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A seis dias da ida às urnas para votar para presidente, numa das eleições mais disputadas dos últimos tempos,   publicamos aqui um conto divertido, que satiriza a política e traz uma gostosa brincadeira com a linguagem popular de classificação e nomeação dos animais marítimos: “A eleição no recife”, de Maurício Gomyde. Maurício é um novo cliente da VBM, e estamos orgulhosos de tê-lo entre nós.

Até A máquina de contar histórias, publicado em julho pela Novo Conceito, Maurício Gomyde era um autor apenas autopublicado, de grande sucesso. Ele domina a máquina das mídias sociais como ninguém e cria enorme expectativa entre quem o segue acerca da publicação de seus livros, que vendia aos muitos milhares somente pela Porto 71, sua editora de um autor só. Mas depois que a Novo Conceito o procurou para lançar A Máquina…, Maurício passou a gostar cada vez mais da ideia de ter uma editora profissional.

Diferentemente do que em geral se pensa diante de perfis de autor como o dele, os romances de Maurício Gomyde não são voltados para o público jovem. Além de A máquina de contar histórias, há O mundo de vidro, Ainda não te disse nada, O rosto que precede o sonho e Dias melhores virão, histórias de muita emoção, drama, superação. Maurício é um autor  incomum no quadro da literatura brasileira, embora tenha incontáveis colegas de gênero no contexto norte-americano, atingindo um vasto público feminino que atravessa todas as gerações.

Por enquanto, fiquem com o conto político-marítimo de Maurício, totalmente diferente do que ele faz em seus romances, o que só comprova seu talento.

Luciana Villas-Boas

 

 

A ELEIÇÃO NO RECIFE

 

Há muito a eleição no recife não era tão disputada. O então manda-chuva tubarão-branco tentava o quinto mandato consecutivo, ainda que a reeleição não fosse instituto aceito pela Constituição vigente no fundo do mar. A questão é que nenhum outro peixe jamais tivera coragem de levantar a inconstitucionalidade do ato, e muito menos de desafiar o tubarão nas urnas, notadamente por conta de seus 3.000 dentes e a forma truculenta como costumava conduzir os pleitos, devorando qualquer um que ousasse pensar em registrar candidatura. Mas os tempos eram outros, e o tubarão, envelhecido e só com metade dos dentes, convencido pelos analistas políticos de que a abertura democrática era necessária, já não metia tanto medo. A eleição seria decidida mesmo era no voto.

As pesquisas traziam números disputados cabeça a cabeça, método que automaticamente excluía os bacalhaus da amostra, mas ainda assim dentro da margem de erro. Na semana da eleição, o quadro era de empate técnico entre as três candidaturas majoritárias: 1) a do partido governista, conservador, apoiada no lado abissal direito do recife, encabeçada pelo próprio tubarão-branco, e cujo vice era o tubarão-cabeça-chata, em escolha estratégica para angariar votos de peixes do nordeste do recife; 2) a do partido comunista, enraizada na extrema esquerda radical do paredão, liderada pela sardinha e tendo como vice outra sardinha, o que em geral confundia os eleitores sobre quem realmente era o cabeça da chapa; e 3) a do partido socialdemocrata, que se reunia em cima do muro de corais e era comandada pela ostra, tendo como vice o golfinho. Esta chapa estranha tinha potencial de angariar votos de peixes e não-peixes, ao atirar a rede pra tudo quanto era lado.

Registre-se, aqui, que a quarta candidatura, a do partido verde-musgo, minoritário, havia morrido no nascedouro por equívoco brutal de estratégia política, que veio a se confirmar tarde demais, após a impressão de milhares de santinhos sem noção, com o slogan “Queremos Robalo” e a perda de apoio quase instantânea por parte dos correligionários, que nadaram para outras candidaturas.

