fevereiro 2015

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A montanha mágica é uma experiência obrigatória

13 perguntas sobre livros e leituras

Romancista, documentarista e jornalista de televisão, Luize Valente é uma autora com um tema: o antissemitismo e a construção da identidade diante do preconceito. O arco de tempo de O segredo do oratório, seu primeiro romance e um sucesso da Record, cobre da Inquisição no Brasil, no século XVII, após a saída dos holandeses do Nordeste, até os dias de hoje e tem uma forte protagonista que vai longe para viver seu amor com um jovem judeu.

Uma praça em Antuérpia chega às livrarias no início de abril e conta a história de uma portuguesa emigrada para o Brasil, que atravessou a Europa fugindo das tropas nazistas com seu marido judeu alemão e o filho “mestiço”. Para narrar a fuga da família, Luize fez duas viagens à Europa traçando o roteiro da fuga desde Antuérpia, passando por Bélgica, França, Espanha e Portugal, e entrevistando dezenas de sobreviventes que tinham lembranças da II Guerra em cada pequena cidade. Impactante não define a narrativa que resultou dessa pesquisa.

Como editora de notícias internacionais na Globonews, Luize também lida com política internacional e hoje em dia, obviamente, tem que estar imersa no problema do antissemitismo, do fundamentalismo e do terrorismo. Curiosamente, ela não indica qualquer leitura diretamente ligada a esses temas ao primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, ou ao líder palestino Mahmoud Abbas. Considera que ambos são tão preconceituosos que não chegariam a abrir os livros sugeridos.

Prefere recomendar dois autores reveladores do “lado sombrio, opressor e intolerante” da humanidade: Joseph Conrad e Kafka. Aos políticos brasileiros, diz que eles têm que ler Crime e castigo, de Dostoievski, “porque precisam ser sufocados por suas consciências e, no caso de delitos, levados a confesssar, como nosso protagonista, de dentro para fora.” Para as pessoas normais, como nós, os clientes da agência e seus leitores e seguidores, sua principal recomendação é Mann, A montanha mágica: “Mais do que uma leitura, é uma experiência obrigatória!”

1 Quais livros se encontram neste momento em sua mesa de cabeceira?

Kafka à beira mar, de Haruki Murakami. O demônio do meio-dia , de Andrew Solomon, e Cartas a meu pai, de Franz Kafka. E tem dois livros que folheio sempre : Do que eu falo quando eu falo em corrida, também do Murakami (que é sobre correr, escrever, se superar, perseverar!), e A Insustentável leveza do Ser, de Milan Kundera .

2 Que livro estranharíamos encontrar em sua estante?

Senhor dos Anéis. Um clássico para os amantes da literatura de fantasia, mas que não me atrai.

3 Qual romance já a fez chorar?

Dezenas, centenas! Cito um clássico e dois recentes: Morte em Veneza de Thomas Mann, Pequena abelha, de Chris Cleave, que tem a violenta Nigéria como pano de fundo, e Um grito de amor no centro do mundo, sobre um casal adolescente, do japonês Kyoichi Katayama .

4 Qual foi o último livro que lhe provocou uma boa gargalhada?

Dou muitas risadas, até hoje, com uma coletânea de Umberto Eco, que comprei nos anos 90, em um aeroporto. São textos divertidos e paródias sobre os absurdos da vida moderna: How to Travel wiih a Salmon & Other Essays. Talvez alguns estejam no Diário Mínimo, livro que traz textos de Eco publicados numa revista italiana.

5 Qual foi a leitura que despertou ou contribuiu para seu interesse pela questão judaica?

Treblinka, de Jean-François Steiner, que li bem jovem , foi meu primeiro contato mais direto com os horrores do Holocausto e me despertou para a questão judaica. Agora o texto que mais contribuiu para meu interesse, que considero leitura fundamental, é o ensaio sobre antissemitismo, publicado por Jean Paul Sartre, em 1946. O ensaio faz parte do livro Reflexões Sobre o Racismo. Um texto objetivo sobre as raízes do antissemitismo, que permanece atual quase 70 anos depois de ser escrito.

