março 2015

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O Autor como Leitor – Ronaldo Wrobel

13 perguntas sobre livros e leituras

“Ler Philip Roth é como estar numa reunião de família”

Com Traduzindo Hannah, Ronaldo Wrobel já se impôs como um dos mais importantes nomes da ficção nacional contemporânea e, particularmente, da nova e impressionante literatura de inspiração judaica que começa a se consolidar no Brasil. Obsessivo e perfeccionista, Ronaldo está debruçado há mais de três anos em seu segundo livro de ficção longa, O romance inacabado de Sofia Stein, que deverá estar finalizado até setembro deste ano e, como Hannah, sairá pela Record. As questões da identidade, tema caro ao autor, reaparecem no novo livro, que tem pautado muito das leituras de Ronaldo. A O Autor como Leitor, ele discorre com clareza, sinceridade e brilho sobre suas preferências literárias, literatura judaica nos Estados Unidos e no Brasil, romance histórico-literário, suas fontes de pesquisa e a produção sobre o Holocausto.

1 Quais livros encontram-se agora em sua mesa de cabeceira?

Tenho feito pesquisas históricas para o próximo romance, que terá trechos passados na Alemanha nazista. O historiador britânico Richard Evans fez uma trilogia fantástica sobre o período: A chegada do Terceiro Reich, O Terceiro Reich no poder e O Terceiro Reich em guerra. Os três livros não saem da minha mesa de cabeceira. O último romance que passou por lá foi A balada de Adam Henry, de Ian McEwan.

2 Qual é seu romancista preferido de todos os tempos? E qual é seu romance favorito?

Tenho romances preferidos, não romancistas. Consider Equador, de Miguel Sousa Tavares, uma obra-prima. Leio e releio Tia Júlia e o Escrevinhador, de Mário Vargas Llosa. Também leio e releio tudo o que o italiano Primo Levi escreveu sobre campos de concentração.

3 Quem são os melhores escritores em atividade hoje? De três a cinco nomes, por favor.

Miguel Sousa Tavares, Richard Zimmler, Eduardo Gianetti (por seus ensaios sobre temas profundamente humanos como felicidade, imediatismo e auto-engano)

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4 No grande arco da literatura judaica norte-americana, quem é seu escritor preferido?

Philip Roth. Tudo o que ele escreve é essencialmente judaico, mesmo quando explica como se fabricam luvas de pelica. Ler Philip Roth é como estar numa reunião de família.

5 Qual é a grande obra ficcional do judaísmo literário brasileiro, que agora parece finalmente se consolidar?

Gosto muito de A guerra no Bom Fim, um clássico de Moacyr Scliar. Suas memórias refletem a vivência do imigrante nos anos 1940. Convivi com avós e tios russos e poloneses. Conheci de perto o misto de estranheza e maravilhamento com o qual enxergavam o Brasil. Assim como Philip Roth, Moacyr Scliar tem um modo essencialmente judaico de falar sobre qualquer coisa. Mesmo a biografia de Oswaldo Cruz – o excelente Sonhos tropicais, que relata a Revolta da Vacina, em 1904 – contém divagações existenciais típicas do judaísmo do Leste Europeu. Uma vez judeu, sempre judeu.

6 Qual romance histórico-literário considera mais marcante e importante?

Equador – já citado acima – é um retrato fiel do fim da monarquia portuguesa. A pretexto de contar a história de um diplomata, Miguel Sousa Travares retrata o declínio de uma era. Outro livro que me marcou foi Na fogueira: memórias, do jornalista Joel Silveira. Trata-se de uma autobiografia romanceada que descreve em detalhes o Rio de Janeiro da Era Vargas.

7 Qual romance você já abandonou no meio porque achou aborrecido?

A Guerra do Fim do Mundo, de Mario Vargas Llosa, sobre a Guerra de Canudos. Gostei muito do início, mas o livro foi perdendo o ritmo e caiu no marasmo.

8 Qual a obra de ficção sobre o Holocausto mais pungente e/ou elucidativa sobre o horror que o ser humano é capaz de disseminar?

Não chega a ser ficção, mas tem uma estrutura ficcional. Trata-se de A trégua, de Primo Levi, que narra o calvário dos prisioneiros dos campos nazistas depois da libertação. Muitos não tinham para onde ir e ficaram vagando de trem pela Europa (inclusive pela Rússia). O mundo simplesmente não sabia o que fazer com eles. Trata-se de um aspecto pouco conhecido da Segunda Guerra.

9 Qual é seu personagem literário favorito?

Um personagem que sempre me inspira é Larry Darnell, protagonista do romance O fio da navalha, de Somerset Maughan. Trata-se de um rapaz norte americano, rico e bem nascido, que sai pelo mundo em busca de um sentido para a vida depois de experimentar os horrores da Primeira Guerra. Sua jornada solitária ao Himalaia ainda me impressiona, vinte anos depois da primeira leitura.

10 Que título estranho pode ser visto em sua estante? Um ou mais. Algo que não tenha a ver com seus gostos, mas está lá – e por quê?

Livros técnicos sobre Hanseníase. Há alguns anos eu descrevia um personagem leproso e precisava de dados técnicos. Também tenho ótimos de livros de doutrina jurídica porque sou advogado, inclusive códigos comentados com uma série de ponderações interessantes. São leituras maravilhosas.

11 Você vai dar um pequeno jantar e quer convidar um poeta, um contista, um romancista, um ensaísta e um jornalista. Quem seriam eles? Podem ser brasileiros ou estrangeiros.

Seria um jantar mediúnico porque os quatro já morreram. Poeta: Fernando Pessoa. Contista: Josué Montello. Romancista: Isaac Bashevis Singer. Jornalista: Joel Silveira.

12 Com qual autor ou autora da literatura universal você gostaria de passar uma tarde conversando? Do que vocês falariam?

Gostaria de conhecer Mario Vargas Llosa. Admiro seu discurso político e os romances mais antigos como Conversas no Catedral. Trata-se de um homem lúcido, liberal, com uma percepção apurada sobre a política latino-americana e mundial.

13 Qual a dica de leitura para a presidente Dilma neste momento?

Auto-engano, excelente ensaio do economista Eduardo Gianetti. O livro estuda os truques mentais que inventamos para crer naquilo que nos convém, muitas vezes em detrimento da realidade.