As campanhas estavam nas ruas, ou melhor, nas correntes. Os comícios foram organizados em datas diferentes, para que todos pudessem comparecer, considerando que o que a turma queria mesmo era acompanhar os shows que cada legenda havia contratado. O partido comunista, mais modesto em seus recursos, trouxe uma bandinha de pagode formada por manjubinhas, que entrou após o discurso de quinze segundos da sardinha, sempre pressionada de todos os lados a falar pouco. Logo no início do show o quebra-pau foi instalado, por conta de uma falha no repertório, que trazia o clássico “Assassinaram o Camarão”, sambão que revoltou os camarões, que perderam a cabeça e avançaram sobre o palanque e retiraram o apoio ao candidato por incitação ao crime. O partido socialdemocrata ficou na dúvida de quem contratar e, para não desagradar a ninguém, convidou para o mesmo evento uma banda de rock pesado e outra de bossa nova. Tal estratégia se mostrou pouco inteligente, porque a turma formada pelos adoradores do metal, composta pelos tubarões-lixo, pelas moreias e pelos ouriços não se conformou em ter de assistir a um lambari cantando “O barquinho” e o recebeu sob uma chuva de conchas. Em tempo, diante da confusão a ostra preferiu não se abrir para o público, declinando do discurso. Já o partido conservador, utilizando-se de recursos da máquina pública, optou por algo também conservador e contratou um coral. A adesão foi baixa neste comício, mas a presença intimidante do tubarão-branco e seus asseclas tubarões-martelos foi motivo suficiente para que todos aplaudissem efusivamente seu discurso interminável de quatro horas.

O certame foi conturbado, com os três candidatos sofrendo extorsão por parte das traíras, que, organizadas num cardume silencioso e muito eficiente, montaram dossiês e só fecharam a boca após negociatas que resultaram em promessas de cargos no segundo escalão do futuro governo, qualquer um dos três que fosse eleito. Desde a “afundação” do recife, as traíras sempre estiveram no poder, atuando de forma baixa por debaixo dos oceanos. Nenhum dos candidatos afirmou aceitar os dossiês, após acordo de fazerem uma campanha em águas limpas, apenas no mar das ideias, e recusando-se terminantemente a descer o pleito a níveis abissais.

Missões estrangeiras foram convidadas como observadoras, para garantir a lisura e dar credibilidade ao processo. Chegaram, a uma semana da eleição, peixes de água-doce vindos via pororoca: tambaquis, piramutabas, pirarucus, pacus, um boto cor de rosa (representante das minorias piscianas sexualmente reprimidas), um peixe-boi (representante dos pecuaristas) e mais um monte de cardumes organizados que vieram mesmo só pra fazer turismo em outras águas.

A bandeira de campanha da sardinha comunista era transformar o recife numa simbiose, todo mundo trabalhando em prol do coletivo. Sua base de apoio era o MSM – Movimento dos Sem Movimento, composto por esponjas e anêmonas, que ameaçavam invadir todos os “lati-fundos” improdutivos do mar se não recebessem generosos pedaços de recife pra se instalarem. Tal bravata não metia medo em ninguém, justamente por sua própria natureza imóvel e todo mundo saber que aquilo era pura retórica.

Já o programa da ostra era privatizar qualquer coisa que aparecesse na frente, vender e fazer caixa. A candidatura estava inflada de recursos de caixa-dois oriundos de empresas de petróleo interessadas na privatização dos serviços de exploração, e a intimidade da ostra com a Shell estava na cara. Mas ela negava peremptoriamente.

Por fim, o tubarão-branco acenava com ampliações das instituições, o que abriria novas vagas na mamata do serviço público. Mas todos sabiam, à guelra pequena, que só quem tinha escama quente e peixada forte conseguia. O nepotismo era às claras e todos os setenta tubarões-brancos da família estavam alocados em posições estratégicas, sem o mínimo constrangimento. O Ministério da Pesca, por exemplo, estava a cargo da mãe do tubarão-branco. Um escândalo, considerando que jamais um tubarão-branco foi pescado e isso denotava que a velha, apesar de enorme, era peixe-pequeno no assunto.

A dois dias do dia D, um debate com transmissão para todo o recife aconteceu dentro de um navio naufragado na segunda guerra. Os candidatos chegaram ao convés com seus séquitos de puxa-sacos e assessores: o tubarão-branco e suas rêmoras; a sardinha com mais quatro sardinhas de cada lado; e a ostra apoiada no casco de um cágado. As focas da imprensa entrevistavam cada um deles:

– Vou engolir as outras duas candidaturas – afirmou o tubarão-branco.

– Estou acostumada a sofrer pressão de todos os lados – filosofou a sardinha.

– Quero expor meu interior aos eleitores – a ostra, soltando uma pérola.