6 E o melhor livro que você leu sobre a II Guerra Mundial e o Holocausto?

São vários melhores livros. É isso um Homem?, de Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz, e todos os trabalhos dele que se seguiram. Outro é Eichmann em Jerusalém, de Hannah Arendt, escrito a partir do julgamento de Adolf Eichmann, um dos responsáveis pela criação dos campos de extermínio na Alemanha nazista. Hannah Arendt desenvolve ali o conceito de “banalidade do mal” .

7 Qual a reportagem ou ensaio sobre política internacional que você indicaria a um estudante de RI?

As Origens do Totalitarismo, também de Hannah Arendt, completamente atual nesta época de terror em que vivemos.
8 Uma amiga pediu-lhe que convidasse três escritores para um jantar. Quem você chamaria? Contemporâneos ou não…

Que pergunta díficil!!! Tem muita gente… Vou escolher três autores vivos, cujas personalidades me fascinam : Phillp Roth, Amos Oz e Isabel Allende.

9 Qual romance você tem vergonha de ter gostado de ler? Uma literatura menor que por alguma razão a encantou.

Nunca tive vergonha de ter gostado de ler nada! É sério ! Adoro a chamada literatura de entretenimento, adoro ler best-sellers! Um deles que me encantou demais , tenho até a edição de capa dura com fotos, Marley & eu.

10 Que tipo de leitora você foi na infância? Quem era seu personagem predileto?

Muito ávida e eclética. Nos livros, Monteiro Lobato, os contos dos irmãos Grimm e de Andersen. Nos quadrinhos, muito Tintim e Asterix e Obelix. Agora o que eu realmente devorava até os dez, 11 anos era uma coleção brasileira de livros de bolso chamada Inspetora. As histórias se passavam numa fazenda numa cidade do interior, e um grupo de quatro jovens – a Patota da Coruja de Papelão – resolvia mistérios locais. A protagonista Eloísa – que era a Inspetora – foi o personagem predileto da minha infância.

11 Que livro você indicaria ao presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, visando a uma melhor compreensão da questão judaica? E qual livro indicaria ao primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, visando a uma melhor compreensão da questão palestina?

Pensei em alguns títulos que abordam as questões diretamente e cheguei à conclusão que os dois têm posicionamentos tão pré-concebidos e dogmáticos que sequer abririam os exemplares. Então resolvi indicar, para ambos, os mesmos livros. Dois romances aparentemente distantes das questões judaica e palestina, mas muito próximos do lado sombrio, opressor, intolerante e intransigente da natureza humana. Indicaria para Abbas e Bibi, o Coração das trevas, de Joseph Conrad, e O Processo de Franz Kafka.

12 Que leitura deveria ser obrigatória para os deputados e senadores tomarem posse no Congresso brasileiro? E para a presidente Dilma Roussef?

Crime e Castigo, de Dostoievsky, tanto para os congressistas como para a presidente. Raskólnikov tem que servir de inspiração para políticos e mandários que se encantam pela corrupção. Eles precisam ser sufocados por suas consciências e, no caso de delitos, levados a confesssar, como nosso protagonista, de dentro para fora.

13 Qual livro começou difícil, arrastado, mas você insistiu e valeu a pena?

A Montanha Mágica de Thomas Mann. Um livro que começa difícil sem ser absolutamente chato. O “arrastado” em A montanha mágica vai além das suas 800 páginas! Tem a ver com um dos pontos mais essenciais do romance. O tempo é um personagem que se arrasta mais para uns e menos para outros. O tempo é relativo, o tempo existe de uma forma única para cada personagem e portanto também para cada leitor! A Montanha mágica é mais do que uma leitura, é uma experiência obrigatória!

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Por Luciana Villas-Boas

Está em cartaz em Nova York a peça Absolute Brightness of Leonard Pelkey, ou “O brilho absoluto de Leonard Pelkey”, de James Lecesne. A crítica é consagradora, como se pode ver no texto de Charles Isherwood, do New York Times. http://www.nytimes.com/2015/02/23/theater/review-the-absolute-brightness-of-leonard-pelkey-james-lecesnes-one-man-play.html?_r=0  Conta a investigação do assassinato de um jovem gay de 14 anos, Leonard, um menino absolutamente brilhante.