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EVENTO LEMBRA QUE LITERATURA NÃO É SINÔNIMO DE BEST-SELLER

BETTY MILAN

 

A abertura oficial de um evento em geral é aborrecida. A do Salão do Livro de Paris de 2015, no entanto, foi alvissareira, graças à intervenção do atual ministro da cultura, Juca Ferreira, que se valeu da ocasião para lembrar que a literatura explora e amplia as possibilidades da língua, revelando o seu tesouro. Noutras palavras, afirmou, em alto e bom som, que literatura não é sinônimo de best-seller, como quer o mercado. Só para ouvir isso, já teria valido a pena estar presente.

Juca Ferreira lembrou que, sendo a mais solitária das atividades, a literatura é a mais coletiva, pois, através da sua memória, o autor expressa a de todos. Em outros termos, a literatura está a serviço da pátria linguística. Terminou dizendo o que precisa ser dito e repetido: a cultura é decisiva para qualquer projeto de desenvolvimento sustentável, pois a paz requer a mudança das mentalidades.

Evocou a importância da relação entre a cultura francesa e a brasileira, que data de quando o Brasil ainda sonhava com a República porque, como diz Mario Quintana, o que devemos à França não é a cultura francesa, é a cultura universal.

A esse discurso contundente se seguiu uma mesa da qual participaram Renato Lessa, presidente da Biblioteca Nacional, Felipe Lindoso, do Itaú Cultural, Jefferson Assunção, do MinC, e o escritor Fernando Morais. Renato Lessa insistiu na importância da internacionalização da literatura brasileira e afirmou, oportunamente, que o programa de formação de tradutores da Biblioteca não será sazonal, pois ela é a guardiã do patrimônio bibliográfico brasileiro.

Fernando Morais fechou a mesa dizendo que, para transportar a cultura de um país para o outro, a mais poderosa das instituições é a arte. Lembrou que os Estados Unidos conseguiram o prodígio de transformar os caubóis em heróis —a exemplo de John Wayne, que encarnou o maior dos genocídios cometido pelo país. Na mesma linha, evocou o último filme de Clint Eastwood, “Sniper Americano”, que consagra a brutalidade americana, sacralizando o assassinato.

Concluiu, falando da cultura como “soft power”, insistindo na ideia de que a cultura exerce influência sem violência, podendo portanto ser um instrumento de paz. Assim, a unificação da Angola se deve à língua portuguesa.

Quem participou do Salão do Livro de Paris em 1998, como eu, percebe que, desde então, muitas águas rolaram. Isso também se deve a uma organização mais afinada —com tradutores bem formados para acolher os escritores— e uma curadoria que não deixa nada a desejar.

BETTY MILAN é escritora e psicanalista, autora de “Carta ao Filho” (ed. Record)

Miriam por Tomas Rangel_pb_round_2

“Escrever é o que eu gosto na vida. Criança, escrevia longos textos para mim mesma. Sim, fiz diários e os joguei fora, a tempo. Redações, eu tinha mania de fazer umas três, com estilos diferentes, para cada tema. Escolhia a melhor para entregar ao professor e oferecia as restantes a quem precisasse.

Às vezes escrevo para nada. Pelo prazer de ver as palavras se juntando às outras e formando frases que vão embrulhando ideias, desatando histórias, revelando sentimentos. Ainda escrevo para mim, como quando criança. Faço poesias, que escondo depois em arquivos, mostrando para um ou outro amigo. Abro o computador, numa hora vaga, em dia de ócio, e me deixo levar pelo som que as palavras têm, a música que eles carregam. Às vezes no meio de uma leitura muito árida, eu preciso do som das palavras livres.

Foi assim em uma tarde de sábado. Cansada de leituras pesadas que tinha feito, resolvi descansar e me deixar ficar em estado de preguiça, recostada num sofá. Abri o computador e a frase veio sem que eu esperasse por ela.

“O vulto que surgiu no quarto onde Larissa estava parecia tanto um fantasma que não podia ser”.

Parei. O que era aquilo? Palavras e mais palavras me atropelaram e eu retomei a escrita. Juntas, começaram a compor a cena de uma moça deitada em um pequeno quarto de uma fazenda e que vê algo no qual não acredita. Que não a assusta, mas a intriga. Ela, Larissa, carrega seus próprios pesares.

Continuei, meio espectadora do que eu mesma escrevia, duas mulheres se encontraram num cruzamento do tempo. Será um conto? A linhas tantas, abandonei tudo sem entender o que era. Havia escrito contos na adolescência, mas também tratara de jogar fora. Guardei só um. Aos 20 anos mandei para um concurso no Espírito Santo e recebi menção honrosa. Fui para o jornalismo, apaixonada pelo ofício. Abri o leque para exercer a profissão em todas as mídias, mas o maior dos amores sempre foi e será escrever. Se todas as janelas se fecharem, que essa permaneça aberta. Quero viver assim até o fim: catando palavras e com elas moldando o que queira.

Nos últimos anos, passei a escrever livros e ando feliz como um passarinho, porque com eles sonhei a vida inteira. Escrevi livro de não ficção e histórias infantis. Com a ajuda de Luciana, minha agente literária, publiquei três poesias na Itália. Mas aquele texto que surgiu do nada, me deixava inquieta. Continuei a buscá-lo nos intervalos da vida. Vinha uma ideia, eu escrevia. Estava ocupada em outro projeto grande – ainda estou – então aquelas cenas que vinham e cruzavam minha mente, eram perturbadoras. Não falava para ninguém o que escrevia naquelas horas. A fazenda, que no começo era só um quarto escuro, cresceu. Virou real, tinha muitos quartos, salas, janelões, pátios, cozinha, biblioteca e um enorme porão com mistérios. Eu a compus como uma colagem com pedaços de velhas lembranças e de lugares imaginados. Pessoas foram chegando, carregando dúvidas e fraturas da época da minha juventude, na ditadura. Mas o tempo da ação era o presente. O que era exatamente que eu escrevia? Melhor não contar para ninguém, decidi, e ele ficou, tão secreto quanto meus diários de menina.

– Que tanto você escreve? Perguntou Sérgio, meu marido.
– Uma coisa.

