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Nosso terceiro texto para o blog nada tem a ver com literatura, mas como se trata de uma bela análise de política internacional, assinada por autor da VB&M, vale para figurar aqui. Igor Gielow é diretor da sucursal brasiliense da “Folha de S.Paulo”, mas construiu sua carreira jornalística como correspondente internacional. Especializou-se e brilhou principalmente em zonas de conflito e na região que outrora fez parte ou foi área de influência da União Soviética.

Sua carreira literária começará em maio de 2015 com ARIANA, estupendo thriller de espionagem internacional ao estilo John Le Carré. A história é narrada por Mark Zanders, um jornalista brasileiro descendente de alemães, louro, alto, que por onde passam todo mundo toma como agente da CIA, pois onde já se viu brasileiro com essa pinta? Será alterego de quem?

A serviço de uma revista inglesa, Mark sobrevive a um atentado terrorista em um hotel de Islamabad, mas seu assistente e produtor local, Waqar, falece sussurando-lhe que não deixe de buscar Ariana, de quem o jornalista jamais ouvira falar. Ele sai atrás da moça, da verdade sobre sua relação Waqar e de sua própria identidade deparando-se no caminho com segredos de tecnologia bélica, terroristas, agentes da CIA e de outros serviços de espionagem. Há dois casos de amor no entrecho, um deles com Elena, uma russa ucraniana, maltratada por Mark e que o maltrata também. Uma especidalidade de Igor, a Rússia e os antigos países e satélites da União Soviética. Adivinhem onde será a próxima aventura de Mark? O pano de fundo do próximo romance está no artigo que vem a seguir.

Trégua é mais uma vitória de Vladimir Putin

Apesar da retórica dos líderes da Otan, não é a aliança ocidental militar a vitoriosa até aqui no novo embate com o velho inimigo, a Rússia. É outra vez Vladimir Vladimirovitch Putin, ainda que agora os riscos assumidos pelo presidente sejam maiores. Assim como quando colocou uma Geórgia que buscava aliar-se ao Ocidente de joelhos em 2008, tirando-lhe autonomia sobre parte de seu território, Putin agora colhe mais um provável trunfo tático na Ucrânia. Considerando que o cessar-fogo entre separatistas pró-Moscou e o governo ucraniano evolua para algum tipo de acomodação política, os pró-Ocidente de Kiev foram emasculados como seus pares em Tbilisi em 2008. Como Barack Obama disse, tentando vender um peixe de outra natureza, trata-se de uma esperança. Se o rumo das coisas for o previsto, a entrada da Ucrânia na Otan ficará para um futuro improvável, e parte do território estará perdida (Crimeia) ou ingovernável (leste). O Ocidente não entende a Rússia. Dissolvida a União Soviética em 1991, tudo o que Otan e União Europeia fizeram foi expandir seus braços para a antiga esfera de influência de Moscou. O Ocidente tomou para si as simbólicas repúblicas bálticas, onde a tensão entre russos étnicos e o resto da população remonta à Segunda Guerra Mundial. Tente pedir uma cerveja em russo num bar de letões em Riga para entender o problema. Mas quando o namoro chegou às encruzilhadas energéticas da Rússia, Geórgia e Ucrânia por exemplo, a coisa mudou de figura. Putin reagiu, de forma paranoica segundo adversários, ao ver inimigos cercando seu território e seus gasodutos.

folha igor

O presidente encara riscos maiores, acompanhado por um Ocidente que trombeteia a militarização do Leste Europeu –ainda que 4.000 soldados não sejam bem isso. Os sucessivos embargos impostos à Rússia provocam danos reais ao país, e agora resta ver se eles serão desmontados com a perspectiva de alguma paz na Ucrânia. Mas o aspecto mais perigoso em questão é a segurança mundial. Um artigo escrito em agosto por um crítico feroz de Putin, o matemático Andrei Piontovsky, virou sensação entre analistas preocupados com isso. Ele sugere que o russo pode apoiar separatismo na Estônia. Só que o país é membro da Otan, o que implicaria a ação militar ocidental. Confrontado com uma derrota convencional, Moscou usaria de forma limitada armas nucleares contra alvos menos centrais da aliança, no Báltico ou na Polônia. Para evitar o apocalipse, o Ocidente reagiria contra uma cidade média russa, chegando a um cessar-fogo e vitória moral russa. O objetivo estratégico de Putin seria realizado: desmoralizar os EUA como garantidores da paz e retomar a influência da Rússia. Parece ficção e certamente é exagerado, mas desde então Putin falou duas vezes sobre o poderio nuclear russo e os EUA acusaram o Kremlin de testar mísseis proibidos para uso contra a Europa. A inapetência por uma invasão militar da Ucrânia mostra que Moscou também trabalha com limites. A realidade é distinta da ficção, e fica tudo para a próxima rodada. Esta foi de Putin.

 

Artigo publicado originalmente na Folha de S. Paulo. Link para a matéria: http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2014/09/1511995-analise-tregua-e-mais-uma-vitoria-de-vladimir-putin.shtml

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