março 2015

madame

Madame de Staël foi, em todos os sentidos, uma mulher à frente de seu tempo. Mãe de cinco filhos de quatro pais diferentes, foi importante intelectual e e escritora francesa que circulava em meio à intelligentsia europeia e era amiga de Voltaire, Diderot, Lord Byron e do czar russo. Temida por Napoleão, que constantemente a bania de Paris e da França por sentir-se ameaçado por suas ideias e escritos políticos nada convencionais, Madame de Staël militava por causas como o divórcio, o direito da mulher à felicidade e à liberdade de expressão e a abolição da escravatura. Seus livros eram verdadeiros best sellers na época e ela foi representante do feminismo muito antes de sua conceituação como tal. Ainda hoje é uma figura icônica na luta da mulher por seus direitos mais básicos_ em tempos em que idiotas como Jair Bolsonaro defendem absurdos como um menor salário para mulheres porque elas tiram longas “férias” com a maternidade, notamos a consciência arcaica e patriarcal que ainda vigora na sociedade global atualmente.

Como defendia Madame de Staël, todos têm o direito de ser feliz. E a felicidade é muito pessoal. Por isso, talvez o que mais precisemos agora é de auto consciência, respeito e noção de responsabilidade. Porque conhecendo-nos, podemos ser quem realmente somos; respeitando-nos, tornamo-nos capazes de respeitar o outro; e sabendo-nos únicos e exclusivos responsáveis por tudo o que fazemos e criamos, assumimos nossos atos não os empurrando para fora. Neste 8 de março, que mulheres e homens se permitam ser livres, não impondo suas ideias aos outros e nem deixando que ideias com as quais não concordam lhe sejam impostas.

A foto que ilustra esse post é da capa da biografia MADAME DE STAËL: LA FEMME QUI FAISAIT TREMBLER NAPOLÉON, assinada pela jornalista francesa Laurence de Cambronne e publicada na França pela charmosa Allary Editions. A partir da 2 Seas, representamos os direitos de tradução do livro no Brasil. No que depender de nós, em breve sairá também por aqui!

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Nelson Rodrigues me enfurece… por pura inveja”

 

13 perguntas sobre livros e leituras

Há quem diga que muitos escritores escrevem para seus colegas e para a crítica. Certamente, não é o caso de Francisco Azevedo. O nosso Chico escreve em primeiro lugar para seus leitores, que, desde O arroz de Palma, seu romance inaugural, têm com ele uma relação de adoração e com sua obra, de militância; fazem de tudo para divulgá-la. Basta entrar na internet para ver. O arroz de Palma, de 2008, que acaba de merecer da editora Record uma edição comemorativa e terá este ano sua 12ª tradução, para o turco, conta as venturas e desventuras de um clã de origem portuguesa, cujos patriarcas chegaram ao Brasil na década de 20 do século passado. O segundo romance, Doce Gabito, também descreve intensas relações familiares, da protagonista com o avô e com a tia, que a criaram, pois é uma órfã que perdeu os pais na Guerrilha do Araguaia.

Família é o tema do Chico, não há dúvida. E se Tolstoi, de Anna Karenina, criou o memorável bordão “as famílias felizes são todas iguais, as infelizes o são cada uma a sua maneira”, citado nessa entrevista, Chico também tem o dele: “Família é prato difícil de preparar”, que dá título ao Arroz em algumas traduções e aparece vezes infinitas quando fazemos um Google com a frase. Além de romancista, Francisco Azevedo é o grande autor de duas peças de sucesso, Unha e carne e A casa de Anais Nin, entre outros escritos para o teatro. A dramaturgia universal o encanta, mas sobre Perdoa-me por me traíres, de Nelson Rodrigues, ele diz ser um título de peça que o enfurece – “por pura inveja”. Neste momento, Francisco Azevedo está terminando seu terceiro romance, mas sobre o qual só podemos dizer o título, Os novos moradores, para depois voltar ao teatro com uma peça encomendada pela diretora Ticiana Studart.

1 Que livros estão agora em sua mesa de cabeceira?

Apenas dois: Vou lendo – às vezes em voz alta – e saboreando Toda poesia, do Paulo Leminski. Alterno com a leitura de Os judeus e as palavras, um ensaio fabuloso recém-lançado aqui no Brasil. De Amós Oz e de sua filha, a historiadora Fania Oz-Salzberger. Pelo que afirmam, logo de início, a linhagem judaica não é de sangue, mas de texto. Assim, pela tradição, “todo leitor é um revisor de originais, todo aluno um crítico, e todo escritor, inclusive o Autor do Universo, incorre em grande número de questões.” E por aí vai…

2 Qual o melhor romance sobre família que você já leu?

Sem pensar muito, me marcaram imensamente: Os Buddenbrook, de Thomas Mann, Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, Os Maias, de Eça de Queiroz, e Anna Karenina, de Leon Tolstói, que, aliás, começa com uma das frases mais conhecidas da literatura universal: “As famílias felizes são todas iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira”. Gênio.