Chegaram mais personagens na história e um dia eu me revoltei. Estava ocupadíssima, com artigos para entregar, que invasão era aquela? Decidi que abandonaria o texto. O afastamento não durou muito. Uma noite, perdi o sono, abri os olhos no escuro e comecei a imaginar o que teria acontecido com aquelas pessoas que eu trancara no texto abandonado. A história, então, começou a se desdobrar. Uma família com uma divisão irreconciliável chegara à fazenda para uma comemoração: mãe, filhos, netos. Outra família chegara também com sua dor mais velha, carregavam as marcas da escravidão de quase dois séculos antes. Eles discutiam. Os irmãos divergiam. Em todos os tempos. Os conflitos eram privados mas, no pano de fundo, duas opressões públicas. De repente, imaginei uma cena e tomei um susto. Aconteceu isso? Me perguntei.

Levantei e fui escrever a cena que entrevira. Atravessei o resto da noite e vi a madrugada chegar, a manhã avançar, o dia se esgotar, escrevendo incansavelmente. As palavras chegaram todas juntas e fizeram fila ao meu lado, querendo ser escritas. A certa altura, abri novo documento e escrevi:

No escondido,
Escrevo.
Como num diário adolescente.
Roubo horas dos deveres
Me furto aos olhares
Dou desculpas
Minto.
Faço tudo pelo direito de ficarmos a sós.
E na história que me possui
Espalho dores minhas
Em bem distribuídos dotes.
Cada um carrega um fardo
Dos fardos meus
No escondido
Camuflo fraquezas
Ou as confesso abertamente.
Se não são minhas
Posso dizê-las
Sabendo que são de fato minhas
Mas que eu as deleguei
Furtivamente.
No escondido
Alegarei inocência
E aguardarei que cada um
Confesse um pecado
Dos pecados meus.

Era o dia dezesseis de dezembro de 2012, quando escrevi a poesia. Ainda levaria um ano escrevendo nos intervalos, nos escondidos, nas madrugadas. Entendi neste tempo que me preparara para escrever o livro durante muito tempo sem saber, em certas leituras que fiz. Em 2014, enfim pronto, revisto, impresso, eu me sentei para dar os primeiros autógrafos no livro “Tempos Extremos”, que lancei pela Intrínseca. Ele trata de dois passados mal curados: escravidão e ditadura. Eu o dediquei aos personagens. “Eles vieram do nada. Sem convite, sem aviso. Para eles escrevi. Em delírio e por deleite”.

Começou assim, numa hora vaga. E com aquela frase que me puxou para dentro da história. Era tudo ficção. Ou não?”

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Crônica publicada originalmente no blog de Matheus Leitão: http://www.matheusleitao.com.br/7792-cronica-da-miriam-leitao-e-era-tudo-ficcao.html

 

A VB&M sempre fecha  – completamente – com os textos políticos do escritor Altamir Tojal.

 

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O brasileiro vai reafirmar em 12 de abril a opção pela paz, pela liberdade e pela democracia.

Na tentativa de dar sobrevida a seu governo, o PT avança no esforço de confundir a sociedade e provocar a secessão no Brasil.

Enquanto Dilma e seus ministros admitem que as manifestações contra o governo são democráticas, os robôs e o que resta da militância petista ecoam o bordão de que os manifestantes são golpistas. Repetem essa mentira milhões de vezes regidos por seu Goebbels reencarnado marqueteiro.

Ao mesmo tempo, petistas e aliados constroem a falsa expectativa de que as manifestações levarão a sociedade a ter de decidir entre o General Stédile, do exército convocado por Lula, e o Capitão Bolsonaro, que quer a volta dos militares ao poder.

A sociedade brasileira não quer o General Stédile nem o Capitão Bolsonaro. E deixou isso claro no dia 15 de março.

A sociedade não quer a violência do Exército de Stédile. A sociedade quer paz e respeito à Constituição.

A sociedade não quer a intervenção militar do Capital Bolsonaro. A sociedade quer a intervenção popular com respeito ao seu voto.

O brasileiro vai reafirmar em 12 de abril a opção pela paz, pela liberdade e pela democracia.

O brasileiro quer um estado que assegure o direito de trabalhar e produzir. Não aceita pagar a conta dos erros políticos, da incompetência e da corrupção do PT e seus aliados. Não aceita mais inflação, impostos e desemprego.

O brasileiro quer justiça célere para os que saqueiam o estado e as empresas públicas. Não aceita impunidade.

O brasileiro quer saúde, educação, transporte e segurança. Não aceita um governo partilhado por políticos, empreiteiros e burocratas corruptos.

O brasileiro quer um sistema eleitoral que respeite o seu voto, campanhas limpas e partidos comprometidos com programas. Não aceita pacotes e projetos que prometem mudança e entregam continuísmo.

A sociedade vai ser capaz de vencer a organização criminosa que desgoverna o Brasil com o poder legítimo da Constituição.

12 de abril vai ser maior.

ALTAMIR TOJAL

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Ilustração: Tereza Bettinardi

Noemi Jaffe

No mesmo dia em que se concluía a revisão de Írisz: as orquídeas, romance meu que será lançado em maio, fiquei sabendo da morte de Armênio Guedes, que eu entrevistei um ano atrás justamente para compreender melhor o personagem Martim — brasileiro e, como Armênio, comunista dissidente.

Eu precisava entender o que significou, para a militância de esquerda brasileira, a invasão soviética na Hungria em 1956, um dos temas centrais da narrativa do romance. Sabia, em teoria, da ruptura que essa entrada dos russos em Budapeste tinha provocado. Mas queria conhecer a subjetividade dessa frustração, o alcance pessoal e concreto da dissidência.

Armênio me recebeu em sua casa, em São Paulo, onde passava os dias ouvindo música clássica, lendo e recebendo amigos e a família. Estava com 96 anos, reclamando muito de uma intervenção médica malsucedida e culpava o médico por sua audição deficitária e alguns outros problemas de saúde. Mas não era mau humorado. Tampouco carinhoso em excesso. Altivamente generoso, talvez. E isso, para mim, foi o mais importante, porque me ajudou a compor melhor a personalidade de Martim, que, como Armênio, é um homem rigoroso, mas não rígido; fraterno, mas não sentimental; simples, mas não simplista.

