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Reproduzimos hoje um  texto publicado no blog da Companhia das Letras, abrindo espaço para nosso autor Marcelo Backes expor sua visão do próprio romance  A CASA CAI, que será lançado dia 23 de outubro.

Escombros e caprichos: os meandros e afetos de A casa cai

 

Dizem que reformar a casa é tão traumático quanto perder um parente próximo.

Existem até estatísticas a respeito.

Algum depoimento?

Eu surtei.

A ideia veio.

E foi se transformando.

Inventei meu joão-de-barro casmurro, meu construtor autista.

Qual era o significado de, num tempo em que ninguém mais cozinha pra ninguém, erguer uma casa, e erguer essa casa pra alguém?

Meu joão-de-barro é um homem que fugiu da vida a vida inteira e de repente perde o pai, com quem nunca conseguiu se entender direito. Sem nem saber como o mundo funciona, ele recebe uma herança vultosa, mas pantanosa, com a qual é obrigado a lidar e que conta inclusive a paradigmática história imobiliária do Leblon e do Rio de Janeiro. Por que um metro quadrado pode custar oitenta mil reais?

Ao mesmo tempo, esse homem constrói uma casa pra sua mulher, a mulher que também herdou de seu pai. Se quisesse, ele poderia ter escolhido um apartamento na orla, em plena Delfim Moreira, mas não. Por humildade e antigos pruridos cristãos, ele prefere justamente o pior lugar do pântano paterno, a ainda um tanto democrática Selva de Pedra, erguida sobre os destroços daquilo que um dia foi a Praia do Pinto, uma das favelas horizontais da Zona Sul do Rio de Janeiro, aniquilada como todas as outras. O homem reforma a casa escolhida e aos poucos descobre que o pai construiu a cidade, e que sem derramar sangue talvez não seja possível despejar argamassa num lugar que um dia foi tão naturalmente idílico como o Leblon das baleias, a Lagoa dos índios. Enquanto desvenda seu passado mesquinho, o passado terrível de seu pai e o pretérito ainda mais cabeludo de sua cidade e de seu país, esse homem é obrigado a perceber que a verdadeira construção nada tem a ver com concreto armado, mas se dá por dentro, no fundo daquilo que alguns ainda insistem em chamar de alma.

Sem contar o trauma que fica, os vícios da reforma.

“Agora eu não conseguia mais entrar no apartamento de ninguém, no banheiro de um restaurante e até na cozinha da minha sogra sem dizer, pedra prime, a pia do banheiro deve ter custado uns seis mil reais, mármore italiano, uma bancada pelo preço de um carro popular, granito são gabriel, barato e bonito, vaso deca linha link, dois mil e quinhentos reais, espelho veneziano, sim, um toque clássico garimpado em antiquário, certamente, preço imprevisível, torneiras deca linha twist com misturador, novecentos cada, chuveiro de teto deca linha chromo, bem mais de mil reais.”

Na trajetória em meio aos escombros de aposentos botados ao chão, muitos caprichos pouco sólidos e a descoberta de que não se rola assim no mais pra longe da árvore de um pai, de uma família. A Bíblia dá as caras em toda sua ancestralidade e ainda sobra espaço pra um passeio abrangente pelas artes, as do Brasil contemporâneo e as do universo clássico. As tripas saem das paredes, um apartamento expõe suas vísceras, e Adriana Varejão vira realidade no cotidiano de todos que avaliam uma casa, mexendo ou não em sua estrutura. O homem acaba aprendendo que a hipótese da ruína está incrustada a ferro e fogo em toda construção e se tornou lei num país em que qualquer reforma, seja de uma rua seja de um prédio, significa só mais um excremento à beira da estrada.

Uma mulher chora, ela é o que os outros chamam de a outra sem saber o que é uma. Agarrada ao travesseiro como se fosse uma tábua de salvação no mar da cama, a mulher se afoga em suas próprias lágrimas. Na verdade ela nem chora, tudo se passa em silêncio, e os lamentos rolam por suas faces como se ela tivesse engolido metade do oceano logo abaixo da janela, há alguns metros, e agora usasse os olhos pra botar pra fora aquela água toda, enquanto tenta catar em vão, angustiada, as flores azuis tecidas na colcha. Quando o homem começa a lamber suas faces como um cão sarnento, ela joga a colcha de lado, diz que escondeu todas as flores debaixo da cama e em seguida ergue o lençol vermelho sobre os dois como se fosse uma tenda.

Vamos brincar de casinha?

É assim.

Enquanto a casa é levantada, a alma vai desmoronando. O quarto recebe o último retoque e o amor acaba. O que jamais se acreditou que ficaria pronto, termina em pé. Aquilo que se achava eterno, simplesmente tomba.

Aqui, a bela capa do livro:

marcelo backes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aqui, o link para o blog da Companhia das Letras: http://www.blogdacompanhia.com.br/2014/09/escombros-e-caprichos-os-meandros-e-afetos-de-a-casa-cai/

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