3 Você tem várias peças montadas que fizeram sucesso. No teatro mundial, desde os gregos, qual é a sua peça favorita?

São tantas as que me emocionaram e fustigaram em diferentes fases da vida! Assim, de bate-pronto: A gaivota, de Anton Tchekhov, Hamlet, de William Shakespeare, Um bonde chamado desejo, de Tennessee Williams, O beijo no asfalto, de Nelson Rodrigues…

4 E qual a montagem mais inesquecível?

No exterior, em Nova York, Death of a salesman (A morte docaixeiro viajante), de Arthur Miller. Com Brian Dennehy e Elizabeth Franz, no Eugene O´Neill Theatre. Direção de Robert Falls. A dupla de atores ganhou o Tony Award pelo desempenho nessa montagem. Prêmio mais que merecido. No Brasil, As lágrimas amargas de Petra von Kant, de Rainer Fassbinder. Com Fernanda Montenegro e Renata Sorrah, no Teatro dos 4. Direção e cenografia do Celso Nunes, iluminação do meu querido Aurélio de Simoni e figurinos da Kalma Murtinho. No elenco, ainda tínhamos a bela participação da saudosa Rosita Thomaz Lopes. Privilégio ter estado na plateia.

5 Você é um romancista que tem grande intimidade com o teatro, e seus diálogos estão entre os mais verdadeiros da literatura brasileira, que não é particularmente forte nesse aspecto. Cite um diálogo de algum romance ou conto que o marcou fortemente.

O impressionante diálogo entre mãe e filho viciado em drogas, em “Um conto nefando”, de Sérgio Sant´Anna, em seu livro O voo da madrugada. O texto todo é uma preciosidade. Brutal e lírico ao mesmo tempo.

6 Doce Gabito, seu segundo romance, é um tributo a Gabriel García Márquez e revela profundo conhecimento da obra do Nobel colombiano. Qual é seu livro preferido de García Márquez?

Olhos de cão azul, talvez o menos conhecido. Em janeiro de 1974, perdi minha avó materna, que me criou e formou. Eu tinha 22 anos. E, por incrível que pareça, foi esse livro de contos, que tem a morte como tema central, que me confortou e fez companhia. A leitura me foi recomendada por meu professor de Literatura, Mario Barreto, pelas diferentes visões de morte que contém. Por um lado, existências sem vida e sem sentido. Por outro, mortes que trazem realização e plenitude. Fiquei realmente impressionado. Assim que, naquelas horas de luto e tristeza, fui apresentado à obra de García Márquez.

7 Depois de García Márquez, quem é o seu latino-americano mais querido? Separe desse grupo os brasileiros e revele o seu autor preferido na nossa literatura.

Isabel Allende. Pelo que escreve e como escreve. Há também algumas coincidências que nos ligam. Em 1984, quando a Paz & Terra publicou A casa dos arcos, meu segundo livro de poesias, a Isabel lançava aqui no Brasil, o seu A casa dos espíritos – que, aliás, deveria constar daquela lista de melhores romances que li sobre família! E, agora, vários críticos no exterior, e incontáveis leitores, afirmam que O arroz de Palma tem muito do estilo dessa admirável autora chilena. Uma honra, para mim.

Na literatura brasileira, João Guimarães Rosa. Lembro-me de meu encantamento com Grande sertão: veredas, que li aos 19 anos, quando me preparava para a carreira diplomática. Seu estilo telegráfico e, ao mesmo tempo, extremamente elaborado, e sua inigualável musicalidade me enfeitiçaram desde a primeira página e, é claro, exerceram profunda influência nos meus escritos.

8 Você chora com literatura? Qual livro o fez chorar?

Choro, sim. Oliver Twist, de Charles Dickens, talvez tenha sido o livro que mais me fez chorar na adolescência. Recentemente, me emocionei em diversas passagens de Trem noturno para Lisboa, de Pascal Mercier, e também com A menina que roubava livros, de Markus Zusak.

9 E qual o fez rir?

A casa dos budas ditosos, do mestre João Ubaldo Ribeiro. Dei boas gargalhadas. E também chorei, quando a narradora fala de sua paixão pelo irmão Rodolfo. Queria ter escrito aquela página!

10 Diga o título de um livro que o enfureceu e por quê.

Não é título de livro, é título de peça: Perdoa-me por me traíres, de Nelson Rodrigues. Me enfureceu e me enfurece até hoje, porque sei que jamais conseguirei criar algo tão brilhante e genial. Pura inveja, confesso. O meu consolo é que duvido que algum outro escritor ou dramaturgo também vá conseguir (risos).

11 Qual livro importante você achou aborrecido e largou no meio?

Não me lembro de ter largado livro algum no meio.