A dissidência de Guedes com relação a Prestes (de quem foi amigo e assistente) nunca representou renúncia a seus ideais de esquerda. Disse que, aos poucos, foi se tornando cada vez mais um gramsciano e me explicou, cuidadosa e dignamente, o que isso queria dizer, ao menos em seu caso. Me falou de todas as dificuldades por que passou o partido comunista no Brasil, seu período áureo e os tempos de censura e repressão. Me falou de seu irmão que, preso pela ditadura e com pavor da tortura, ameaçou estrangular quem o interrogava para poder ser morto a tiros e, assim, evitar ser torturado. Mas falava tudo isso com calma; sem nostalgia nem pesar, como cabe a uma consciência política que, mesmo depois dos 90 anos, continuava ativa e confiante. Gostava muito de Dilma, de Lula e de Fernando Henrique e dizia que o país nunca esteve tão bem, mesmo acompanhando todos os problemas que vinham acontecendo. Admirava muito Juscelino, que dizia ter sido um presidente verdadeiramente democrático, durante cujo mandato Armênio e o comunismo tiveram total liberdade de expressão.

Meu objetivo, ao encontrá-lo, além de estudar a história do comunismo no Brasil, suas divisões internas e sua continuidade, era, sobretudo, o de dar consistência particularizada a Martim, na medida de uma vida em ato e gesto e não em pensamento ou especulação. Armênio Guedes achava que o comunismo gramsciano levaria o país a um socialismo maduro e democrático. Foi nisso que ele acreditou e achava, quando eu o encontrei, que a evolução dos atuais governos estaria nos levando a esse caminho.

Como todo bom socialista, Armênio era um otimista. E, nesse otimismo, na dignidade simultaneamente orgulhosa e humilde de quem ajudou a construir a história da esquerda no Brasil, eu conheci um homem íntegro.

Espero que Martim também seja assim e que a memória de Armênio Guedes resista e seja honrada num personagem que é ficcional mas que, por isso mesmo, pode nos remeter à infinitude de detalhes do real.

* * *

Este artigo é uma reprodução do Blog da Companhia das Letras: http://www.blogdacompanhia.com.br/2015/03/infinitude-do-real/

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O AUTOR COMO LEITOR – Noemi Jaffe

13 Perguntas sobre livros e leituras

Narizinho é uma personagem feminina favorita”

O primeiro romance de Noemi Jaffe tem um título intrigante e é um diamante puro, perfeito e lapidado. Irisz: As orquídeas  conta a história de uma jovem botânica húngara, que em 1956 deixa Budapeste, fugindo da contra-revolução, para trabalhar no Jardim Botânico de São Paulo com uma pesquisa sobre flores capazes de adaptação a ambientes adversos.

Lá Irisz conhece Martim, diretor do Jardim Botânico, bem mais velho, um comunista sofrendo as primeiras desilusões ideológicas que o comunismo infligiu a seus adeptos ao longo do século XX. Ele se apaixona por ela, e a pergunta que conduz o leitor até o final é: Irisz permanecerá em São Paulo, ou preferirá voltar e resistir em sua terra à dominação soviética? O certo é que Irisz ficará como uma das personagens femininas mais ricas, multidimensionais e deliciosas da literatura brasileira; o leitor poderá conferir a partir da segunda metade de maio, quando o romance será publicado pela Companhia das Letras.

Outro livro de Noemi foi escrito a seis mãos, as dela, as de sua mãe e de sua filha, um testemunho trigeracional do Holocausto. O que os cegos estão sonhando?, da Editora 34, parte do diário que Lili Jaffe escreveu desde que deixou a Sérvia levada por soldados nazistas para Auschwitz, os meses que passou no campo e o período de quarentena na Suécia depois da libertação; direitos de tradução acabam de ser vendidos à editora Deep Vellum, nos EUA, pela VB&M em parceria com a 2-Seas Agency. Noemi Jaffe é ainda magnífica contista – A verdadeira história do alfabeto, da Companhia, conquistou o prêmio Brasília, além de ter sido finalista de várias outras premiações; poeta e crítica, colabora com a Folha de S.Paulo regularmente; e uma grande leitora, como se pode ver nessa entrevista.

 

1 Quais livros estão agora sobre sua mesa de cabeceira?

O teatro de Sabbath, de Philip Roth; Por escrito, de Elvira Vigna; Ser judeu, de Vilem Flusser.

2 Cite três livros fundamentais para a sua formação, obras fundamentais para a construção da escritora e da mulher que você é hoje.

José e seus irmãos, de Thomas Mann; Rumo ao farol, de Virginia Woolf; O arco e a lira, de Octavio Paz.

3 Quais são as três cidades mais literárias de todos os tempos e quais obras lhes prestam maiores homenagens?

Rio de Janeiro, nos contos de Machado de Assis, São Petersburgo, nos contos de Anton Tchekhov, Paris, na obra de Flaubert.

4 Quem são os três maiores romancistas em atividade?

Não acho que estes sejam os três maiores, porque há muitos outros comparáveis, mas estão entre os meus preferidos: Philip Roth, David Grossman e Cristovão Tezza.

5 Quem são seus poetas preferidos? Não mais que três, por favor.

Emily Dickinson, William Carlos Williams e Manuel Bandeira.

6 Cite três personagens femininas favoritas da literatura mundial.

Felicité, de Flaubert; A protagonista do conto Amor, de Clarice Lispector; Narizinho, de Monteiro Lobato.

7 E os três personagens masculinos mais queridos, quem são?

Austerlitz, do romance de mesmo nome, de Sebald; Jó, do Antigo Testamento; José, de José e seus irmãos, de Thomas Mann (desculpe a redundância).

8 Qual a obra de crítica literária mais importante para sua formação nessa atividade?

A preparação do romance, de Roland Barthes.

9 Quem são seus contistas preferidos?

Anton Tchekhov, Julio Cortázar e Machado de Assis.

10 Quais os mais belos contos da literatura brasileira?

A causa secreta, de Machado de Assis; Tentação, de Clarice Lispector; No tempo da camisolinha, de Mario de Andrade

11 Se você pudesse viver dentro do universo de uma obra literária, que obra seria essa?

O jogo de amarelinha, de Julio Cortázar.

12 Qual será sua próxima leitura?

Os livros da coleção Pequenos Exílios, organizada pela Paloma Vidal.

13 Que livro seria importante que a presidente Dilma lesse neste momento?

A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector, porque acredito que ela precise passar, como a personagem, por um processo profundo de autoconhecimento e de transformação daquilo que está recalcado, em algo mais produtivo e solar.