Lecesne é autor de Trevor, que a VB&M representa para a Seven Stories Press e que, estranhamente, ainda não despertou o interesse de editores brasileiros. Trevor começou como um filme curta-metragem que ganhou um Oscar nessa categoria em 1995. Conta a tentativa de suicído de um adolescente. Esse é o tema de Lecesne: bullying e sofrimento de jovens que se sentem diferentes, deslocados, em geral por questões de gênero e orientação sexual.

A base de Trevor foi um monólogo de Lecesne, Word of Mouth, ou “Boca a boca”, em tradução livre. (Lecesne é um grande ator – excepcional; em Absolute Brightness of Leonard Pelkey, ele representa uns dez papéis, desde o investigador até várias mulheres de um subúrbio de Nova Jersey, onde se passa a peça. Isherwood o elogia tanto como autor como ator.) Em seguida ao curta premiado, Lecesne desenvolveu um programa de apoio a jovens gays e de prevenção do suicídio entre adolescentes, o Trevor Project, que tem resultados bonitos para mostrar. Só muito tempo depois, uns dois anos atrás, saiu o livro Trevor, um texto delicado, tocante; será um clássico.

Em sua crítica Isherwood pega na mosca e aponta o que me parece a maior virtude de Lecesne: ele não tem medo de sentimentalismo. Pega pesado e faz chorar. Como se sabe, isso é muito difícil de fazer sem ser apelativo. (Fui ver Selma e não derramei uma lágrima, o que me desapontou e irritou. Escolher um tema desses e não conseguir que o espectador chore é fracasso. Temos direito à catarse.)

O sucesso de Absolute Brightness of Leonard Pelkey vai popularizar ainda mais o nome de Lecesne nos Estados Unidos e no mundo. Ele já é uma firme referência quando se trata de discriminação e bullying de jovens. Quem vier por Nova York não deve perder esse espetáculo, que está no Dixon Place, no Soho. Não precisa nem ir à Broadway, o que é sempre uma chatice, além de caro demais. E se for editor brasileiro, tomara que aproveite para dar uma olhada em Trevor, o livro.

cantareira

Por Luciana Villas-Boas

Esta semana o New York Times noticiou a seca brasileira. A matéria perguntava como São Paulo, a mais importante cidade da América Latina, pode ficar sem água dois dias por semana. Aliás, o Globo até já repercutiu a matéria americana na sua cobertura das chuvas no Rio. O que quero dizer é que, quando a gente está fora do país, dá uma vergonha. Dá mais vergonha do que raiva.

Quando morei em Londres, bem jovenzinha, vivia-se no Brasil o final da ditadura militar. Foi entre o final de 1976 e 1978. Os jornais britânicos noticiavam o Brasil ainda menos do que hoje, e é claro que só saía notícia ruim. Mas naquela época era tranquilo culpar a ditadura, um regime imposto ao povo pelos militares, com apoio da CIA. Ainda tínhamos direito àquele gozo secreto de nos fazer de vítimas.

Hoje não temos mais essa desculpa. Votamos, escolhemos, os mesmos governantes há 15 anos. Neste momento, o principal desafio da sociedade brasileira é entender não ser mais possível transferir responsabilidades. Na democracia, temos que assumir consequências de nossos atos e escolhas.

É triste (pelo tanto de tempo que passou), mas eu me lembro quando faltava água no Rio de Janeiro. Era pequenininha, morava no número 61 da rua Raul Pompeia, em Copacabana. Um apartamento de três quartos, relativamente pequeno para uma família de cinco pessoas, mas meu pai se orgulhava do prédio porque tinha poço artesiano e “nunca faltava água”.

O governo de Negrão de Lima na Guanabara deu continuidade a obras de seu opositor Carlos Lacerda, e parou de faltar água no estado inteiro. Em minha vida adulta, nem me lembrava mais de como era esse drama. Nunca poderia imaginar que passado meio século de minha infância eu adiaria voltar ao Rio do exterior com medo de estar em casa sem água e sem luz.

