setembro 2014

A seis dias da ida às urnas para votar para presidente, numa das eleições mais disputadas dos últimos tempos,   publicamos aqui um conto divertido, que satiriza a política e traz uma gostosa brincadeira com a linguagem popular de classificação e nomeação dos animais marítimos: “A eleição no recife”, de Maurício Gomyde. Maurício é um novo cliente da VBM, e estamos orgulhosos de tê-lo entre nós.

Até A máquina de contar histórias, publicado em julho pela Novo Conceito, Maurício Gomyde era um autor apenas autopublicado, de grande sucesso. Ele domina a máquina das mídias sociais como ninguém e cria enorme expectativa entre quem o segue acerca da publicação de seus livros, que vendia aos muitos milhares somente pela Porto 71, sua editora de um autor só. Mas depois que a Novo Conceito o procurou para lançar A Máquina…, Maurício passou a gostar cada vez mais da ideia de ter uma editora profissional.

Diferentemente do que em geral se pensa diante de perfis de autor como o dele, os romances de Maurício Gomyde não são voltados para o público jovem. Além de A máquina de contar histórias, há O mundo de vidro, Ainda não te disse nada, O rosto que precede o sonho e Dias melhores virão, histórias de muita emoção, drama, superação. Maurício é um autor  incomum no quadro da literatura brasileira, embora tenha incontáveis colegas de gênero no contexto norte-americano, atingindo um vasto público feminino que atravessa todas as gerações.

Por enquanto, fiquem com o conto político-marítimo de Maurício, totalmente diferente do que ele faz em seus romances, o que só comprova seu talento.

Luciana Villas-Boas

 

 

A ELEIÇÃO NO RECIFE

 

Há muito a eleição no recife não era tão disputada. O então manda-chuva tubarão-branco tentava o quinto mandato consecutivo, ainda que a reeleição não fosse instituto aceito pela Constituição vigente no fundo do mar. A questão é que nenhum outro peixe jamais tivera coragem de levantar a inconstitucionalidade do ato, e muito menos de desafiar o tubarão nas urnas, notadamente por conta de seus 3.000 dentes e a forma truculenta como costumava conduzir os pleitos, devorando qualquer um que ousasse pensar em registrar candidatura. Mas os tempos eram outros, e o tubarão, envelhecido e só com metade dos dentes, convencido pelos analistas políticos de que a abertura democrática era necessária, já não metia tanto medo. A eleição seria decidida mesmo era no voto.

As pesquisas traziam números disputados cabeça a cabeça, método que automaticamente excluía os bacalhaus da amostra, mas ainda assim dentro da margem de erro. Na semana da eleição, o quadro era de empate técnico entre as três candidaturas majoritárias: 1) a do partido governista, conservador, apoiada no lado abissal direito do recife, encabeçada pelo próprio tubarão-branco, e cujo vice era o tubarão-cabeça-chata, em escolha estratégica para angariar votos de peixes do nordeste do recife; 2) a do partido comunista, enraizada na extrema esquerda radical do paredão, liderada pela sardinha e tendo como vice outra sardinha, o que em geral confundia os eleitores sobre quem realmente era o cabeça da chapa; e 3) a do partido socialdemocrata, que se reunia em cima do muro de corais e era comandada pela ostra, tendo como vice o golfinho. Esta chapa estranha tinha potencial de angariar votos de peixes e não-peixes, ao atirar a rede pra tudo quanto era lado.

Registre-se, aqui, que a quarta candidatura, a do partido verde-musgo, minoritário, havia morrido no nascedouro por equívoco brutal de estratégia política, que veio a se confirmar tarde demais, após a impressão de milhares de santinhos sem noção, com o slogan “Queremos Robalo” e a perda de apoio quase instantânea por parte dos correligionários, que nadaram para outras candidaturas.

