Nosso Blog

2015-03-12_14.48.58

13 perguntas sobre livros e leituras

“Brás Cubas fundou a literatura carioca”

A rapidez com que Alberto Mussa respondeu à entrevista O Autor como Leitor confirmou a impressão da VB&M de que seria impossível formular perguntas sobre as quais ele já não houvesse refletido. Autor de A primeira história do mundo, lançado pela Record em 2014, entre outros três premiados romances, livros de contos e ensaios, Mussa, que é de rigorosa informalidade – perdoem o oxímoro -, vive 90% do tempo de shorts e havaianas, mas tem uma erudição que supera as fronteiras de qualquer academia.

Seu conhecimento não só da literatura universal como de linguística e mitologia da Antiguidade e de sociedades primitivas só tem paralelo em sua ignorância da cultura de massas dos séculos XX e XXI. (Samba não é cultura de massa, certo?) Ele pode hesitar para responder quem foi, por exemplo, Rita Hayworth ou Little Richards, mas lê praticamente todas as línguas, além de já ter traduzido árabe (não deixem de ver Poemas suspensos, sua tradução de poesia pré-islâmica) e tupi-guarani.

Não surpreende portanto que para ele a maior obra literária de todos os tempos seja o monumental clássico indiano Mahabharata, escrito em sânscrito provavelmente em torno de 400 AC. A ficção de Alberto Mussa reflete uma visão mítica da espécie humana, segundo a qual o adultério – e não o incesto – é o tabu fundador das sociedades – isso com todo o respeito ao antropólogo Claude Lévi-Strauss, cuja obra considera fundamental na formação do escritor que ele é hoje.

Apaixonado por sua cidade, Mussa desenvolve um projeto de contar em cinco romances os crimes fundadores de cada século do Rio de Janeiro. A primeira história do mundo e O trono da rainha Jinga trataram dos séculos XVI e XVII. Já lançado em inglês, italiano, catalão e, agora, francês e espanhol, e ainda vendido pela VB&M para a Etiópia e para a Macedônia, O senhor do lado esquerdo narra um crime praticamente insolúvel ocorrido na primeira década do século XX. Segundo Alberto Mussa, o romance que inaugurou a literatura carioca é Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, que inseriu o espírito do Rio na própria estrutura romanesca.

 

1 Quais livros estão em cima de sua mesa de cabeceira?

O terceiro volume do Handbook of South American Indians (The tropical forest tribes), o romance As tardes de um pintor, do Teixeira e Sousa, e a coletânea Três novelas da cidade, do Lúcio Cardoso.

2 Qual é para você a literatura nacional mais rica de todos os tempos? E nesse conjunto literário qual é a obra mais importante?

As várias literaturas da Índia, antiga e moderna. E o Mahabharata é a maior de todas as obras literárias.

3 Tendo que pinçar não mais que três títulos, quais os livros mais fundamentais na formação do escritor (e leitor) que você é hoje?

As Mitológicas, de Lèvi-Strauss; A invenção de Morel, do Bioy Casares; e todos os contos do Machado de Assis.

4 Qual romance passado no Rio é mais fiel ao espírito da cidade?

Memórias póstumas de Brás Cubas, que funda a literatura carioca propriamente dita; que põe o espírito carioca no interior da estrutura romanesca.

5 E no conto? Diga-nos quais as histórias que, para você, mais refletem e revelam o Rio de Janeiro.

Machado, Lima Barreto, Marques Rebelo, Nelson Rodrigues… Poderia citar aleatoriamente, mas a melhor definição do Rio de Janeiro está no conto O bloco das Mimosas Borboletas, do paulista Ribeiro Couto.

6 Quais personagens femininas da literatura brasileira mais o fascinaram? Não mais que três, por favor.

A Engraçadinha do Nelson Rodrigues; a Dona Flor do Jorge Amado; a linda Inês do Jorge de Lima.

7 E na literatura mundial, quais são as personagens femininas inesquecíveis?

Medeia; Xerazade; a Donzela Teodora.

8 Diga-nos três livros que você considera indispensáveis na literatura hispano-americana.

Os passos perdidos, do (Alejo) Carpentier; Crônica de uma morte anunciada, do García Márquez; e qualquer coletânea com contos do Borges.

9 E na literatura norte-americana, quais são as três leituras mais fundamentais?

Qualquer antologia com contos do (Nathaniel) Hawthorne; qualquer antologia com contos do (Henry) James; e o Moby Dick, de (Herman) Melville.

10 Diga-nos um livro que já lhe deu raiva.

Guerra e paz, de Tolstói, quando meu pai me madou resenhá-lo, como castigo.

11 Você já parou no meio de um livro? Qual e por quê?

A partir dos 43 anos, comecei a parar de ler todos os livros que em 20 páginas não me despertaram emoção ou reflexão.

12 Qual foi a última leitura que lhe provocou uma gargalhada.

O inédito Êxodos de Eurídice, da Martha Mamede Batalha.

13 Uma dica de leitura para a presidente Dilma neste momento, por favor.

O capital, de Karl Marx.

Comentários ( 0 )

    Deixe um comentário

    O seu e-mail não será publicado. Campos obrigatórios estão marcados com *