Não podemos reclamar. Há 15 anos votamos nos mesmos governantes, há pelo menos cinco com plena consciência de que nenhuma obra fundamental de infraestrutura _ seja no sistema hídrico, seja em energia, saúde, transporte público, aeroportos, estradas _ vinha sendo feita. Nem pelo governo federal nem pelos governantes locais, em geral eleitos com apoio do partido governista. Vamos ficar sem banho e presos no elevador por falta de eletricidade, que nem nos anos 60, porque escolhemos isso.

Não é o nosso forte, não está no nosso DNA assumir nossos erros teóricos e práticos. Vejo isso o tempo todo. Ainda recebo uma quantidade de newsletters de velhinhos esquerdistas e outros, que querem fazer crer que os EUA estão provocando o escândalo da Petrobras. São os mesmos que disseram que a CIA derrubou o avião do Eduardo Campos.

Daria irritação, se não desse pena: ou é senilidade, ou uma lavagem cerebral leninista tão profunda, ao longo de tantas décadas, que essas pessoas ficaram incapacitadas para observar a realidade e a história. Curiosamente, o princípio fundamental da dialética marxista.

É claro que os Estados Unidos gostam muito de Dilma Roussef e dos governos PT. Os EUA e os bancos têm por eles o maior apreço. Os Estados Unidos não precisam mover uma palha, gastar um centavo, para enfraquecer o Brasil. Para americano, realmente não tem coisa melhor do que não gastar dinheiro e não perder tempo. A tal noção de produtividade.

Hoje Dilma Roussef se superou: deu a entender que os bilhões e bilhões roubados da Petrobras eram responsabilidade também de governos anteriores ao petista. Meu Deus, quantas décadas terão que passar para que a gente assuma as nossas incompetências?

Outra notícia de hoje, aqui dos Estados Unidos, é que foi em cana a ex-primeira dama do estado da Virgínia, porque aceitou presentes, enquanto seu marido estava no poder, no valor de uns US$ 150 mil. O marido já foi deposto e pegou dois anos porque se encalacrou mentindo e tentando negar as mamatas (para nós, mini, muito minimamatas). Só não dá mais vergonha, porque nós temos o juiz Sergio Moro e a Car-Wash, epa, a Lava-Jato.

Miriam por Tomas Rangel_pb_round

Leitura de  O Alienista é fundamental para presidente Dilma”

 

13 perguntas sobre livros e leituras

É com Míriam Leitão que inaguramos esta coluna de entrevistas sobre livros e leituras dos autores da VB&M. Abrimos com Míriam porque ela é nossa cliente mais multifacetada: jornalista, romancista, cronista, autora de literatura infantil, analista de economia e, para quem não sabe, poeta, apenas ainda não publicada em livro nesse gênero, somente em revistas. Brilhante em todas as suas atividades, Míriam é realista e objetiva, o que não a impede de defender com paixão as lutas contra o racismo, pelos direitos da mulher e pelo meio-ambiente. No ano passado, lançou o romance TEMPOS EXTREMOS, que tocou fundo em duas feridas abertas da história brasileira: a escravidão negra e os crimes da ditadura militar. Meses depois, as revelações que ela fez _ afinal _ sobre as torturas que sofreu enquanto esteve presa no quartel militar de Vitória, em 1972, em função de sua resistência à ditadura, jogaram ainda mais luz sobre a maneira ambígua como lidamos com nosso passado. Agora, ela está finalizando A HISTÓRIA DO FUTURO, reportagem abrangente sobre as potencialidades e obstáculos que o Brasil tem pela frente para se tornar um estado e uma sociedade dignos de seu povo _ bem ao estilo de seu premiado SAGA BRASILEIRA, que refez a trajetória da inflação a partir dos atos políticos, do pensamento econômico desenvolvido nas universidades do país e, ainda, dos sentimentos e experiências da sociedade. Ciência e história econômica de primeira para a compreensão de qualquer um interessado no tema. Como leitora, portanto, Míriam Leitão tem um depoimento riquíssimo. Sua cabeça poderosa tem resposta imediata e genial até para a última pergunta, quando lembra que O Alienista, de Machado de Assis, é a leitura mais urgente para a presidente Dilma Roussef fazer neste momento.