As campanhas estavam nas ruas, ou melhor, nas correntes. Os comícios foram organizados em datas diferentes, para que todos pudessem comparecer, considerando que o que a turma queria mesmo era acompanhar os shows que cada legenda havia contratado. O partido comunista, mais modesto em seus recursos, trouxe uma bandinha de pagode formada por manjubinhas, que entrou após o discurso de quinze segundos da sardinha, sempre pressionada de todos os lados a falar pouco. Logo no início do show o quebra-pau foi instalado, por conta de uma falha no repertório, que trazia o clássico “Assassinaram o Camarão”, sambão que revoltou os camarões, que perderam a cabeça e avançaram sobre o palanque e retiraram o apoio ao candidato por incitação ao crime. O partido socialdemocrata ficou na dúvida de quem contratar e, para não desagradar a ninguém, convidou para o mesmo evento uma banda de rock pesado e outra de bossa nova. Tal estratégia se mostrou pouco inteligente, porque a turma formada pelos adoradores do metal, composta pelos tubarões-lixo, pelas moreias e pelos ouriços não se conformou em ter de assistir a um lambari cantando “O barquinho” e o recebeu sob uma chuva de conchas. Em tempo, diante da confusão a ostra preferiu não se abrir para o público, declinando do discurso. Já o partido conservador, utilizando-se de recursos da máquina pública, optou por algo também conservador e contratou um coral. A adesão foi baixa neste comício, mas a presença intimidante do tubarão-branco e seus asseclas tubarões-martelos foi motivo suficiente para que todos aplaudissem efusivamente seu discurso interminável de quatro horas.

O certame foi conturbado, com os três candidatos sofrendo extorsão por parte das traíras, que, organizadas num cardume silencioso e muito eficiente, montaram dossiês e só fecharam a boca após negociatas que resultaram em promessas de cargos no segundo escalão do futuro governo, qualquer um dos três que fosse eleito. Desde a “afundação” do recife, as traíras sempre estiveram no poder, atuando de forma baixa por debaixo dos oceanos. Nenhum dos candidatos afirmou aceitar os dossiês, após acordo de fazerem uma campanha em águas limpas, apenas no mar das ideias, e recusando-se terminantemente a descer o pleito a níveis abissais.

Missões estrangeiras foram convidadas como observadoras, para garantir a lisura e dar credibilidade ao processo. Chegaram, a uma semana da eleição, peixes de água-doce vindos via pororoca: tambaquis, piramutabas, pirarucus, pacus, um boto cor de rosa (representante das minorias piscianas sexualmente reprimidas), um peixe-boi (representante dos pecuaristas) e mais um monte de cardumes organizados que vieram mesmo só pra fazer turismo em outras águas.

A bandeira de campanha da sardinha comunista era transformar o recife numa simbiose, todo mundo trabalhando em prol do coletivo. Sua base de apoio era o MSM – Movimento dos Sem Movimento, composto por esponjas e anêmonas, que ameaçavam invadir todos os “lati-fundos” improdutivos do mar se não recebessem generosos pedaços de recife pra se instalarem. Tal bravata não metia medo em ninguém, justamente por sua própria natureza imóvel e todo mundo saber que aquilo era pura retórica.

Já o programa da ostra era privatizar qualquer coisa que aparecesse na frente, vender e fazer caixa. A candidatura estava inflada de recursos de caixa-dois oriundos de empresas de petróleo interessadas na privatização dos serviços de exploração, e a intimidade da ostra com a Shell estava na cara. Mas ela negava peremptoriamente.

Por fim, o tubarão-branco acenava com ampliações das instituições, o que abriria novas vagas na mamata do serviço público. Mas todos sabiam, à guelra pequena, que só quem tinha escama quente e peixada forte conseguia. O nepotismo era às claras e todos os setenta tubarões-brancos da família estavam alocados em posições estratégicas, sem o mínimo constrangimento. O Ministério da Pesca, por exemplo, estava a cargo da mãe do tubarão-branco. Um escândalo, considerando que jamais um tubarão-branco foi pescado e isso denotava que a velha, apesar de enorme, era peixe-pequeno no assunto.

