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2015-03-26_13.20.14

O Autor como Leitor – Ronaldo Wrobel

13 perguntas sobre livros e leituras

“Ler Philip Roth é como estar numa reunião de família”

Com Traduzindo Hannah, Ronaldo Wrobel já se impôs como um dos mais importantes nomes da ficção nacional contemporânea e, particularmente, da nova e impressionante literatura de inspiração judaica que começa a se consolidar no Brasil. Obsessivo e perfeccionista, Ronaldo está debruçado há mais de três anos em seu segundo livro de ficção longa, O romance inacabado de Sofia Stein, que deverá estar finalizado até setembro deste ano e, como Hannah, sairá pela Record. As questões da identidade, tema caro ao autor, reaparecem no novo livro, que tem pautado muito das leituras de Ronaldo. A O Autor como Leitor, ele discorre com clareza, sinceridade e brilho sobre suas preferências literárias, literatura judaica nos Estados Unidos e no Brasil, romance histórico-literário, suas fontes de pesquisa e a produção sobre o Holocausto.

1 Quais livros encontram-se agora em sua mesa de cabeceira?

Tenho feito pesquisas históricas para o próximo romance, que terá trechos passados na Alemanha nazista. O historiador britânico Richard Evans fez uma trilogia fantástica sobre o período: A chegada do Terceiro Reich, O Terceiro Reich no poder e O Terceiro Reich em guerra. Os três livros não saem da minha mesa de cabeceira. O último romance que passou por lá foi A balada de Adam Henry, de Ian McEwan.

2 Qual é seu romancista preferido de todos os tempos? E qual é seu romance favorito?

Tenho romances preferidos, não romancistas. Consider Equador, de Miguel Sousa Tavares, uma obra-prima. Leio e releio Tia Júlia e o Escrevinhador, de Mário Vargas Llosa. Também leio e releio tudo o que o italiano Primo Levi escreveu sobre campos de concentração.

3 Quem são os melhores escritores em atividade hoje? De três a cinco nomes, por favor.

Miguel Sousa Tavares, Richard Zimmler, Eduardo Gianetti (por seus ensaios sobre temas profundamente humanos como felicidade, imediatismo e auto-engano)

.

4 No grande arco da literatura judaica norte-americana, quem é seu escritor preferido?

Philip Roth. Tudo o que ele escreve é essencialmente judaico, mesmo quando explica como se fabricam luvas de pelica. Ler Philip Roth é como estar numa reunião de família.

5 Qual é a grande obra ficcional do judaísmo literário brasileiro, que agora parece finalmente se consolidar?

Gosto muito de A guerra no Bom Fim, um clássico de Moacyr Scliar. Suas memórias refletem a vivência do imigrante nos anos 1940. Convivi com avós e tios russos e poloneses. Conheci de perto o misto de estranheza e maravilhamento com o qual enxergavam o Brasil. Assim como Philip Roth, Moacyr Scliar tem um modo essencialmente judaico de falar sobre qualquer coisa. Mesmo a biografia de Oswaldo Cruz – o excelente Sonhos tropicais, que relata a Revolta da Vacina, em 1904 – contém divagações existenciais típicas do judaísmo do Leste Europeu. Uma vez judeu, sempre judeu.

6 Qual romance histórico-literário considera mais marcante e importante?

Equador – já citado acima – é um retrato fiel do fim da monarquia portuguesa. A pretexto de contar a história de um diplomata, Miguel Sousa Travares retrata o declínio de uma era. Outro livro que me marcou foi Na fogueira: memórias, do jornalista Joel Silveira. Trata-se de uma autobiografia romanceada que descreve em detalhes o Rio de Janeiro da Era Vargas.

7 Qual romance você já abandonou no meio porque achou aborrecido?

A Guerra do Fim do Mundo, de Mario Vargas Llosa, sobre a Guerra de Canudos. Gostei muito do início, mas o livro foi perdendo o ritmo e caiu no marasmo.

8 Qual a obra de ficção sobre o Holocausto mais pungente e/ou elucidativa sobre o horror que o ser humano é capaz de disseminar?

Não chega a ser ficção, mas tem uma estrutura ficcional. Trata-se de A trégua, de Primo Levi, que narra o calvário dos prisioneiros dos campos nazistas depois da libertação. Muitos não tinham para onde ir e ficaram vagando de trem pela Europa (inclusive pela Rússia). O mundo simplesmente não sabia o que fazer com eles. Trata-se de um aspecto pouco conhecido da Segunda Guerra.

9 Qual é seu personagem literário favorito?

Um personagem que sempre me inspira é Larry Darnell, protagonista do romance O fio da navalha, de Somerset Maughan. Trata-se de um rapaz norte americano, rico e bem nascido, que sai pelo mundo em busca de um sentido para a vida depois de experimentar os horrores da Primeira Guerra. Sua jornada solitária ao Himalaia ainda me impressiona, vinte anos depois da primeira leitura.

10 Que título estranho pode ser visto em sua estante? Um ou mais. Algo que não tenha a ver com seus gostos, mas está lá – e por quê?

Livros técnicos sobre Hanseníase. Há alguns anos eu descrevia um personagem leproso e precisava de dados técnicos. Também tenho ótimos de livros de doutrina jurídica porque sou advogado, inclusive códigos comentados com uma série de ponderações interessantes. São leituras maravilhosas.

11 Você vai dar um pequeno jantar e quer convidar um poeta, um contista, um romancista, um ensaísta e um jornalista. Quem seriam eles? Podem ser brasileiros ou estrangeiros.

Seria um jantar mediúnico porque os quatro já morreram. Poeta: Fernando Pessoa. Contista: Josué Montello. Romancista: Isaac Bashevis Singer. Jornalista: Joel Silveira.

12 Com qual autor ou autora da literatura universal você gostaria de passar uma tarde conversando? Do que vocês falariam?

Gostaria de conhecer Mario Vargas Llosa. Admiro seu discurso político e os romances mais antigos como Conversas no Catedral. Trata-se de um homem lúcido, liberal, com uma percepção apurada sobre a política latino-americana e mundial.

13 Qual a dica de leitura para a presidente Dilma neste momento?

Auto-engano, excelente ensaio do economista Eduardo Gianetti. O livro estuda os truques mentais que inventamos para crer naquilo que nos convém, muitas vezes em detrimento da realidade.

Comentários ( 1 )

  • Marly Bin diz:

    Gosto muito do que Ronaldo escreve. Também fiquei impressionada com “A balada de Adam Henry”. Estou lendo todos de Ian Mac Evan.

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