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Miriam por Tomas Rangel_pb_round

Leitura de  O Alienista é fundamental para presidente Dilma”

 

13 perguntas sobre livros e leituras

É com Míriam Leitão que inaguramos esta coluna de entrevistas sobre livros e leituras dos autores da VB&M. Abrimos com Míriam porque ela é nossa cliente mais multifacetada: jornalista, romancista, cronista, autora de literatura infantil, analista de economia e, para quem não sabe, poeta, apenas ainda não publicada em livro nesse gênero, somente em revistas. Brilhante em todas as suas atividades, Míriam é realista e objetiva, o que não a impede de defender com paixão as lutas contra o racismo, pelos direitos da mulher e pelo meio-ambiente. No ano passado, lançou o romance TEMPOS EXTREMOS, que tocou fundo em duas feridas abertas da história brasileira: a escravidão negra e os crimes da ditadura militar. Meses depois, as revelações que ela fez _ afinal _ sobre as torturas que sofreu enquanto esteve presa no quartel militar de Vitória, em 1972, em função de sua resistência à ditadura, jogaram ainda mais luz sobre a maneira ambígua como lidamos com nosso passado. Agora, ela está finalizando A HISTÓRIA DO FUTURO, reportagem abrangente sobre as potencialidades e obstáculos que o Brasil tem pela frente para se tornar um estado e uma sociedade dignos de seu povo _ bem ao estilo de seu premiado SAGA BRASILEIRA, que refez a trajetória da inflação a partir dos atos políticos, do pensamento econômico desenvolvido nas universidades do país e, ainda, dos sentimentos e experiências da sociedade. Ciência e história econômica de primeira para a compreensão de qualquer um interessado no tema. Como leitora, portanto, Míriam Leitão tem um depoimento riquíssimo. Sua cabeça poderosa tem resposta imediata e genial até para a última pergunta, quando lembra que O Alienista, de Machado de Assis, é a leitura mais urgente para a presidente Dilma Roussef fazer neste momento.

1    Quais são suas leituras neste momento? Que livros encontram-se em sua mesa de cabeceira?

Muitos me esperam. Ando dedicada às muitas leituras necessárias a meu livro História do futuro, que estou terminando de escrever. Leitura atrasada portanto. No iPad, releio O valor do amanhã, de Eduardo Giannetti da Fonseca, e no papel, Amor e matemática, de Edward Fraenkel. Entre um e outro tenho lido textos de A loucura mansa de José Mindlin.

2    Algum livro já a fez chorar?

Muitos, tantos, incontáveis. Lembro das lágrimas em Jane Eyre, de Charllote Brontë, que li aos 11 anos. No meu tempo, os livros infantis não poupavam as crianças. Me lembro do berreiro quando li “A pequena vendedora de fósforos”, de Hans Cristian Andersen. Tentei ler a história para meus netos outro dia, e Daniel, meu neto de quatro anos, me interrompeu: “Vovó, que hora vai começar a parte alegre?”. Vi que era melhor ler para eles os contemporâneos. Ao longo da vida, tenho chorado sempre. Nem dá para fazer a lista aqui.

3    E qual foi o último livro que a fez dar uma boa gargalhada?

O livro do Luis Erlanger, Antes que eu morra, me matou de rir. O que eram aqueles diálogos entre o personagem e seu psicanalista? E as trapalhadas nas quais ele se envolve? É o próprio Erlanger. Ele conseguiu levar para a obra seu humor cáustico.

4    Se você tivesse que indicar um único título para dar a um estrangeiro uma visão do escravismo brasileiro, qual livro recomendaria?

O livro da historiadora americana Mary Karash é fundamental. Apesar de ser um livro acadêmico e, por isso, com um local e tempo definidos, A vida dos escravos no Rio de Janeiro de 1808 a 1850, traça com precisão o que era o Brasil escravista. Lembro que, quando li, comecei a chorar diante de um quadro estatístico. Sérgio (o romancista Sergio Abranches, marido de Míriam) me perguntou: “Você chora lendo uma tabela?”. O que os números mostravam é que eram principalmente crianças que desembarcavam. De qualquer maneira é muito difícil uma escravidão tão longa, tão complexa, ser entendida a partir de um livro só. Quebro o combinado na pergunta e recomendo, também, Liberata, de Keila Grinberg, sobre uma parte pouco conhecida da luta contra a escravidão: a dos escravos nos tribunais.

5    E sobre o período militar, quais são as leituras fundamentais?

Na ficção o país começou agora a escrever. É preciso aguardar para saber quais serão fundamentais. Há muitos relatos pessoais, testemunhais, que têm sido publicado nos últimos anos. Na categoria não-ficção os livros do Élio Gaspari são importantes em qualquer biblioteca. É uma fonte de consulta, sem dúvida.

6    Quais foram os livros mais reveladores que você já leu – um romance e uma não-ficção –  sobre a condição da mulher?

Orlando, de Virgínia Woolf, é revelador e surpreendente. Ao fazer a transição de gênero da personagem principal, a genial escritora inglesa consegue definir de forma aguda a imposição dos papéis feminino e masculino, a prisão na qual as mulheres foram confinadas. Meu livro epifania sobre a condição da mulher é o insuperável Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir. Na minha vida existe o antes e o depois dessa leitura. Li adolescente e foi determinante na minha vida.