A dois dias do dia D, um debate com transmissão para todo o recife aconteceu dentro de um navio naufragado na segunda guerra. Os candidatos chegaram ao convés com seus séquitos de puxa-sacos e assessores: o tubarão-branco e suas rêmoras; a sardinha com mais quatro sardinhas de cada lado; e a ostra apoiada no casco de um cágado. As focas da imprensa entrevistavam cada um deles:

– Vou engolir as outras duas candidaturas – afirmou o tubarão-branco.

– Estou acostumada a sofrer pressão de todos os lados – filosofou a sardinha.

– Quero expor meu interior aos eleitores – a ostra, soltando uma pérola.

A mediação ficou a cargo da garoupa, que, após ter sua foto estampada na nota de 100, largou a humildade de lado e virou uma estrela do mar. Passou a exigir cachês exorbitantes para aparecer e dava o mar da graça apenas em eventos da alta sociedade ou daquela “mar-gnitude”. As regras foram combinadas pelas assessorias dos três candidatos, com pedido expresso para que o tubarão-branco não atacasse a honra pessoal e nem o próprio pessoal, sob pena de expulsão do plenário, além da concessão de uma hora de direito de resposta a quem sobrevivesse ao ataque. Cada candidato poderia fazer perguntas aos oponentes, e a livre intervenção por parte da plateia era estimulada. As galerias estavam cheias até a borda, das mais diversas espécies de animais marinhos. Do lado de fora do navio, os barbados e os tubarões-bigode, capitaneados pela lula, organizaram uma manifestação contra a “ditadura da elite cinza”, em referência aos tubarões, e pregando o voto em branco. O problema foi a confusão gerada na cabeça dos poucos presentes, que não entenderam nada e acharam que o voto em branco significava votar no tubarão-branco, subvertendo toda a lógica do protesto.

O início do debate foi tranquilo, com a exposição dos programas de governo e as naturais trocas de amabilidades, característica deste tipo de confronto. Um marasmo! O que se viu foi um infindável abrir e fechar de guelras por parte da plateia. Os baixíssimos índices levantados pelos programas instantâneos de medição de audiência indicavam que daquele jeito o debate daria com os burros n’água e isso poderia desagradar a quem realmente interessava: os patrocinadores. No primeiro intervalo comercial, o peixe-piloto, editor-chefe da emissora organizadora do confronto, foi até a garoupa e ordenou que botasse fogo no debate. A garoupa era famosa, mas pouco inteligente:

– Como vou botar fogo dentro d’água? – pergunta que não mereceu resposta, além de um olhar de peixe morto por parte do peixe-piloto.

Na volta, a garoupa abriu para as perguntas da plateia. O ouriço pediu a palavra e trouxe à tona um tema espinhoso: a lavagem de dinheiro. Fez um inflamado e breve discurso sobre o tema, sem nenhum nexo naquele contexto, porque não se conhecia, ao menos no fundo do mar, dinheiro que não fosse lavado. Sua pergunta foi cancelada por falta de oportunidade e conveniência.

– É um cabeça-de-bagre mesmo! – cochichou o tubarão para a ostra.

– Parece que tomou umas e ostras! – devolveu a ostra, no trocadilho mais infame da história das eleições.

Palavra dada à sardinha, que atacou a ostra:

– Trago aqui denúncia gravíssima feita pela revista “Caros Anfíbios”, que afirma ser o senhor o verdadeiro dono de um restaurante japonês, e que arranjou um laranja, o peixe-palhaço, para tocar o negócio. O que o senhor tem a dizer?

O recife tinha alguns restaurantes japoneses clandestinos, estabelecimento proibido pela legislação contrária ao canibalismo via sashimi. A denúncia automaticamente tornava inadmissível que salmões, atuns e cogumelos do mar votassem na ostra.

– Calúnia! O peixe-palhaço a que o senhor se refere é apenas um amigo meu, animador de festas infantis. Nego peremptoriamente, porque nunca gostei dos japoneses! – afirmação necessária pra se safar, mas que também colocava por terra o outrora apoio maciço dos peixes ornamentais à candidatura da ostra.