A mediação ficou a cargo da garoupa, que, após ter sua foto estampada na nota de 100, largou a humildade de lado e virou uma estrela do mar. Passou a exigir cachês exorbitantes para aparecer e dava o mar da graça apenas em eventos da alta sociedade ou daquela “mar-gnitude”. As regras foram combinadas pelas assessorias dos três candidatos, com pedido expresso para que o tubarão-branco não atacasse a honra pessoal e nem o próprio pessoal, sob pena de expulsão do plenário, além da concessão de uma hora de direito de resposta a quem sobrevivesse ao ataque. Cada candidato poderia fazer perguntas aos oponentes, e a livre intervenção por parte da plateia era estimulada. As galerias estavam cheias até a borda, das mais diversas espécies de animais marinhos. Do lado de fora do navio, os barbados e os tubarões-bigode, capitaneados pela lula, organizaram uma manifestação contra a “ditadura da elite cinza”, em referência aos tubarões, e pregando o voto em branco. O problema foi a confusão gerada na cabeça dos poucos presentes, que não entenderam nada e acharam que o voto em branco significava votar no tubarão-branco, subvertendo toda a lógica do protesto.

O início do debate foi tranquilo, com a exposição dos programas de governo e as naturais trocas de amabilidades, característica deste tipo de confronto. Um marasmo! O que se viu foi um infindável abrir e fechar de guelras por parte da plateia. Os baixíssimos índices levantados pelos programas instantâneos de medição de audiência indicavam que daquele jeito o debate daria com os burros n’água e isso poderia desagradar a quem realmente interessava: os patrocinadores. No primeiro intervalo comercial, o peixe-piloto, editor-chefe da emissora organizadora do confronto, foi até a garoupa e ordenou que botasse fogo no debate. A garoupa era famosa, mas pouco inteligente:

– Como vou botar fogo dentro d’água? – pergunta que não mereceu resposta, além de um olhar de peixe morto por parte do peixe-piloto.

Na volta, a garoupa abriu para as perguntas da plateia. O ouriço pediu a palavra e trouxe à tona um tema espinhoso: a lavagem de dinheiro. Fez um inflamado e breve discurso sobre o tema, sem nenhum nexo naquele contexto, porque não se conhecia, ao menos no fundo do mar, dinheiro que não fosse lavado. Sua pergunta foi cancelada por falta de oportunidade e conveniência.

– É um cabeça-de-bagre mesmo! – cochichou o tubarão para a ostra.

– Parece que tomou umas e ostras! – devolveu a ostra, no trocadilho mais infame da história das eleições.

Palavra dada à sardinha, que atacou a ostra:

– Trago aqui denúncia gravíssima feita pela revista “Caros Anfíbios”, que afirma ser o senhor o verdadeiro dono de um restaurante japonês, e que arranjou um laranja, o peixe-palhaço, para tocar o negócio. O que o senhor tem a dizer?

O recife tinha alguns restaurantes japoneses clandestinos, estabelecimento proibido pela legislação contrária ao canibalismo via sashimi. A denúncia automaticamente tornava inadmissível que salmões, atuns e cogumelos do mar votassem na ostra.

– Calúnia! O peixe-palhaço a que o senhor se refere é apenas um amigo meu, animador de festas infantis. Nego peremptoriamente, porque nunca gostei dos japoneses! – afirmação necessária pra se safar, mas que também colocava por terra o outrora apoio maciço dos peixes ornamentais à candidatura da ostra.

– Só sendo muito mole pra votar nesse ai! – comentou a água viva.

– Ta insinuando o quê? – atacou o molusco, virando-se pra água viva, que se fez de morta.

A ostra contra-atacou a sardinha, gritando:

– E você e o namorado, que foram vistos jantando juntos? Como é que fica?

– Nossa, adorei isso! – comentou o boto cor-de-rosa que, a propósito, era do signo de aquário.

– Namorado? Eu sou espada! – a sardinha, indignada.

– Espada? Você é uma sardinha! – vociferou novamente a ostra, atacando diretamente o candidato, com aplausos efusivos do peixe-espada, que gritou: “Sardinha é a mãe!”.

– Exijo direito de resposta! – gritou a sardinha, que sabia da péssima reputação do namorado, que vivia dizendo que “caiu na rede é peixe”.

– Bonito, hein, sardinha? – gritou um mexilhão que estava nas galerias.

– Me inclua fora dessa! Quero que a sardinha se afogue! – indignou-se o bonito, anticomunista declarado, sentado próximo ao mexilhão e já pronto a meter uma moqueca em sua cara. Os outros presentes tiveram que intervir pra conter os ânimos exaltados.

– Aí tem truta! – gritou o leão marinho.

– Truta o cacete! Vou dar uma piaba na sua orelha! – a truta, após ser incluída nas denúncias e esquecendo que leão marinho não tem orelha.

– E o que é que EU tenho a ver com isso? – a piaba.

– To cansado de viver nessa lama – o caranguejo, desiludido, falando com propriedade.

– Falou bonito! – aplaudiu o bonito.

