literários e/ou artísticos no espaço e vale a pena ficar de olho na programação.

photo

COMME UN ROMAN

No número 39 da rue de Bretagne, também no Marais, fica a Comme un Roman…, que além do nome bonito e interessante costuma organizar encontros literários e exposições artísticas em seu amplo espaço. O acervo de literatura é bom e a parte de livros infantis também não deixa a desejar. Em 2009, recebeu do ministério da cultura francês o selo LIR pelo seu papel na cena cultural parisiense.

2015-04-02_14.05.05

O Autor como Leitor – Raphael Montes

15 Perguntas sobre livros e leituras

Conan Doyle é o culpado da minha literatura”

 

Nosso menino prodígio, Raphael Montes, 24 anos, autor de dois romances publicados por grandes editoras, Suicidas com a Saraiva e Dias perfeitos com a Companhia das Letras, tem uma biblioteca de 4 mil títulos policiais, de mistério, horror, suspense psicológico e de tribunal. Hiperativo, ele agora finaliza seu novo grande thriller,  Jantar, a sair pela Companhia no início de 2016, tendo acabado de entregar um volume de contos de fantasia e horror, visando ao público masculino jovem, à Suma das Letras, para estar na livraria em agosto, para sua participação na feira literária de Passo Fundo. Enquanto isso, continua a intensa divulgação eletrônica e presencial de sua obra e prepara malas e ideias para uma viagem no fim do mês a Lisboa, onde dará uma conferência sobre a difusão da literatura de língua portuguesa e lançará a edição de Dias perfeitos pela Objectiva de Portugal. Diga-se que a VB&M, com suas parceiras e co-agentes, já vendeu Dias Perfeitos em onze territórios e está com uma oferta pendente em Taiwan. Cérebro e coração embebidos de ficção policial, Raphael acaba de se dar uma nova cachorrinha, uma bassert linda, a quem batizou de … Agatha. Prestando todas as homenagens nesta entrevista a sua querida Agatha Christie, ele, no entanto, diz aqui que Conan Doyle é o responsável por sua decisão de viver de e para a literatura de mistério.

 

Que livro você está lendo?

Leio vários ao mesmo tempo, cerca de cinco, ou seis. Atualmente, leio Zero zero zero, do Saviano; Um plano simples, de Scott Smith; e livros de pesquisa para o que estou escrevendo: De caçador a gourmet, de Ariovaldo Franco; Diário, de Chuck Palahniuk e Meu destino é ser onça, do queridaço Alberto Mussa.

Algum livro já lhe meteu medo de não conseguir dormir à noite?

Quando eu era adolescente, acontecia com frequência. Hoje em dia, não acontece – e lamento por isso. Alguns que me amedrontaram: O caso dos dez negrinhos, da Agatha Christie, é claro, O Colecionador de Ossos, de Jeffery Deaver, e Brincadeira Mortal, de Pedro Bandeira.

Que autor despertou em você a vontade de escrever histórias de mistério?

Comecei lendo Conan Doyle e foi ali que decidi escrever histórias policiais. Então, acho que ele é o culpado pela minha literatura.

Qual é seu livro favorito de Agatha Christie? O que o fascina particularmente?

Dentre os mais famosos, fico com O caso dos dez negrinhos. Na verdade, meu romance Suicidas é uma homenagem a esse livro dela. O jogo em que os personagens vão morrendo um a um, a existência de um assassino entre eles… É uma tensão permanente que me atrai ali. Dentre os menos conhecidos, fico com Treze à mesa. Um romance policial simples, com enigma proposto ao leitor. Errei feio na solução e amei.

E de Conan Doyle?

Gosto muito de Um estudo em vermelho. Foi o primeiro romance policial que li. Tenho um carinho especial por esse livro.

E de Edgar Allan Poe? Por quê?

Em três contos protagonizados por Auguste Dupin, Poe fixou as características do gênero policial e apresentou à literatura o detetive moderno; a máquina de pensar que, através de rigorosa lógica, desvenda crimes e pune culpados. Tanto em Os crimes darua Morgue como em O mistério de Marie Roget e A carta roubada, estão presentes os três elementos básicos do romance policial: (I) o crime; (II) o investigador — leigo ou profissional —; e (III) o criminoso.

Dos autores contemporâneos de suspense psicológico, quem você considera imbatível?

Fico com Dennis Lehane. Ele faz um suspense psicológico violento, visceral. No Brasil, o posto é da Patricia Melo.

E na área do policial clássico – polícia contra ladrão -, qual o título contemporâneo que mais o pegou?

Amo os livros da francesa Fred Vargas e da norueguesa Karin Fossum. No Brasil, Tony Bellotto e Garcia-Roza são os mestres nesse estilo.

A literatura brasileira nessas áreas ainda é pequena, mas começa a engatinhar. O legal thriller, ou “suspense legal”, porém, não existe no Brasil. Entre os estrangeiros, quem é o melhor?

Sou fã de dois: Scott Turow e John Grisham. Não me peça para escolher entre eles.

Quem é o detetive mais interessante da literatura? E quem é a vítima mais patética da literatura?

O detetive é Hercule Poirot. A vítima é leitor de romances ruins.

 Além de policiais, suspense, mistério e thrillers, qual é outro título memorável em sua bibibliografia?

Se um viajante numa noite de inverno, do Italo Calvino. Acho incrível.

Vão oferecer um jantar em sua homenagem e lhe dizem para levar três escritores como convidados seus. Quem seriam eles?

Acho que um jantar com Agatha Christie, Patricia Highsmith e Alfred Hitchcock na mesa me deixaria satisfeito.

Que livro você recomendaria à presidente Dilma Roussef?

Crime e castigo.