– Só sendo muito mole pra votar nesse ai! – comentou a água viva.

– Ta insinuando o quê? – atacou o molusco, virando-se pra água viva, que se fez de morta.

A ostra contra-atacou a sardinha, gritando:

– E você e o namorado, que foram vistos jantando juntos? Como é que fica?

– Nossa, adorei isso! – comentou o boto cor-de-rosa que, a propósito, era do signo de aquário.

– Namorado? Eu sou espada! – a sardinha, indignada.

– Espada? Você é uma sardinha! – vociferou novamente a ostra, atacando diretamente o candidato, com aplausos efusivos do peixe-espada, que gritou: “Sardinha é a mãe!”.

– Exijo direito de resposta! – gritou a sardinha, que sabia da péssima reputação do namorado, que vivia dizendo que “caiu na rede é peixe”.

– Bonito, hein, sardinha? – gritou um mexilhão que estava nas galerias.

– Me inclua fora dessa! Quero que a sardinha se afogue! – indignou-se o bonito, anticomunista declarado, sentado próximo ao mexilhão e já pronto a meter uma moqueca em sua cara. Os outros presentes tiveram que intervir pra conter os ânimos exaltados.

– Aí tem truta! – gritou o leão marinho.

– Truta o cacete! Vou dar uma piaba na sua orelha! – a truta, após ser incluída nas denúncias e esquecendo que leão marinho não tem orelha.

– E o que é que EU tenho a ver com isso? – a piaba.

– To cansado de viver nessa lama – o caranguejo, desiludido, falando com propriedade.

– Falou bonito! – aplaudiu o bonito.

– Quero ver ele se safar dessa. Tremendo pepino! – comentou a arraia, que era o peixe mais chato do oceano e nunca concordava com nada.

– Hein? – perguntou o pepino-do-mar, que não tava prestando atenção.

– Isso aqui ta uma surubada! – gritou o beta azul, o peixe mais invocado do recife, sem medo nenhum de que a turma do surubim fizesse pincel dele.

– Silêncio nas galerias! – a garoupa perdeu a compostura e tentou subir o nível, atitude reprovada com outro olhar de peixe-morto do peixe-piloto, ciente de que aquele sururu era ótimo para o crescimento do ibope. Mas a garoupa botou fogo, conforme as orientações:

– Direito de resposta dada à sardinha. O que o senhor me diz sobre aquela história do namorado?

– Não tenho nada a dizer sobre isso. Mas tenho aqui fotos que mostram a ostra tirando uma casquinha do siri. – Nesse momento, o siri saiu de lado, pra não se comprometer com as fotos tiradas pelas traíras.

Uma imagem vale mais do que mil palavras, e se podia afirmar que a candidatura da ostra naufragaria.

– Hahaha! É como sempre digo: pimenta no pacu dos outros é refresco! – era o tubarão-branco, em frase de efeito que provocou silêncio constrangedor nas galerias, ao menos por parte dos pacus, que ainda tiveram de aguentar risinhos maledicentes dos baiacus, dos pirarucus e dos tambacus, que não foram citados por mero detalhe de escolha de prefixo.

E o tubarão continuou, baixando o nível de vez:

– Ostra, você não tem envergadura moral para comandar o recife. Sabemos que o candidato é casado com outra ostra e, além dessa agora do siri, tem sido visto constantemente com uma lampreia. Como o senhor explica isso?

A ostra, sabendo que pior do que ser taxado de infiel é ser taxado de sem noção, já que a lampreia era uma verdadeira mocreia, contra-atacou na mesma moeda, mudando o foco das atenções para o tubarão-branco:

– O sujo falando do mal lavado!

– Eu não sei o que o candidato está insinuando. Sou muito bem casado com uma orca. Mesmo ela sendo uma baleia, não fico por aí, nadando de braçada com raparigas.