1    Quais são suas leituras neste momento? Que livros encontram-se em sua mesa de cabeceira?

Muitos me esperam. Ando dedicada às muitas leituras necessárias a meu livro História do futuro, que estou terminando de escrever. Leitura atrasada portanto. No iPad, releio O valor do amanhã, de Eduardo Giannetti da Fonseca, e no papel, Amor e matemática, de Edward Fraenkel. Entre um e outro tenho lido textos de A loucura mansa de José Mindlin.

2    Algum livro já a fez chorar?

Muitos, tantos, incontáveis. Lembro das lágrimas em Jane Eyre, de Charllote Brontë, que li aos 11 anos. No meu tempo, os livros infantis não poupavam as crianças. Me lembro do berreiro quando li “A pequena vendedora de fósforos”, de Hans Cristian Andersen. Tentei ler a história para meus netos outro dia, e Daniel, meu neto de quatro anos, me interrompeu: “Vovó, que hora vai começar a parte alegre?”. Vi que era melhor ler para eles os contemporâneos. Ao longo da vida, tenho chorado sempre. Nem dá para fazer a lista aqui.

3    E qual foi o último livro que a fez dar uma boa gargalhada?

O livro do Luis Erlanger, Antes que eu morra, me matou de rir. O que eram aqueles diálogos entre o personagem e seu psicanalista? E as trapalhadas nas quais ele se envolve? É o próprio Erlanger. Ele conseguiu levar para a obra seu humor cáustico.

4    Se você tivesse que indicar um único título para dar a um estrangeiro uma visão do escravismo brasileiro, qual livro recomendaria?

O livro da historiadora americana Mary Karash é fundamental. Apesar de ser um livro acadêmico e, por isso, com um local e tempo definidos, A vida dos escravos no Rio de Janeiro de 1808 a 1850, traça com precisão o que era o Brasil escravista. Lembro que, quando li, comecei a chorar diante de um quadro estatístico. Sérgio (o romancista Sergio Abranches, marido de Míriam) me perguntou: “Você chora lendo uma tabela?”. O que os números mostravam é que eram principalmente crianças que desembarcavam. De qualquer maneira é muito difícil uma escravidão tão longa, tão complexa, ser entendida a partir de um livro só. Quebro o combinado na pergunta e recomendo, também, Liberata, de Keila Grinberg, sobre uma parte pouco conhecida da luta contra a escravidão: a dos escravos nos tribunais.

5    E sobre o período militar, quais são as leituras fundamentais?

Na ficção o país começou agora a escrever. É preciso aguardar para saber quais serão fundamentais. Há muitos relatos pessoais, testemunhais, que têm sido publicado nos últimos anos. Na categoria não-ficção os livros do Élio Gaspari são importantes em qualquer biblioteca. É uma fonte de consulta, sem dúvida.

6    Quais foram os livros mais reveladores que você já leu – um romance e uma não-ficção –  sobre a condição da mulher?

Orlando, de Virgínia Woolf, é revelador e surpreendente. Ao fazer a transição de gênero da personagem principal, a genial escritora inglesa consegue definir de forma aguda a imposição dos papéis feminino e masculino, a prisão na qual as mulheres foram confinadas. Meu livro epifania sobre a condição da mulher é o insuperável Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir. Na minha vida existe o antes e o depois dessa leitura. Li adolescente e foi determinante na minha vida.

