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Miriam por Tomas Rangel_pb_round_2

“Escrever é o que eu gosto na vida. Criança, escrevia longos textos para mim mesma. Sim, fiz diários e os joguei fora, a tempo. Redações, eu tinha mania de fazer umas três, com estilos diferentes, para cada tema. Escolhia a melhor para entregar ao professor e oferecia as restantes a quem precisasse.

Às vezes escrevo para nada. Pelo prazer de ver as palavras se juntando às outras e formando frases que vão embrulhando ideias, desatando histórias, revelando sentimentos. Ainda escrevo para mim, como quando criança. Faço poesias, que escondo depois em arquivos, mostrando para um ou outro amigo. Abro o computador, numa hora vaga, em dia de ócio, e me deixo levar pelo som que as palavras têm, a música que eles carregam. Às vezes no meio de uma leitura muito árida, eu preciso do som das palavras livres.

Foi assim em uma tarde de sábado. Cansada de leituras pesadas que tinha feito, resolvi descansar e me deixar ficar em estado de preguiça, recostada num sofá. Abri o computador e a frase veio sem que eu esperasse por ela.

“O vulto que surgiu no quarto onde Larissa estava parecia tanto um fantasma que não podia ser”.

Parei. O que era aquilo? Palavras e mais palavras me atropelaram e eu retomei a escrita. Juntas, começaram a compor a cena de uma moça deitada em um pequeno quarto de uma fazenda e que vê algo no qual não acredita. Que não a assusta, mas a intriga. Ela, Larissa, carrega seus próprios pesares.

Continuei, meio espectadora do que eu mesma escrevia, duas mulheres se encontraram num cruzamento do tempo. Será um conto? A linhas tantas, abandonei tudo sem entender o que era. Havia escrito contos na adolescência, mas também tratara de jogar fora. Guardei só um. Aos 20 anos mandei para um concurso no Espírito Santo e recebi menção honrosa. Fui para o jornalismo, apaixonada pelo ofício. Abri o leque para exercer a profissão em todas as mídias, mas o maior dos amores sempre foi e será escrever. Se todas as janelas se fecharem, que essa permaneça aberta. Quero viver assim até o fim: catando palavras e com elas moldando o que queira.

Nos últimos anos, passei a escrever livros e ando feliz como um passarinho, porque com eles sonhei a vida inteira. Escrevi livro de não ficção e histórias infantis. Com a ajuda de Luciana, minha agente literária, publiquei três poesias na Itália. Mas aquele texto que surgiu do nada, me deixava inquieta. Continuei a buscá-lo nos intervalos da vida. Vinha uma ideia, eu escrevia. Estava ocupada em outro projeto grande – ainda estou – então aquelas cenas que vinham e cruzavam minha mente, eram perturbadoras. Não falava para ninguém o que escrevia naquelas horas. A fazenda, que no começo era só um quarto escuro, cresceu. Virou real, tinha muitos quartos, salas, janelões, pátios, cozinha, biblioteca e um enorme porão com mistérios. Eu a compus como uma colagem com pedaços de velhas lembranças e de lugares imaginados. Pessoas foram chegando, carregando dúvidas e fraturas da época da minha juventude, na ditadura. Mas o tempo da ação era o presente. O que era exatamente que eu escrevia? Melhor não contar para ninguém, decidi, e ele ficou, tão secreto quanto meus diários de menina.

– Que tanto você escreve? Perguntou Sérgio, meu marido.
– Uma coisa.

Chegaram mais personagens na história e um dia eu me revoltei. Estava ocupadíssima, com artigos para entregar, que invasão era aquela? Decidi que abandonaria o texto. O afastamento não durou muito. Uma noite, perdi o sono, abri os olhos no escuro e comecei a imaginar o que teria acontecido com aquelas pessoas que eu trancara no texto abandonado. A história, então, começou a se desdobrar. Uma família com uma divisão irreconciliável chegara à fazenda para uma comemoração: mãe, filhos, netos. Outra família chegara também com sua dor mais velha, carregavam as marcas da escravidão de quase dois séculos antes. Eles discutiam. Os irmãos divergiam. Em todos os tempos. Os conflitos eram privados mas, no pano de fundo, duas opressões públicas. De repente, imaginei uma cena e tomei um susto. Aconteceu isso? Me perguntei.

Levantei e fui escrever a cena que entrevira. Atravessei o resto da noite e vi a madrugada chegar, a manhã avançar, o dia se esgotar, escrevendo incansavelmente. As palavras chegaram todas juntas e fizeram fila ao meu lado, querendo ser escritas. A certa altura, abri novo documento e escrevi:

No escondido,
Escrevo.
Como num diário adolescente.
Roubo horas dos deveres
Me furto aos olhares
Dou desculpas
Minto.
Faço tudo pelo direito de ficarmos a sós.
E na história que me possui
Espalho dores minhas
Em bem distribuídos dotes.
Cada um carrega um fardo
Dos fardos meus
No escondido
Camuflo fraquezas
Ou as confesso abertamente.
Se não são minhas
Posso dizê-las
Sabendo que são de fato minhas
Mas que eu as deleguei
Furtivamente.
No escondido
Alegarei inocência
E aguardarei que cada um
Confesse um pecado
Dos pecados meus.

Era o dia dezesseis de dezembro de 2012, quando escrevi a poesia. Ainda levaria um ano escrevendo nos intervalos, nos escondidos, nas madrugadas. Entendi neste tempo que me preparara para escrever o livro durante muito tempo sem saber, em certas leituras que fiz. Em 2014, enfim pronto, revisto, impresso, eu me sentei para dar os primeiros autógrafos no livro “Tempos Extremos”, que lancei pela Intrínseca. Ele trata de dois passados mal curados: escravidão e ditadura. Eu o dediquei aos personagens. “Eles vieram do nada. Sem convite, sem aviso. Para eles escrevi. Em delírio e por deleite”.

Começou assim, numa hora vaga. E com aquela frase que me puxou para dentro da história. Era tudo ficção. Ou não?”

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***

Crônica publicada originalmente no blog de Matheus Leitão: http://www.matheusleitao.com.br/7792-cronica-da-miriam-leitao-e-era-tudo-ficcao.html

 

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