– Então, como o candidato explica estas fotos? O senhor se reconhece aqui? – era a ostra, chutando o balde e mostrando para as câmeras fotos comprometedoras, obtidas pelas traíras, do tubarão-branco de barbatanas dadas com uma piranha e uma piraputanga. Essa imagem já valia mais do que um milhão de palavras.

– Ooooohhhhhhhh!!!! – espantaram-se os presentes. O ibope nas alturas.

– Eu sou branco-gelo! Essa foto é de um tubarão branco-neve – gritou isso com a mandíbula proeminente e mostrando quase todos os 1500 dentes que restavam, na desculpa considerada a mais esfarrapada da história do recife, entrando para os anais do folclore político desde então. Tamanha cara de pau foi um choque até para a enguia.

– Já sabendo da possibilidade desta desculpa fraca, consultei previamente um especialista, o pinguim, e tenho aqui um relatório que prova que branco-gelo e branco-neve é tudo a mesma coisa. Era o senhor, sim! Como explica? – a ostra, encurralando o tubarão, que sabia que teria de dar explicações à baleia assassina quando chegasse em casa.

– Acaba com ele, Ostra! – gritou e aplaudiu o vermelho, comunista desde alevino.

E foi neste momento limite que o tubarão, sentindo-se acuado, afogado num mar de lama capaz de destruir o pouco que ainda restava de sua péssima reputação, de saco cheio de bancar o bonzinho, já sem qualquer paciência para mais palavrório e presepada, e sentindo, enfim, que a coisa tinha ido por água abaixo, partiu para a truculência: saiu devorando tudo o que tinha à frente, porque aquele negócio de democracia já tinha enchido o saco.

Devorou a sardinha e a garoupa. Comeu o namorado. Descascou a tartaruga, destroçou a ostra, aniquilou os siris, os caranguejos e o ouriço. Assassinou o camarão. Enlatou oito sardinhas. Cagou no cágado. Deu um cascudo no pintado, estrunchou o molusco e palitou os 300 molares com a lagosta. Não poupou nem o filhote. Avançou sobre as galerias e trucidou os pacus, os baiacus, os pirarucus, os tambacus e todos os outros peixes, fossem eles terminados neste ou naquele sufixo. Venceu por aclamação das rêmoras, as únicas poupadas da chacina.

E voltou para seu gabinete, se autoconcedendo mandato vitalício.

Nos braços do polvo.

Maurício Gomyde

Vai sair pela Editora Valentina em 2015 um lindo romance autobiográfico de Joachim Meyerhoff – e um baita sucesso alemão – com o delicioso título de QUANDO FINALMENTE VAI VOLTAR A SER COMO NUNCA FOI. É um romance de formação que conta a história de um menino, filho de um psiquiatra, que cresce dentro de um hospício e se acostuma a ver os loucos como normais. O processo de amadurecimento representa a inversão do ponto de vista. E, como sabemos, o processo de amadurecimento de todos nós tem algum grau dessa inversão de perspectiva.

Uma tradutora baseada em Londres, Jen Calleja, se apaixonou pelo livro e traduziu um capítulo para sua revista anual „Verfreudungseffekt“, um número que será vendido na Tate Modern, no Instituto de Arte Contemporânea e provavelmente no Museu Britânico. É um capítulo em que o protagonista dá uns ataques, que fazem sua família descrevê-lo como “um giroscópio movido a raiva“.

O livro encantou o leitor alemão. Representamos o livro para a Kiwi, mas, quando Anna Luiza e eu chegamos a Berlim no ano passado, já na temporada pré-Frankfurt, ficamos impressionadas como todo mundo, de outras editoras inclusive, só falava no romance de Meyerhoff. Na Alemanha, vendeu até agora 170 mil exemplares e, apesar de ser considerado um romance altamente literário, está na lista de best sellers continuamente há dois anos. No exterior, direitos de tradução foram para dez países até agora. Além da Valentina, para a Anne Carrière, na França; Signatuur, na Holanda; Seix Barral, na Espanha; Edicions 62, na Catalunha; Marsilio, na Itália – entre outras editoras.