7    Qual é o livro mais importante numa bibliografia do curso de Economia?

Para começar, é sempre bom ter um livro de história econômica brasileira. Recentemente foi relançado um livro que me ensinou muito e que vem agora revisto e ampliado. A ordem do progresso, coordenado por Marcelo de Paiva Abreu. Reli e confirmei minha impressão inicial, da primeira versão, em 1989. O livro analisa várias etapas da política econômica da República, mas na reedição há também um capítulo sobre o Império. Claro que os clássicos mundiais de economia serão sempre indispensáveis em qualquer bibliografia, mas disso os leitores já sabem. Leio sempre economia e já me acostumei com o texto árido que a maioria escolheu para passar suas ideias. Alguns economistas escrevem com grande elegância, no entanto. Foi bom descobrir que Thomas Piketty faz parte desse grupo. O seu best seller global O capital do século XXI, lançado no Brasil pela Intrínseca, tem ainda a vantagem de provocar muito debate e sobre um tema essencial: a desigualdade na distribuição da riqueza.

8    Qual o livro mais emocionante que você já leu sobre a questão ambiental e o estado do planeta? Uma leitura que dê a urgência da causa.

A verdade inconveniente, de Al Gore, faz isso, emociona e passa o sentido de urgência.

9     Na infância, quais foram seus livros e personagens preferidos?

Claro que amava todos os personagens de Monteiro Lobato, a ponto de ler Quitutes de D.Benta, sem ter interesse algum nas receitas. Era apenas para ler os diálogos abaixo das receitas. Mas meu personagem favorito sempre foi o Barão de Münchausen. Ele é tão atrapalhado, tão inesperado. Nada parecia real, mas, claro, com ele tudo era verdadeiro. Só ele era capaz de sair do pântano puxando a si mesmo pelos cabelos. Era o meu herói.

10     Você vai oferecer um jantar e acha que cairá bem a presença de três poetas. Quem seriam eles?

Seria o jantar dos poetas mortos. A vantagem é que os poetas não morrem. Eu chamaria a Cecília Meirelles, porque gostaria de conversar sobre como foi fazer O Romanceiro (da Inconfidência). “Não posso mover meus passos por esse atroz labirinto de esquecimento e cegueira.” Não imagino esse jantar sem Carlos Drummond de Andrade, porque eu gostaria de perguntar como é possível fazer uma poesia sobre uma bruxa voando em torno de uma lâmpada e que começa majestosa: “Nesta cidade do Rio. De dois milhões de habitantes. Estou sozinho no quarto. Estou sozinho na América. De dois milhões de habitantes. E nem precisava tanto!” Ficaria muito triste de ter uma mesa tão pequena, porque gostaria de convidar também T.S.Elliot, “Antes do chá com torradas”. E queria ainda Castro Alves, Konstantino Kaváfis, José Paulo Paes, Manuel Bandeira. Ah, e outro dia li os sonetos de Shakespeare. Lindos. Que pena que seria tão curta a mesa de jantar para tão longa paixão, porque eu gostaria de chamar Fernando Pessoa e deixa-lo à vontade para levar todos os seus heterônimos.

11     Quais são os três romancistas que você mais gostaria de conhecer pessoalmente e por quê? Contemporâneos ou não.

Machado. Sim, eu ficaria em silêncio muito tempo ao lado do Bruxo só o vendo escrever. Que mistério aquele texto tão exato. Gostaria de cavalgar com Guimarães Rosa pelo Sertão e quando ele parasse para tomar notas, eu também tomaria notas de tudo que ele tivesse dito. Se tivesse sorte, ele me contaria segredos de Riobaldo e Diadorim. Gostaria de entrevistar Kafka, na Stare Mesto, e depois queria andar com ele no Salão Ladislau, do Castelo. Começaria perguntando por Gregor Samsa. Como surgiu a ideia; se ele alguma vez intuiu que Metamorfose seria o sucesso que ainda é.

12     Você vai organizar um seminário de economia com palestras de cinco pensadores. Quem você convidaria?

Pérsio Arida, André Lara Resende, Thomas Piketty, Joseph Stiglitz, Martin Woolf.

13   Que leituras deveriam ser fundamentais para deputados e senadores serem empossados em seus cargos? E para a presidente da República?

Seria fundamental para deputados e senadores serem empossados em seus cargos terem lido livros. Qualquer livro, desde que lessem. Seria reconfortante. Para a presidente, seria fundamental ler O Alienista, de Machado de Assis.

Comentários ( 1 )

  • Patrícia diz:

    Linda foto dessa linda pessoa. Anotei os livros que não li para a lista dos próximos. Muito boa a ideia de ver o autor como leitor, nos traz uma visão humana, honesta e palpável desses seres tão etéreos que só vemos nas orelhas dos livros.
    Miriam respondeu com poesia. Obrigada ao blog e a entrevistada.

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