12 Nomeie os livros que contribuíram para fazer de você quem você é hoje – os livros mais importantes de sua formação.

Incontáveis. Cito apenas os de ficção que lembro agora: Os miseráveis, de Victor Hugo, O vermelho e o negro, de Stendhal, Utopia, de Thomas More, Metamorfose, de Franz Kafka, Animal Farm, de George Orwell, Walden, de Henry Thoreau, O fio danavalha, de Somerset Maughan, Crime e castigo, de Fiodor Dostoievski, Trópico de Câncer e Trópico de Capricórnio, de Henry Miller, O imoralista, de André Gide, A peste, de Albert Camus… Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, SãoBernardo e Vidas Secas, de Graciliano Ramos, O tempo e o vento, de Érico Veríssimo, Dom Casmurro, e Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, Capitães da areia, de Jorge Amado, Quarup, de Antônio Callado… Muitos outros.

13 Se você pudesse pedir à presidente Dilma que lesse um livro, qual seria ele?

A desobediência civil, de Henry Thoreau. O ensaio – que inspirou Gandhi e Luther King e foi escrito em meados do século XIX! – prega o aprimoramento da democracia, com indivíduos, minorias ou maiorias oprimidas, participando diretamente do processo político, exprimindo seu protesto contra a corrupção, os abusos e os desmandos do Estado.

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Por Luciana Villas-Boas

A Bibliothèque Orange,  respeitada e centenária associação de 11.000 leitores de língua francesa, recomenda anualmente a seus associados de 24 a 36 livros lançados nos últimos 12 meses. Este ano, entre 31 títulos, figura La recette magique de Tante Palma, o título francês de O arroz de Palma, de Francisco Azevedo, que saiu na França em 2014 pela Autrement, do grupo Flammarion. É o único livro brasileiro da lista, entre obras de Ian McEwan, Dominique Bona e outros grandes autores internacionais, um rol que inclui ficção e não-ficção.

A B.O, como a Bibliothèque é chamada carinhosamente por seus sócios e admiradores, funciona como um imenso clube do livro, visando à promoção da boa leitura. Subvencionada pelos próprios sócios, sem nenhum tostão de governo, os leitores orgulham-se de sua independência com relação a autores, divulgadores de imprensa, editores, livreiros e jornalistas. Ao fim do ciclo de leituras, os exemplares usados são todos enviados aos diretores de grupos, que os encaminham para bibliotecas, hospitais, escolas e outras instituições interessadas. Um trabalho admirável e divertido.

Na semana passada, também o blog Voyageurs de Soir, do Conselho Geral da Vendée (em português o nome da região é Vendeia, mas soa tão mal…), principal instrumento de outro programa francês de apoio e promoção da leitura, indicou O ARROZ do Chico a seus seguidores. O conteúdo do blog é decidido por 30 agentes da direção das bibliotecas e outros bibliotecários da região. Saiu uma resenha espetacular de La recette magique com uma recomendação final: “para degustar sem moderação”.

Isso porque Chico Azevedo não integra a delegação oficial de autores ao Salon du Livre, que homenageia o Brasil no fim de março. Imaginem se integrasse…

Realmente, não dá para entender o que passa na cabeça dos funcionários do governo brasileiro quando compõem essas listas. Podendo chamar escritores que têm um mínimo de ressonância no mundo real, daqui e de lá, para potencializar o esforço de divulgação da literatura brasileira, não, eles têm outros critérios. Tenho que reconhecer que essa lista para o Salão de Paris tem uma pequena maioria de nomes ótimos, mas somente depois de registrada a devida estranheza com relação à ausência de Francisco Azevedo e Raphael Montes.

Falando em Raphael, seu thriller Dias perfeitos, com vendas aproximadas de 20 mil exemplares pela Companhia das Letras, está sendo agorinha muito bem lançado na França, numa linda edição da Deux Terres, selo do grupo Hachette. A Deux Terres vendeu os direitos de edição no Canadá francês para a Hurtubise, de Montreal. Com a 10/18, uma editora francesa de livros de bolso, o negócio da Deux Terres foi tão bom que Nina Salter, fundadora e editora editorial, está lucrando muito com Raphael mesmo que Jours parfaits não venda um exemplar no mercado _ o que não vai acontecer, é claro, o livro já é um sucesso. Isso é visão editorial.

Deixando para lá o governo, que não nos merece, lembro que toda quinta-feira tem entrevista “O autor como leitor” neste blog. E esta quinta será com Chico Azevedo. A edição comemorativa da Record dos 50 mil exemplares de O arroz de Palma já está nas livrarias.

 Links:

http://www.bibliotheque-orange.org/recommandes-2015/

http://voyageursdusoir.vendee.fr/2015/02/17/la-recette-magique-de-tante-palma-francisco-azevedo/