Confira aqui a página de Joachim Meyerhoff no site da KiWi:  http://www.kiwi-verlag.de/autor/joachim-meyerhoff/1371/

Luciana Villas-Boas

Reproduzimos hoje um  texto publicado no blog da Companhia das Letras, abrindo espaço para nosso autor Marcelo Backes expor sua visão do próprio romance  A CASA CAI, que será lançado dia 23 de outubro.

Escombros e caprichos: os meandros e afetos de A casa cai

 

Dizem que reformar a casa é tão traumático quanto perder um parente próximo.

Existem até estatísticas a respeito.

Algum depoimento?

Eu surtei.

A ideia veio.

E foi se transformando.

Inventei meu joão-de-barro casmurro, meu construtor autista.

Qual era o significado de, num tempo em que ninguém mais cozinha pra ninguém, erguer uma casa, e erguer essa casa pra alguém?

Meu joão-de-barro é um homem que fugiu da vida a vida inteira e de repente perde o pai, com quem nunca conseguiu se entender direito. Sem nem saber como o mundo funciona, ele recebe uma herança vultosa, mas pantanosa, com a qual é obrigado a lidar e que conta inclusive a paradigmática história imobiliária do Leblon e do Rio de Janeiro. Por que um metro quadrado pode custar oitenta mil reais?

Ao mesmo tempo, esse homem constrói uma casa pra sua mulher, a mulher que também herdou de seu pai. Se quisesse, ele poderia ter escolhido um apartamento na orla, em plena Delfim Moreira, mas não. Por humildade e antigos pruridos cristãos, ele prefere justamente o pior lugar do pântano paterno, a ainda um tanto democrática Selva de Pedra, erguida sobre os destroços daquilo que um dia foi a Praia do Pinto, uma das favelas horizontais da Zona Sul do Rio de Janeiro, aniquilada como todas as outras. O homem reforma a casa escolhida e aos poucos descobre que o pai construiu a cidade, e que sem derramar sangue talvez não seja possível despejar argamassa num lugar que um dia foi tão naturalmente idílico como o Leblon das baleias, a Lagoa dos índios. Enquanto desvenda seu passado mesquinho, o passado terrível de seu pai e o pretérito ainda mais cabeludo de sua cidade e de seu país, esse homem é obrigado a perceber que a verdadeira construção nada tem a ver com concreto armado, mas se dá por dentro, no fundo daquilo que alguns ainda insistem em chamar de alma.

Sem contar o trauma que fica, os vícios da reforma.

“Agora eu não conseguia mais entrar no apartamento de ninguém, no banheiro de um restaurante e até na cozinha da minha sogra sem dizer, pedra prime, a pia do banheiro deve ter custado uns seis mil reais, mármore italiano, uma bancada pelo preço de um carro popular, granito são gabriel, barato e bonito, vaso deca linha link, dois mil e quinhentos reais, espelho veneziano, sim, um toque clássico garimpado em antiquário, certamente, preço imprevisível, torneiras deca linha twist com misturador, novecentos cada, chuveiro de teto deca linha chromo, bem mais de mil reais.”

Na trajetória em meio aos escombros de aposentos botados ao chão, muitos caprichos pouco sólidos e a descoberta de que não se rola assim no mais pra longe da árvore de um pai, de uma família. A Bíblia dá as caras em toda sua ancestralidade e ainda sobra espaço pra um passeio abrangente pelas artes, as do Brasil contemporâneo e as do universo clássico. As tripas saem das paredes, um apartamento expõe suas vísceras, e Adriana Varejão vira realidade no cotidiano de todos que avaliam uma casa, mexendo ou não em sua estrutura. O homem acaba aprendendo que a hipótese da ruína está incrustada a ferro e fogo em toda construção e se tornou lei num país em que qualquer reforma, seja de uma rua seja de um prédio, significa só mais um excremento à beira da estrada.