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Por Alison Entekin

 

O começo de carreira do tradutor literário é complicado. Ninguém o conhece e construir uma clientela fiel leva tempo. E ainda assim é uma clientela diferente da do tradutor técnico ou jurídico, cujos clientes batem na sua porta com mais freqüência, pedindo traduções mais ou menos parecidas com as últimas. O cliente do tradutor literário, porém, não volta toda hora — mesmo quando o tradutor já tem um nome consolidado no mercado — porque a produção literária é mais espaçada e as traduções são apenas encomendadas quando há a possibilidade de publicação no exterior. Para ter o mesmo volume de trabalho que os outros, o tradutor literário independente tem que se virar, e muitas vezes precisa intercalar as traduções com outras atividades. Os trabalhos vêm pingando ao poucos, pelo boca a boca — o fulano que o indicou para beltrano, que repassou o contato para sicrano, que nunca o viu mais gordo. E é aí que mora o perigo.

Sem referências claras sobre o trabalho do tradutor, é natural que o cliente se sinta inseguro com relação à qualidade da tradução. Ele deve tirar dúvidas sim, e até fazer eventuais correções, mas — penso eu — se contratou alguém para fazer algo que ele mesmo não se sente apto a fazer, como é que vai dar pitacos editoriais sobre o texto final, principalmente sobre questões pertinentes à língua estrangeira? E, se é realmente necessário fazer tantas correções assim, eu diria que escolheu o tradutor errado.

O ideal é que se certifique da qualificação do tradutor antes de contratá-lo, pedindo mais informações da pessoa que o indicou, ou solicitando o currículo do tradutor e/ou exemplos de seu trabalho. Também pode pesquisar na internet. Mas, com freqüência, o cliente não se dá esse trabalho e liga logo para o tradutor, começando a conversa assim: “Quem me deu teu nome foi o beltrano… Você ainda está mexendo com tradução?” Assim mesmo: MEXENDO COM. Como se de uma hora para a outra a pessoa fosse parar de “mexer com” tradução e começar a “mexer com” outra coisa. Imagino que a pessoa que realmente “mexe com” tradução deva responder: “Sim, mandaí que eu faço. É sobre o quê mesmo?” Depois, quando o cliente estiver lendo a tradução e começar a duvidar de cada palavra usada,  ele vai xingar o tradutor sem nunca perceber que a culpa pode ser dele por ter contratado alguém que “mexe com” tradução. Esse é o cenário do cliente inseguro e o tradutor incompetente. Eu chamo este último de “mexe com”.

Mas existe outro cenário que é quase o contrário do descrito acima: o do tradutor competente e o cliente sabe-tudo. Este tipicamente morou alguns anos fora do país, o que o torna automaticamente um perito em tudo sobre a língua estrangeira. O sabe-tudo tem por certo que todo tradutor é um “mexe com”. Faz questão de ligar no telefone fixo do tradutor e insiste em falar em inglês (ou a língua que for) com quem quer que atenda, mesmo que seja a sogra ou um cuidador de idosos. Tem algo a dizer sobre cada aspecto da tradução e quer brigar sobre o uso correto de preposições (ele adora between e odeia in). O sabe-tudo não se aguenta, precisa mostrar que sabe mais que o tradutor, que é, afinal, uma espécie de processador de palavras, sem sensibilidade para perceber as nuances de seu texto. E o pobre tradutor só percebe com quem está lidando quando já é tarde demais.

Foi mais ou menos assim que travei contato com o Ilustríssimo. Usava o nome de músicos famosos como cartão de visita e se declarava íntimo dos que ele chamava de “a intelectualidade brasileira”. A tradução que ele pediu era pequena, coisa de duas ou três páginas, um release de seu novo trabalho. Era uma época corrida para mim e combinamos que eu ia entregar no final da semana seguinte. Mas o Ilustríssimo não se continha e ligava diariamente para perguntar se eu já tinha lido o texto dele e o que eu achava. E, quando ligava, falava sem parar, me custando pelo menos meia hora de trabalho a cada ligação. Deixei de atender o celular quando via o número dele no visor. Mas o infeliz tinha o número do meu fixo e começou a ligar nele, cinco, seis, sete vezes por dia. Quando eu não atendia o fixo também, ele passou a ligar de números desconhecidos. Parei de atender qualquer ligação com o prefixo 21. Só não o mandei tomar banho por respeito à pessoa que tinha me indicado a ele. E eu nem tinha começado o trabalho. O pior ainda estava por vir.

Quando entreguei as duas ou três páginas da tradução, respirei aliviada, achando que estava finalmente livre do chato. Ledo engano. No dia seguinte descobri que eu — mero processador de palavras que sou — tinha feito uma lambança da tradução, sem perceber a genialidade de seu lindo release. E o Ilustríssimo queria discutir cada detalhe, por telefone. Estava disposto a brigar até a morte para provar que at age five é melhor que at the age of five, e nonetheless é melhor que nevertheless, entre outras coisas. Depois me disse, em inglês, que eram exemplos de como a minha tradução poderia ter sido crispier. Acho que quis dizer crisper, sem o segundo “i”, o que seria “mais conciso”, mas crispier com o “i” — “mais crocante” — era infinitamente melhor! Gaguejei no telefone, tentando abafar uma gargalhada enquanto imaginava a tradução no forno, ficando crispier.

Pensei numa resposta irônica, mas o prazer de esfregar crispier na cara dele não valia as horas e horas de trabalho que eu ia perder numa discussão. Além do mais, ele não tinha me pagado, e embora o dinheiro não fosse muito, estava determinada a receber cada centavo, pelo princípio. Ninguém merecia tanto aborrecimento de graça.

Pois o Ilustríssimo também não se achava merecedor de tanto aborrecimento. Mandou o texto traduzido para um amigo, nativo, como fez questão de frisar. O amigo o revisou, trocando seis por meia dúzia e meia dúzia por seis. Era de outro país, tinha outro jeito de falar e de escrever. Mudou tudo para o jeito dele. E o Ilustríssimo me enviou o texto “corrigido”. Ele não enxergava as mudanças como preferências pessoais — eram provas concretas da minha incompetência. Perguntei ao Ilustríssimo por que ele não tinha pedido para o amigo fazer a tradução. E a resposta foi que o amigo não era tradutor profissional. Meu deus, pensei, se não é profissional como é que você confiou nele para corrigir o texto da tradutora profissional que contratou? Mas essa lógica não passou por sua cabeça. Continuou querendo discutir pontuação, preposições e artigos, e os ritmos que os mesmos impunham ao texto, coisas que só ele — é claro — seria capaz de perceber. Finalmente, semanas depois, ele se deu por satisfeito com o texto filho-de-Frankenstein que tinha criado a partir de trechos da minha tradução e recortes do texto “corrigido” do amigo — com alguns floreios de autoria própria. A esta altura, eu já estava concordando com qualquer sugestão que fazia, para me ver livre dele. Fiz as últimas mudanças que ele tinha pedido e apertei “enviar”.

