Nosso Blog

cantareira

Por Luciana Villas-Boas

Esta semana o New York Times noticiou a seca brasileira. A matéria perguntava como São Paulo, a mais importante cidade da América Latina, pode ficar sem água dois dias por semana. Aliás, o Globo até já repercutiu a matéria americana na sua cobertura das chuvas no Rio. O que quero dizer é que, quando a gente está fora do país, dá uma vergonha. Dá mais vergonha do que raiva.

Quando morei em Londres, bem jovenzinha, vivia-se no Brasil o final da ditadura militar. Foi entre o final de 1976 e 1978. Os jornais britânicos noticiavam o Brasil ainda menos do que hoje, e é claro que só saía notícia ruim. Mas naquela época era tranquilo culpar a ditadura, um regime imposto ao povo pelos militares, com apoio da CIA. Ainda tínhamos direito àquele gozo secreto de nos fazer de vítimas.

Hoje não temos mais essa desculpa. Votamos, escolhemos, os mesmos governantes há 15 anos. Neste momento, o principal desafio da sociedade brasileira é entender não ser mais possível transferir responsabilidades. Na democracia, temos que assumir consequências de nossos atos e escolhas.

É triste (pelo tanto de tempo que passou), mas eu me lembro quando faltava água no Rio de Janeiro. Era pequenininha, morava no número 61 da rua Raul Pompeia, em Copacabana. Um apartamento de três quartos, relativamente pequeno para uma família de cinco pessoas, mas meu pai se orgulhava do prédio porque tinha poço artesiano e “nunca faltava água”.

O governo de Negrão de Lima na Guanabara deu continuidade a obras de seu opositor Carlos Lacerda, e parou de faltar água no estado inteiro. Em minha vida adulta, nem me lembrava mais de como era esse drama. Nunca poderia imaginar que passado meio século de minha infância eu adiaria voltar ao Rio do exterior com medo de estar em casa sem água e sem luz.

Não podemos reclamar. Há 15 anos votamos nos mesmos governantes, há pelo menos cinco com plena consciência de que nenhuma obra fundamental de infraestrutura _ seja no sistema hídrico, seja em energia, saúde, transporte público, aeroportos, estradas _ vinha sendo feita. Nem pelo governo federal nem pelos governantes locais, em geral eleitos com apoio do partido governista. Vamos ficar sem banho e presos no elevador por falta de eletricidade, que nem nos anos 60, porque escolhemos isso.

Não é o nosso forte, não está no nosso DNA assumir nossos erros teóricos e práticos. Vejo isso o tempo todo. Ainda recebo uma quantidade de newsletters de velhinhos esquerdistas e outros, que querem fazer crer que os EUA estão provocando o escândalo da Petrobras. São os mesmos que disseram que a CIA derrubou o avião do Eduardo Campos.

Daria irritação, se não desse pena: ou é senilidade, ou uma lavagem cerebral leninista tão profunda, ao longo de tantas décadas, que essas pessoas ficaram incapacitadas para observar a realidade e a história. Curiosamente, o princípio fundamental da dialética marxista.

É claro que os Estados Unidos gostam muito de Dilma Roussef e dos governos PT. Os EUA e os bancos têm por eles o maior apreço. Os Estados Unidos não precisam mover uma palha, gastar um centavo, para enfraquecer o Brasil. Para americano, realmente não tem coisa melhor do que não gastar dinheiro e não perder tempo. A tal noção de produtividade.

Hoje Dilma Roussef se superou: deu a entender que os bilhões e bilhões roubados da Petrobras eram responsabilidade também de governos anteriores ao petista. Meu Deus, quantas décadas terão que passar para que a gente assuma as nossas incompetências?

Outra notícia de hoje, aqui dos Estados Unidos, é que foi em cana a ex-primeira dama do estado da Virgínia, porque aceitou presentes, enquanto seu marido estava no poder, no valor de uns US$ 150 mil. O marido já foi deposto e pegou dois anos porque se encalacrou mentindo e tentando negar as mamatas (para nós, mini, muito minimamatas). Só não dá mais vergonha, porque nós temos o juiz Sergio Moro e a Car-Wash, epa, a Lava-Jato.

Comentários ( 2 )

  • Maria Silvia Vizoni Legarth diz:

    Luciana, gostei muito do seu texto e devo lhe dizer que compartilho da mesma vergonha quando me deparo com notícias como essas nos jornais alemães.

    Realmente, o brasileiro ainda não aprendeu a votar com responsabilidade assim como não aprendeu a agir com responsabilidade. É como se os cidadãos que reclamam dos políticos não fossem os mesmos que os colocam no poder. E como se os cidadãos que denunciam corrupções de grande porte não fossem os mesmos que tentam levar vantagem o tempo todo.

    Outro dia, preocupada com as notícias de falta de água, perguntei à cuidadora da minha mãe se as pessoas ainda insistiam em lavar as calçadas. Como resposta, recebi o relato de uma situação que havia se passado há pouco:

    “Olha, outro dia uma vizinha minha denunciou a outra de estar lavando a calçada. O fiscal apareceu por lá e ela respondeu que paga as suas contas em dia e que, por isso, tem o direito de fazer o que bem entende com a água que sai da sua torneira!”

    Assim, enquanto não aprendermos a fazer a nossa parte com responsabilidade, seja através do voto, seja através dos nossos atos, estaremos fadados a ficar sem água, sem energia, sem educação…

    Um abraço,

    Maria Sílvia Vizoni Legarth

Deixe um comentário

O seu e-mail não será publicado. Campos obrigatórios estão marcados com *