– Quero ver ele se safar dessa. Tremendo pepino! – comentou a arraia, que era o peixe mais chato do oceano e nunca concordava com nada.

– Hein? – perguntou o pepino-do-mar, que não tava prestando atenção.

– Isso aqui ta uma surubada! – gritou o beta azul, o peixe mais invocado do recife, sem medo nenhum de que a turma do surubim fizesse pincel dele.

– Silêncio nas galerias! – a garoupa perdeu a compostura e tentou subir o nível, atitude reprovada com outro olhar de peixe-morto do peixe-piloto, ciente de que aquele sururu era ótimo para o crescimento do ibope. Mas a garoupa botou fogo, conforme as orientações:

– Direito de resposta dada à sardinha. O que o senhor me diz sobre aquela história do namorado?

– Não tenho nada a dizer sobre isso. Mas tenho aqui fotos que mostram a ostra tirando uma casquinha do siri. – Nesse momento, o siri saiu de lado, pra não se comprometer com as fotos tiradas pelas traíras.

Uma imagem vale mais do que mil palavras, e se podia afirmar que a candidatura da ostra naufragaria.

– Hahaha! É como sempre digo: pimenta no pacu dos outros é refresco! – era o tubarão-branco, em frase de efeito que provocou silêncio constrangedor nas galerias, ao menos por parte dos pacus, que ainda tiveram de aguentar risinhos maledicentes dos baiacus, dos pirarucus e dos tambacus, que não foram citados por mero detalhe de escolha de prefixo.

E o tubarão continuou, baixando o nível de vez:

– Ostra, você não tem envergadura moral para comandar o recife. Sabemos que o candidato é casado com outra ostra e, além dessa agora do siri, tem sido visto constantemente com uma lampreia. Como o senhor explica isso?

A ostra, sabendo que pior do que ser taxado de infiel é ser taxado de sem noção, já que a lampreia era uma verdadeira mocreia, contra-atacou na mesma moeda, mudando o foco das atenções para o tubarão-branco:

– O sujo falando do mal lavado!

– Eu não sei o que o candidato está insinuando. Sou muito bem casado com uma orca. Mesmo ela sendo uma baleia, não fico por aí, nadando de braçada com raparigas.

– Então, como o candidato explica estas fotos? O senhor se reconhece aqui? – era a ostra, chutando o balde e mostrando para as câmeras fotos comprometedoras, obtidas pelas traíras, do tubarão-branco de barbatanas dadas com uma piranha e uma piraputanga. Essa imagem já valia mais do que um milhão de palavras.

– Ooooohhhhhhhh!!!! – espantaram-se os presentes. O ibope nas alturas.

– Eu sou branco-gelo! Essa foto é de um tubarão branco-neve – gritou isso com a mandíbula proeminente e mostrando quase todos os 1500 dentes que restavam, na desculpa considerada a mais esfarrapada da história do recife, entrando para os anais do folclore político desde então. Tamanha cara de pau foi um choque até para a enguia.

– Já sabendo da possibilidade desta desculpa fraca, consultei previamente um especialista, o pinguim, e tenho aqui um relatório que prova que branco-gelo e branco-neve é tudo a mesma coisa. Era o senhor, sim! Como explica? – a ostra, encurralando o tubarão, que sabia que teria de dar explicações à baleia assassina quando chegasse em casa.

– Acaba com ele, Ostra! – gritou e aplaudiu o vermelho, comunista desde alevino.

E foi neste momento limite que o tubarão, sentindo-se acuado, afogado num mar de lama capaz de destruir o pouco que ainda restava de sua péssima reputação, de saco cheio de bancar o bonzinho, já sem qualquer paciência para mais palavrório e presepada, e sentindo, enfim, que a coisa tinha ido por água abaixo, partiu para a truculência: saiu devorando tudo o que tinha à frente, porque aquele negócio de democracia já tinha enchido o saco.

Devorou a sardinha e a garoupa. Comeu o namorado. Descascou a tartaruga, destroçou a ostra, aniquilou os siris, os caranguejos e o ouriço. Assassinou o camarão. Enlatou oito sardinhas. Cagou no cágado. Deu um cascudo no pintado, estrunchou o molusco e palitou os 300 molares com a lagosta. Não poupou nem o filhote. Avançou sobre as galerias e trucidou os pacus, os baiacus, os pirarucus, os tambacus e todos os outros peixes, fossem eles terminados neste ou naquele sufixo. Venceu por aclamação das rêmoras, as únicas poupadas da chacina.

E voltou para seu gabinete, se autoconcedendo mandato vitalício.

Nos braços do polvo.

Maurício Gomyde

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