Cinco minutos depois, chega um email dele gritando:

— MALDIÇÃO! PELO AMOR DE DEUS TIRE ESTE NÚMERO DO MEU TEXTO JÁ!

Não entendi nada.

— Que número? —  devolvi.

— O NÚMERO 13 QUE APARECE AÍ!

Olhei para o anexo e foi quando percebi que o arquivo tinha exatamente 13 kb.

O Ilustríssimo foi um divisor de águas para mim. A partir de então, passei a cobrar 50% do valor da tradução adiantado, para que o cliente divida comigo o risco. Ele corre o risco de eu não entregar ou de entregar uma tradução insatisfatória. E eu corro o risco de ele não me pagar ou de descobrir que é um psicopata. O Ilustríssimo, por exemplo, pagou com 3 meses de atraso. Evito atender pessoas que perguntam se eu “mexo com” tradução ou revisar as traduções de outros.

Espero, com todo o meu coração, que os sabe-tudos e os “mexe cons” da vida se encontrem, porque foram feitos uns para os outros. E que os autores legais e respeitosos encontrem tradutores competentes e atenciosos. E que todas as traduções, literárias ou não, sejam um pouco mais crocantes, por que não?

Crônica retirada da Coluna de Alison Entrekin: http://www.revistapessoa.com/2015/03/por-traducoes-mais-crocantes/

Uma mulher, com pouco mais de 30 anos andava, com passos firmes e curtos, em um enorme quintal. O vento balançava ligeiramente a saia rodada e atrapalhava seus cabelos finos e muito lisos. No céu, o sol não dava trégua. Havia algumas árvores nas beiradas do terreno, uma goiabeira grande e carregada oferecia sua sombra e frutos numa área lateral. A maior parte da terra, no entanto, era aberta, um descampado. Atrás dela alguns homens seguiam em silêncio carregando pás e enxadas. Ela olhava em volta, mirava o chão e, às vezes, encarava o céu. Investigava. A luz do dia fazia seus olhos ainda mais azuis; sua pele, mais branca.

Em silêncio ela andava; em silêncio os homens a seguiam. A mulher se distanciava da casa, depois voltava mais um pouco. Caminhava para a esquerda, voltava. Procurava. Atrás dela, os homens e suas ferramentas. Cada vez que parava, retomava o ritual de interrogar o céu, o entorno e o chão. Em um determinado ponto, parou decidida. Voltou, então, o rosto convicto para os homens e disse:

– Aqui. Podem cavar aqui. E desenhou um círculo imaginário.

Eles começaram. Não demorou muito e eles gritaram para a mulher que já voltara para o trabalho na casa.

– É aqui mesmo!

As crianças correram para ver. Ela veio conferir e baixou novo decreto

– É boa, podem continuar a cavar.

Assim foi feito o poço da casa. Ela conhecia a técnica e explicou aos trabalhadores como cumprir cada etapa da construção do poço. Enfatizou a segurança da tampa que afastava as crianças dos riscos. Ela trouxera o conhecimento talvez da fazenda em que passara sua infância.

Ninguém mais na casa se preocupou com o abastecimento incerto da empresa fornecedora de água da cidade. Nunca se tirou mais do que o poço poderia suprir. Ele estava sempre cheio. Mesmo assim os filhos eram orientados a escovar os dentes, ou tomar banho usando apenas o necessário. Uma parte da água usada era reutilizada em funções menos nobres. Ela criara a fartura e alertava sobre a escassez. O gasto a mais, ela se permitia apenas quando fazia a limpeza geral da cozinha. Então, ela se divertia com os pés descalços na água, como se o trabalho fosse uma brincadeira. Ou quando aguava a horta que plantou numa parte do quintal e que enchia a mesa de verduras e legumes. Seus banhos eram sempre frios e saía deles com ânimo juvenil.

O Brasil estava se urbanizando rapidamente, da forma improvisada de sempre, com serviços públicos precários. O desmatamento avançava na Zona da Mata, produzindo desequilíbrios. Nas estiagens, os vizinhos pediam baldes de água. Levavam. Ela sabia encontrar a água, previa sua chegada e temia sua força.

– Vai chover – decretava, às vezes, mesmo sem sombra alguma no céu.

Chovia.

– Está armando uma tempestade – dizia.

A tormenta caía com violência. Então, ela pedia baixinho:

– Jesus, misericórdia.

Se piorasse muito e raios cortassem os céus, ela aumentava o fervor da oração. Um dia, o marido programou um passeio numa cachoeira da vizinhança. Ela disse que tinha muito trabalho a fazer. Ficaria. Ele levou os filhos maiores e a irmã caçula da mulher. Ela orientou as crianças sobre os perigos das águas. Todos se cuidaram. A irmã se descuidou. Por um tempo, que pareceu longo demais, a moça forte e morena afundou nas águas. Foi resgatada com esforço.

– Não digam nada para a sua mãe quando chegarmos em casa. Deixem que eu sei como contar para não assustá-la – avisou o homem.

A moça ainda meio fraca seria a última a sair do carro para não assustar a irmã. As instruções foram seguidas. Crianças em silêncio, a moça, mais atrás, e o homem bem na frente.

– Onde está minha irmã? O que aconteceu com ela? – perguntou aflita a mulher tão logo viu o marido.

– Ela está bem, veja você mesma, mas quem te contou?

– Um pressentimento.

Assim eram ela e a água. Uma relação de respeito, medo, conhecimento e prenúncio. Ela sabia onde as águas moravam, temia seus excessos e sua ausência.

Era assim, a mulher. Com uma sabedoria que nem sei explicar. Nessa seca dei de me lembrar dela assim, do nada, tentando entender pelo menos um dos seus muitos mistérios. Estava linda, Mariana, minha mãe, andando no quintal, investigando céu, terra e ar atrás da água que nos abasteceria.