Uma mulher chora, ela é o que os outros chamam de a outra sem saber o que é uma. Agarrada ao travesseiro como se fosse uma tábua de salvação no mar da cama, a mulher se afoga em suas próprias lágrimas. Na verdade ela nem chora, tudo se passa em silêncio, e os lamentos rolam por suas faces como se ela tivesse engolido metade do oceano logo abaixo da janela, há alguns metros, e agora usasse os olhos pra botar pra fora aquela água toda, enquanto tenta catar em vão, angustiada, as flores azuis tecidas na colcha. Quando o homem começa a lamber suas faces como um cão sarnento, ela joga a colcha de lado, diz que escondeu todas as flores debaixo da cama e em seguida ergue o lençol vermelho sobre os dois como se fosse uma tenda.

Vamos brincar de casinha?

É assim.

Enquanto a casa é levantada, a alma vai desmoronando. O quarto recebe o último retoque e o amor acaba. O que jamais se acreditou que ficaria pronto, termina em pé. Aquilo que se achava eterno, simplesmente tomba.

Aqui, a bela capa do livro:

marcelo backes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aqui, o link para o blog da Companhia das Letras: http://www.blogdacompanhia.com.br/2014/09/escombros-e-caprichos-os-meandros-e-afetos-de-a-casa-cai/

O blog da VBM abre hoje espaço para uma intervenção política, brilhantemente redigida, da escritora e psicanalista Betty Milan. Em seu artigo, Betty aponta o paradoxo de termos hoje duas candidatas à presidência da República e nenhuma delas defender o direito ao aborto. Betty entende como ninguém da alma feminina e da barra de ser mulher, e quem tiver alguma dúvida leia seu último livro, a autoficção Carta ao filho, um texto delicado, mas revolucionário, em que uma mãe dirige-se ao filho para contar sua história aberta e sinceramente.

Particularmente, acho estranho, quase chocante, como a causa gay tomou espaço da questão do aborto. Obviamente, a lei contra crimes de homofobia tem que ser aplicada com todo rigor, mas eu, que vejo mais desvantagens do que vantagens no casamento para héteros ou homos, não entendo por que o casamento gay virou uma plataforma tão fundamental, enquanto do aborto, uma questão da saúde pública, pouco se fala. Certamente, o PT, em doze anos de governo, ou a presidente Dilma, em quatro, nada fizeram para encaminhar esse assunto.

Só uma observação ao texto de Betty: ela fala em três candidatas. Se, além de Dilma e Marina, ela refere-se a Luciana Genro, está cometendo um equívoco, o único em seu artigo. Minha xará defende a legalização do aborto e da maconha, além de ter uma plataforma de defesa dos direitos dos animais.

Depois que 12 anos de um governo supostamente socialista destruíram todas as minhas ideologias mais amplas e sonhos de uma humanidade melhor, só me sobraram como causa os direitos da mulher e dos outros animais, que são infernizados no planeta pela espécie humana. Nelson Villas-Boas, nosso wheaten terrier que é gerente e vigia da agência, me explicou que, para eu ser coerente, é na Luciana Genro que tenho que votar. E é nela que votarei.

Luciana Villas-Boas

O artigo:

Política de Pôncio Pilatos

“Três mulheres estão disputando a Presidência da República do Brasil. Trata-se de uma vitória impressionante do gênero feminino. Chega a ser inacreditável.

Não houve no passado um acontecimento equivalente à emancipação das mulheres no século 20, que foi o século delas, embora ainda existam no planeta milhões de vítimas do fanatismo religioso, guetos onde as mulheres não gozam dos direitos fundamentais, não são reconhecidas como seres humanos.

No Ocidente, as mulheres têm o direito de ter relações sexuais livres e de controlar a maternidade. Podem optar por ter filhos ou não. Antigamente, morriam ao dar a luz ou, então, bem mais cedo que os homens. Com o progresso médico, a esperança de vida aumentou. Graças aos movimentos feministas, as mulheres tiveram acesso à educação e à vida profissional. Restava conquistar a esfera do poder político e isso está acontecendo.