7    Qual é o livro mais importante numa bibliografia do curso de Economia?

Para começar, é sempre bom ter um livro de história econômica brasileira. Recentemente foi relançado um livro que me ensinou muito e que vem agora revisto e ampliado. A ordem do progresso, coordenado por Marcelo de Paiva Abreu. Reli e confirmei minha impressão inicial, da primeira versão, em 1989. O livro analisa várias etapas da política econômica da República, mas na reedição há também um capítulo sobre o Império. Claro que os clássicos mundiais de economia serão sempre indispensáveis em qualquer bibliografia, mas disso os leitores já sabem. Leio sempre economia e já me acostumei com o texto árido que a maioria escolheu para passar suas ideias. Alguns economistas escrevem com grande elegância, no entanto. Foi bom descobrir que Thomas Piketty faz parte desse grupo. O seu best seller global O capital do século XXI, lançado no Brasil pela Intrínseca, tem ainda a vantagem de provocar muito debate e sobre um tema essencial: a desigualdade na distribuição da riqueza.

8    Qual o livro mais emocionante que você já leu sobre a questão ambiental e o estado do planeta? Uma leitura que dê a urgência da causa.

A verdade inconveniente, de Al Gore, faz isso, emociona e passa o sentido de urgência.

9     Na infância, quais foram seus livros e personagens preferidos?

Claro que amava todos os personagens de Monteiro Lobato, a ponto de ler Quitutes de D.Benta, sem ter interesse algum nas receitas. Era apenas para ler os diálogos abaixo das receitas. Mas meu personagem favorito sempre foi o Barão de Münchausen. Ele é tão atrapalhado, tão inesperado. Nada parecia real, mas, claro, com ele tudo era verdadeiro. Só ele era capaz de sair do pântano puxando a si mesmo pelos cabelos. Era o meu herói.

10     Você vai oferecer um jantar e acha que cairá bem a presença de três poetas. Quem seriam eles?

Seria o jantar dos poetas mortos. A vantagem é que os poetas não morrem. Eu chamaria a Cecília Meirelles, porque gostaria de conversar sobre como foi fazer O Romanceiro (da Inconfidência). “Não posso mover meus passos por esse atroz labirinto de esquecimento e cegueira.” Não imagino esse jantar sem Carlos Drummond de Andrade, porque eu gostaria de perguntar como é possível fazer uma poesia sobre uma bruxa voando em torno de uma lâmpada e que começa majestosa: “Nesta cidade do Rio. De dois milhões de habitantes. Estou sozinho no quarto. Estou sozinho na América. De dois milhões de habitantes. E nem precisava tanto!” Ficaria muito triste de ter uma mesa tão pequena, porque gostaria de convidar também T.S.Elliot, “Antes do chá com torradas”. E queria ainda Castro Alves, Konstantino Kaváfis, José Paulo Paes, Manuel Bandeira. Ah, e outro dia li os sonetos de Shakespeare. Lindos. Que pena que seria tão curta a mesa de jantar para tão longa paixão, porque eu gostaria de chamar Fernando Pessoa e deixa-lo à vontade para levar todos os seus heterônimos.

11     Quais são os três romancistas que você mais gostaria de conhecer pessoalmente e por quê? Contemporâneos ou não.

Machado. Sim, eu ficaria em silêncio muito tempo ao lado do Bruxo só o vendo escrever. Que mistério aquele texto tão exato. Gostaria de cavalgar com Guimarães Rosa pelo Sertão e quando ele parasse para tomar notas, eu também tomaria notas de tudo que ele tivesse dito. Se tivesse sorte, ele me contaria segredos de Riobaldo e Diadorim. Gostaria de entrevistar Kafka, na Stare Mesto, e depois queria andar com ele no Salão Ladislau, do Castelo. Começaria perguntando por Gregor Samsa. Como surgiu a ideia; se ele alguma vez intuiu que Metamorfose seria o sucesso que ainda é.

12     Você vai organizar um seminário de economia com palestras de cinco pensadores. Quem você convidaria?

Pérsio Arida, André Lara Resende, Thomas Piketty, Joseph Stiglitz, Martin Woolf.

13   Que leituras deveriam ser fundamentais para deputados e senadores serem empossados em seus cargos? E para a presidente da República?

Seria fundamental para deputados e senadores serem empossados em seus cargos terem lido livros. Qualquer livro, desde que lessem. Seria reconfortante. Para a presidente, seria fundamental ler O Alienista, de Machado de Assis.