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13 perguntas sobre livros e leituras

“Brás Cubas fundou a literatura carioca”

A rapidez com que Alberto Mussa respondeu à entrevista O Autor como Leitor confirmou a impressão da VB&M de que seria impossível formular perguntas sobre as quais ele já não houvesse refletido. Autor de A primeira história do mundo, lançado pela Record em 2014, entre outros três premiados romances, livros de contos e ensaios, Mussa, que é de rigorosa informalidade – perdoem o oxímoro -, vive 90% do tempo de shorts e havaianas, mas tem uma erudição que supera as fronteiras de qualquer academia.

Seu conhecimento não só da literatura universal como de linguística e mitologia da Antiguidade e de sociedades primitivas só tem paralelo em sua ignorância da cultura de massas dos séculos XX e XXI. (Samba não é cultura de massa, certo?) Ele pode hesitar para responder quem foi, por exemplo, Rita Hayworth ou Little Richards, mas lê praticamente todas as línguas, além de já ter traduzido árabe (não deixem de ver Poemas suspensos, sua tradução de poesia pré-islâmica) e tupi-guarani.

Não surpreende portanto que para ele a maior obra literária de todos os tempos seja o monumental clássico indiano Mahabharata, escrito em sânscrito provavelmente em torno de 400 AC. A ficção de Alberto Mussa reflete uma visão mítica da espécie humana, segundo a qual o adultério – e não o incesto – é o tabu fundador das sociedades – isso com todo o respeito ao antropólogo Claude Lévi-Strauss, cuja obra considera fundamental na formação do escritor que ele é hoje.

Apaixonado por sua cidade, Mussa desenvolve um projeto de contar em cinco romances os crimes fundadores de cada século do Rio de Janeiro. A primeira história do mundo e O trono da rainha Jinga trataram dos séculos XVI e XVII. Já lançado em inglês, italiano, catalão e, agora, francês e espanhol, e ainda vendido pela VB&M para a Etiópia e para a Macedônia, O senhor do lado esquerdo narra um crime praticamente insolúvel ocorrido na primeira década do século XX. Segundo Alberto Mussa, o romance que inaugurou a literatura carioca é Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, que inseriu o espírito do Rio na própria estrutura romanesca.

 

1 Quais livros estão em cima de sua mesa de cabeceira?

O terceiro volume do Handbook of South American Indians (The tropical forest tribes), o romance As tardes de um pintor, do Teixeira e Sousa, e a coletânea Três novelas da cidade, do Lúcio Cardoso.

2 Qual é para você a literatura nacional mais rica de todos os tempos? E nesse conjunto literário qual é a obra mais importante?

As várias literaturas da Índia, antiga e moderna. E o Mahabharata é a maior de todas as obras literárias.

3 Tendo que pinçar não mais que três títulos, quais os livros mais fundamentais na formação do escritor (e leitor) que você é hoje?

As Mitológicas, de Lèvi-Strauss; A invenção de Morel, do Bioy Casares; e todos os contos do Machado de Assis.

4 Qual romance passado no Rio é mais fiel ao espírito da cidade?

Memórias póstumas de Brás Cubas, que funda a literatura carioca propriamente dita; que põe o espírito carioca no interior da estrutura romanesca.

5 E no conto? Diga-nos quais as histórias que, para você, mais refletem e revelam o Rio de Janeiro.

Machado, Lima Barreto, Marques Rebelo, Nelson Rodrigues… Poderia citar aleatoriamente, mas a melhor definição do Rio de Janeiro está no conto O bloco das Mimosas Borboletas, do paulista Ribeiro Couto.

6 Quais personagens femininas da literatura brasileira mais o fascinaram? Não mais que três, por favor.

A Engraçadinha do Nelson Rodrigues; a Dona Flor do Jorge Amado; a linda Inês do Jorge de Lima.

7 E na literatura mundial, quais são as personagens femininas inesquecíveis?

Medeia; Xerazade; a Donzela Teodora.

8 Diga-nos três livros que você considera indispensáveis na literatura hispano-americana.

Os passos perdidos, do (Alejo) Carpentier; Crônica de uma morte anunciada, do García Márquez; e qualquer coletânea com contos do Borges.

9 E na literatura norte-americana, quais são as três leituras mais fundamentais?

Qualquer antologia com contos do (Nathaniel) Hawthorne; qualquer antologia com contos do (Henry) James; e o Moby Dick, de (Herman) Melville.

10 Diga-nos um livro que já lhe deu raiva.

Guerra e paz, de Tolstói, quando meu pai me madou resenhá-lo, como castigo.

11 Você já parou no meio de um livro? Qual e por quê?

A partir dos 43 anos, comecei a parar de ler todos os livros que em 20 páginas não me despertaram emoção ou reflexão.

12 Qual foi a última leitura que lhe provocou uma gargalhada.

O inédito Êxodos de Eurídice, da Martha Mamede Batalha.

13 Uma dica de leitura para a presidente Dilma neste momento, por favor.

O capital, de Karl Marx.

Diretamente do blog de Matheus Leitão para a VB&M uma análise precisa assinada por Sergio Abranches da crise política brasileira.

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Por Sérgio Abranches

 

A coalizão governista está irremediavelmente fraturada. Nenhum remendo pode salvá-la. Só a mudança profunda na relação entre a presidente e os partidos que a apoiavam, para recontratar a aliança em novas bases. Implicaria em reduzir significativamente a presença do PT e aumentar a participação dos demais partidos. Isso exigiria uma compreensão da política de coalizões, de gestão de alianças e mediação de conflitos que a presidente Dilma Rousseff jamais demonstrou ter. As lideranças petistas que a cercam tampouco demonstraram ter esse nível de compreensão dos limites e possibilidades da política de coalizões. Agrava-se esse quadro com o enfraquecimento e divisão das principais lideranças dos partidos da coalizão no Congresso Nacional, com a instauração dos inquéritos que abrem nova fase da operação Lava-Jato. Esse é um cenário de divisão e conflito entre os políticos, os partidos e a Presidência.

Deixo de analisar a política internacional, para tratar da política nacional. Tenho recebido muitos pedidos para falar sobre a crise política, em virtude de ter criado e descrito analiticamente o “presidencialismo de coalizão” como o modelo político brasileiro. O presidencialismo de coalizão define como premissa da governança e da governabilidade a existência de uma coalizão multipartidária minimamente coerente e coesa, que dê condições à Presidência da República de formar maiorias que apóiem suas principais medidas legislativas e barrem iniciativas que possam comprometer as políticas públicas com as quais está comprometida. A coalizão define o “poder de agenda” do governo.

