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Uma mulher, com pouco mais de 30 anos andava, com passos firmes e curtos, em um enorme quintal. O vento balançava ligeiramente a saia rodada e atrapalhava seus cabelos finos e muito lisos. No céu, o sol não dava trégua. Havia algumas árvores nas beiradas do terreno, uma goiabeira grande e carregada oferecia sua sombra e frutos numa área lateral. A maior parte da terra, no entanto, era aberta, um descampado. Atrás dela alguns homens seguiam em silêncio carregando pás e enxadas. Ela olhava em volta, mirava o chão e, às vezes, encarava o céu. Investigava. A luz do dia fazia seus olhos ainda mais azuis; sua pele, mais branca.

Em silêncio ela andava; em silêncio os homens a seguiam. A mulher se distanciava da casa, depois voltava mais um pouco. Caminhava para a esquerda, voltava. Procurava. Atrás dela, os homens e suas ferramentas. Cada vez que parava, retomava o ritual de interrogar o céu, o entorno e o chão. Em um determinado ponto, parou decidida. Voltou, então, o rosto convicto para os homens e disse:

– Aqui. Podem cavar aqui. E desenhou um círculo imaginário.

Eles começaram. Não demorou muito e eles gritaram para a mulher que já voltara para o trabalho na casa.

– É aqui mesmo!

As crianças correram para ver. Ela veio conferir e baixou novo decreto

– É boa, podem continuar a cavar.

Assim foi feito o poço da casa. Ela conhecia a técnica e explicou aos trabalhadores como cumprir cada etapa da construção do poço. Enfatizou a segurança da tampa que afastava as crianças dos riscos. Ela trouxera o conhecimento talvez da fazenda em que passara sua infância.

Ninguém mais na casa se preocupou com o abastecimento incerto da empresa fornecedora de água da cidade. Nunca se tirou mais do que o poço poderia suprir. Ele estava sempre cheio. Mesmo assim os filhos eram orientados a escovar os dentes, ou tomar banho usando apenas o necessário. Uma parte da água usada era reutilizada em funções menos nobres. Ela criara a fartura e alertava sobre a escassez. O gasto a mais, ela se permitia apenas quando fazia a limpeza geral da cozinha. Então, ela se divertia com os pés descalços na água, como se o trabalho fosse uma brincadeira. Ou quando aguava a horta que plantou numa parte do quintal e que enchia a mesa de verduras e legumes. Seus banhos eram sempre frios e saía deles com ânimo juvenil.

O Brasil estava se urbanizando rapidamente, da forma improvisada de sempre, com serviços públicos precários. O desmatamento avançava na Zona da Mata, produzindo desequilíbrios. Nas estiagens, os vizinhos pediam baldes de água. Levavam. Ela sabia encontrar a água, previa sua chegada e temia sua força.

– Vai chover – decretava, às vezes, mesmo sem sombra alguma no céu.

Chovia.

– Está armando uma tempestade – dizia.

A tormenta caía com violência. Então, ela pedia baixinho:

– Jesus, misericórdia.

Se piorasse muito e raios cortassem os céus, ela aumentava o fervor da oração. Um dia, o marido programou um passeio numa cachoeira da vizinhança. Ela disse que tinha muito trabalho a fazer. Ficaria. Ele levou os filhos maiores e a irmã caçula da mulher. Ela orientou as crianças sobre os perigos das águas. Todos se cuidaram. A irmã se descuidou. Por um tempo, que pareceu longo demais, a moça forte e morena afundou nas águas. Foi resgatada com esforço.

– Não digam nada para a sua mãe quando chegarmos em casa. Deixem que eu sei como contar para não assustá-la – avisou o homem.

A moça ainda meio fraca seria a última a sair do carro para não assustar a irmã. As instruções foram seguidas. Crianças em silêncio, a moça, mais atrás, e o homem bem na frente.

– Onde está minha irmã? O que aconteceu com ela? – perguntou aflita a mulher tão logo viu o marido.

– Ela está bem, veja você mesma, mas quem te contou?

– Um pressentimento.

Assim eram ela e a água. Uma relação de respeito, medo, conhecimento e prenúncio. Ela sabia onde as águas moravam, temia seus excessos e sua ausência.

Era assim, a mulher. Com uma sabedoria que nem sei explicar. Nessa seca dei de me lembrar dela assim, do nada, tentando entender pelo menos um dos seus muitos mistérios. Estava linda, Mariana, minha mãe, andando no quintal, investigando céu, terra e ar atrás da água que nos abasteceria.

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