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A montanha mágica é uma experiência obrigatória

13 perguntas sobre livros e leituras

Romancista, documentarista e jornalista de televisão, Luize Valente é uma autora com um tema: o antissemitismo e a construção da identidade diante do preconceito. O arco de tempo de O segredo do oratório, seu primeiro romance e um sucesso da Record, cobre da Inquisição no Brasil, no século XVII, após a saída dos holandeses do Nordeste, até os dias de hoje e tem uma forte protagonista que vai longe para viver seu amor com um jovem judeu.

Uma praça em Antuérpia chega às livrarias no início de abril e conta a história de uma portuguesa emigrada para o Brasil, que atravessou a Europa fugindo das tropas nazistas com seu marido judeu alemão e o filho “mestiço”. Para narrar a fuga da família, Luize fez duas viagens à Europa traçando o roteiro da fuga desde Antuérpia, passando por Bélgica, França, Espanha e Portugal, e entrevistando dezenas de sobreviventes que tinham lembranças da II Guerra em cada pequena cidade. Impactante não define a narrativa que resultou dessa pesquisa.

Como editora de notícias internacionais na Globonews, Luize também lida com política internacional e hoje em dia, obviamente, tem que estar imersa no problema do antissemitismo, do fundamentalismo e do terrorismo. Curiosamente, ela não indica qualquer leitura diretamente ligada a esses temas ao primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, ou ao líder palestino Mahmoud Abbas. Considera que ambos são tão preconceituosos que não chegariam a abrir os livros sugeridos.

Prefere recomendar dois autores reveladores do “lado sombrio, opressor e intolerante” da humanidade: Joseph Conrad e Kafka. Aos políticos brasileiros, diz que eles têm que ler Crime e castigo, de Dostoievski, “porque precisam ser sufocados por suas consciências e, no caso de delitos, levados a confesssar, como nosso protagonista, de dentro para fora.” Para as pessoas normais, como nós, os clientes da agência e seus leitores e seguidores, sua principal recomendação é Mann, A montanha mágica: “Mais do que uma leitura, é uma experiência obrigatória!”

1 Quais livros se encontram neste momento em sua mesa de cabeceira?

Kafka à beira mar, de Haruki Murakami. O demônio do meio-dia , de Andrew Solomon, e Cartas a meu pai, de Franz Kafka. E tem dois livros que folheio sempre : Do que eu falo quando eu falo em corrida, também do Murakami (que é sobre correr, escrever, se superar, perseverar!), e A Insustentável leveza do Ser, de Milan Kundera .

2 Que livro estranharíamos encontrar em sua estante?

Senhor dos Anéis. Um clássico para os amantes da literatura de fantasia, mas que não me atrai.

3 Qual romance já a fez chorar?

Dezenas, centenas! Cito um clássico e dois recentes: Morte em Veneza de Thomas Mann, Pequena abelha, de Chris Cleave, que tem a violenta Nigéria como pano de fundo, e Um grito de amor no centro do mundo, sobre um casal adolescente, do japonês Kyoichi Katayama .

4 Qual foi o último livro que lhe provocou uma boa gargalhada?

Dou muitas risadas, até hoje, com uma coletânea de Umberto Eco, que comprei nos anos 90, em um aeroporto. São textos divertidos e paródias sobre os absurdos da vida moderna: How to Travel wiih a Salmon & Other Essays. Talvez alguns estejam no Diário Mínimo, livro que traz textos de Eco publicados numa revista italiana.

5 Qual foi a leitura que despertou ou contribuiu para seu interesse pela questão judaica?

Treblinka, de Jean-François Steiner, que li bem jovem , foi meu primeiro contato mais direto com os horrores do Holocausto e me despertou para a questão judaica. Agora o texto que mais contribuiu para meu interesse, que considero leitura fundamental, é o ensaio sobre antissemitismo, publicado por Jean Paul Sartre, em 1946. O ensaio faz parte do livro Reflexões Sobre o Racismo. Um texto objetivo sobre as raízes do antissemitismo, que permanece atual quase 70 anos depois de ser escrito.