A presidente Dilma Rousseff sempre tratou sua coalizão como uma coligação eleitoral, que esgota suas funções ao lhe garantir os votos nos colégios eleitorais dominados por caciques eleitorais para se eleger. Ela, como Lula, sempre dependeu de votos de redutos não-petistas par alcançar a maioria eleitoral. O fato de ambos terem sido eleitos no segundo turno, em todas as eleições, mostra, com clareza, que o PT não tem capacidade de produzir maiorias eleitorais, nem parlamentares. Mas a coligação eleitoral tem que ser transformada em coligação governamental.

A aliança eleitoral tem três eixos principais de negociação. O primeiro é a expectativa de poder e a possibilidade de integrar, com vantagens, a coalizão governamental. A moeda de troca é a partilha do poder executivo. O segundo, é a perspectiva de eleger a maior bancada possível, dada pela soma dos votos de todos, beneficiando os mais votados de cada partido, dentro do quociente eleitoral. O terceiro, é financeiro. A moeda é o financiamento das campanhas. Uma parte é paga em tempo real, ao longo da campanha. Outra parte é paga posteriormente, para cobrir dívidas de campanha. Nem vou entrar nos ganhos pessoais e partidários, obtidos com corrupção eleitoral e administrativa. Mesmo na hipótese, pouco plausível, de que todo o dinheiro de campanha entre pelo “caixa um”, como alegam todos os políticos, exceto os mais cínicos, a busca de fatias maiores na partilha dos recursos arrecadados é um incentivo poderoso para entrar nas coligações eleitorais, tanto situacionista, como oposicionistas.

A moeda principal na negociação da coalizão de governo é a participação proporcional no poder governamental. Essa negociação só pode ocorrer depois do primeiro turno, quando se fica sabendo o tamanho das bancadas. Por isso é um erro fatal confundir a coligação eleitoral com a coalizão governamental. A negociação da coalizão começa no segundo turno, para ser fechada após o processo eleitoral, na montagem do governo.

É fácil ver, a partir dessa análise, onde reside o problema político que a presidente Dilma Rousseff nunca conseguiu resolver. Ela frustrou os partidos aliados em sua expectativa de participação no poder governamental, desde o início. No primeiro mandato, garantiu a governança com muito gasto público e popularidade muito alta. No segundo, começou já enfrentando a crise política. Deve-se adicionar à sua coleção espantosa de déficits, o déficit político-partidário, relativo às expectativas frustradas dos aliados. Esse déficit, como todos os outros, agravou-se significativamente na montagem do governo e ao longo do primeiro trimestre de 2015. O PT continuou hegemônico na coalizão. A presidente continuou concentrando o poder decisório. Os incontáveis ministros não têm poder. Nem despacham com a presidente. Todos se sentem rebaixados, quando não destituídos de qualquer autoridade. No poder só entram alguns poucos petistas. É uma via expressa para o impasse político e a crise, produzindo elevado déficit de governança e riscos crescentes à governabilidade.

O ex-presidente Lula tinha, no começo, um poderoso e autônomo articulador político, que havia controlado por mais de uma década a Executiva do PT e cuidava da gestão da coalizão. Era o poderosíssimo Chefe do Gabinete Civil, José Dirceu, hoje cumprindo pena, condenado no processo do “mensalão”. Com a crise política do mensalão, Lula armou um palanque permanente no país e usou sua popularidade pessoal para manter e ampliar o “lulismo”, reeleger-se e garantir independência em relação ao PT e à própria coalizão. Os políticos da coalizão quando retornavam a suas “bases” eleitorais sentiam o peso da popularidade presidencial, que mantinha a coalizão refém do presidente. Hoje, quando os políticos retornam a suas bases sentem o peso da impopularidade da presidente e o forte ressentimento dos eleitores contra ela. Dilma só teria a oferecer-lhes mais poder. Com a crise provocada pela Lava-Jato, nem mais poder apenas seria suficiente. Seria necessário compartilhar o poder garantir reduzindo o poder do PT e a centralização decisória na Presidência.

O vice-presidente, Michel Temer, tem pouco a lhe oferecer neste momento. Ele nunca foi uma liderança poderosa no PMDB. Era influente, mas com pouco poder. Jamais conseguiu liderar o partido no seu estado-base, São Paulo, como Orestes Quércia comandou. O PMDB é um condomínio de facções estaduais e locais. O poder deriva do controle das facções e das bancadas. Temer conseguia ser o síndico desse condomínio, exatamente por não comandar facção, nem controlar bancadas. Conseguia o comando nacional porque exercia um comando com pouco poder equilibrando as forças internas. Ele ficou mais forte ao se aliar a Lula e Dilma, no auge da popularidade. Mas é poder derivado e externo ao partido. Se Dilma não lhe dá voz, o partido não o ouvirá. Continuará ouvindo os chefes políticos faccionários.

A crise política vai se agravar com a Lava-Jato e ameaça culminar na paralisia do Legislativo. É alta a probabilidade de rompimento dos tênues liames que mantém a “coalizão-zumbi”. A dinâmica hoje é claramente centrifuga, de afastamento da presidência. Na relação entre os partidos no Congresso, a chance é que predomine o perigoso “shifting the blame”, “transferindo a culpa”, comportamento típico de políticos em busca da autopreservação. A inflação ainda vai subir. A recessão ainda vai piorar. Tudo isso aumentará o desconforto da população e afetará negativamente a popularidade da presidente. Nesse quadro, a rejeição provocada por escândalos de corrupção aumenta. Sem popularidade e com alta rejeição só caberia à presidente abdicar de uma larga fatia de poder e entrega-la à coalizão. A saída política possível é mudar o modelo de governança do “centralismo” para o “poder compartilhado”. Isto é, transformar o governo petista em governo de coalizão. Essa mudança requereria uma compreensão da política de coalizões e uma habilidade política que a presidente jamais demonstrou ter.

 

Reprodução: Blog do Matheus Leitão <  http://www.matheusleitao.com.br/7499-crise-politica-no-presidencialismo-que-deveria-ser-de-coalizao-por-sergio-abranches.html >