6 E o melhor livro que você leu sobre a II Guerra Mundial e o Holocausto?

São vários melhores livros. É isso um Homem?, de Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz, e todos os trabalhos dele que se seguiram. Outro é Eichmann em Jerusalém, de Hannah Arendt, escrito a partir do julgamento de Adolf Eichmann, um dos responsáveis pela criação dos campos de extermínio na Alemanha nazista. Hannah Arendt desenvolve ali o conceito de “banalidade do mal” .

7 Qual a reportagem ou ensaio sobre política internacional que você indicaria a um estudante de RI?

As Origens do Totalitarismo, também de Hannah Arendt, completamente atual nesta época de terror em que vivemos.
8 Uma amiga pediu-lhe que convidasse três escritores para um jantar. Quem você chamaria? Contemporâneos ou não…

Que pergunta díficil!!! Tem muita gente… Vou escolher três autores vivos, cujas personalidades me fascinam : Phillp Roth, Amos Oz e Isabel Allende.

9 Qual romance você tem vergonha de ter gostado de ler? Uma literatura menor que por alguma razão a encantou.

Nunca tive vergonha de ter gostado de ler nada! É sério ! Adoro a chamada literatura de entretenimento, adoro ler best-sellers! Um deles que me encantou demais , tenho até a edição de capa dura com fotos, Marley & eu.

10 Que tipo de leitora você foi na infância? Quem era seu personagem predileto?

Muito ávida e eclética. Nos livros, Monteiro Lobato, os contos dos irmãos Grimm e de Andersen. Nos quadrinhos, muito Tintim e Asterix e Obelix. Agora o que eu realmente devorava até os dez, 11 anos era uma coleção brasileira de livros de bolso chamada Inspetora. As histórias se passavam numa fazenda numa cidade do interior, e um grupo de quatro jovens – a Patota da Coruja de Papelão – resolvia mistérios locais. A protagonista Eloísa – que era a Inspetora – foi o personagem predileto da minha infância.

11 Que livro você indicaria ao presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, visando a uma melhor compreensão da questão judaica? E qual livro indicaria ao primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, visando a uma melhor compreensão da questão palestina?

Pensei em alguns títulos que abordam as questões diretamente e cheguei à conclusão que os dois têm posicionamentos tão pré-concebidos e dogmáticos que sequer abririam os exemplares. Então resolvi indicar, para ambos, os mesmos livros. Dois romances aparentemente distantes das questões judaica e palestina, mas muito próximos do lado sombrio, opressor, intolerante e intransigente da natureza humana. Indicaria para Abbas e Bibi, o Coração das trevas, de Joseph Conrad, e O Processo de Franz Kafka.

12 Que leitura deveria ser obrigatória para os deputados e senadores tomarem posse no Congresso brasileiro? E para a presidente Dilma Roussef?

Crime e Castigo, de Dostoievsky, tanto para os congressistas como para a presidente. Raskólnikov tem que servir de inspiração para políticos e mandários que se encantam pela corrupção. Eles precisam ser sufocados por suas consciências e, no caso de delitos, levados a confesssar, como nosso protagonista, de dentro para fora.

13 Qual livro começou difícil, arrastado, mas você insistiu e valeu a pena?

A Montanha Mágica de Thomas Mann. Um livro que começa difícil sem ser absolutamente chato. O “arrastado” em A montanha mágica vai além das suas 800 páginas! Tem a ver com um dos pontos mais essenciais do romance. O tempo é um personagem que se arrasta mais para uns e menos para outros. O tempo é relativo, o tempo existe de uma forma única para cada personagem e portanto também para cada leitor! A Montanha mágica é mais do que uma leitura, é uma experiência obrigatória!

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