Há 50 anos, as mulheres no Brasil sonhavam apenas com uma carreira de profissional liberal. O poder político era para os homens e, apesar da revolução sexual, o machismo imperava nas relações pessoais. O nosso imaginário mudou e elas já se candidatam à Presidência.

Mas nem tudo que reluz é ouro, porque, para se eleger, são obrigadas a não se manifestar quanto ao direito ao aborto, ainda considerado crime contra a vida humana pelo Código Penal –salvo quando há risco de vida para a mulher, quando a gravidez é resultante de estupro ou o feto é anencéfalo (por resolução do STF). Como Pôncio Pilatos, as candidatas que lideram as pesquisas lavam as mãos.

Do ponto de vista desse código, a vida que conta é a do feto, e não a da mulher, que a lei obriga a se tornar mãe –como se o desejo de ter um filho não contasse e a realidade social também não. A brasileira não é tratada pela lei como um ser humano, mas como um animal, porque não tem opção. No país inteiro, ainda se morre de aborto provocado, a segunda maior causa de óbito das mães em muitas cidades.

Além de expor à morte as mulheres que se recusam a ter um filho que elas não querem ou não podem ter, o Código Penal é gerador de delinquência. Obriga a dar a luz mesmo quando não há condições de educar a criança e o futuro desta é o mais incerto.

Datado de 1940, esse código precisa ser urgentemente revisto, inclusive porque ele incrimina as mulheres pobres. As ricas têm direito ao aborto, pois em outros países não é crime fazê-lo. Injustiça maior do que essa não existe.

Segundo o Ibope, a maior parte da população é contrária ao aborto, mas o Ibope não estabelece diferença entre ser contra o aborto para si mesmo e ser contra o direito legal ao aborto, que é uma questão de saúde pública e de equilíbrio social. Se a população for esclarecida, o resultado da pesquisa muda.

Quando eu era estudante de medicina, vi no Hospital das Clínicas mulheres em estado de septicemia por terem provocado aborto. Eram curetadas sem anestesia “para aprender a não mais engravidar”. Depois de terem atentado contra si mesmas, eram punidas no pronto socorro por médicos contrários ao aborto. Passou-se meio século e as mulheres continuam a ser punidas no Brasil por engravidar contra a vontade –como se fosse possível ter controle absoluto sobre o corpo.

Quem vencer as eleições vai governar por todos e não poderá fazer pouco da saúde pública e do equilíbrio social, que requerem o direito legal ao aborto.”

 Betty Milan para Folha de S. Paulo.

[link: http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2014/09/1515417-betty-milan-politica-de-poncio-pilatos.shtml ]

 

Nosso terceiro texto para o blog nada tem a ver com literatura, mas como se trata de uma bela análise de política internacional, assinada por autor da VB&M, vale para figurar aqui. Igor Gielow é diretor da sucursal brasiliense da “Folha de S.Paulo”, mas construiu sua carreira jornalística como correspondente internacional. Especializou-se e brilhou principalmente em zonas de conflito e na região que outrora fez parte ou foi área de influência da União Soviética.

Sua carreira literária começará em maio de 2015 com ARIANA, estupendo thriller de espionagem internacional ao estilo John Le Carré. A história é narrada por Mark Zanders, um jornalista brasileiro descendente de alemães, louro, alto, que por onde passam todo mundo toma como agente da CIA, pois onde já se viu brasileiro com essa pinta? Será alterego de quem?

A serviço de uma revista inglesa, Mark sobrevive a um atentado terrorista em um hotel de Islamabad, mas seu assistente e produtor local, Waqar, falece sussurando-lhe que não deixe de buscar Ariana, de quem o jornalista jamais ouvira falar. Ele sai atrás da moça, da verdade sobre sua relação Waqar e de sua própria identidade deparando-se no caminho com segredos de tecnologia bélica, terroristas, agentes da CIA e de outros serviços de espionagem. Há dois casos de amor no entrecho, um deles com Elena, uma russa ucraniana, maltratada por Mark e que o maltrata também. Uma especidalidade de Igor, a Rússia e os antigos países e satélites da União Soviética. Adivinhem onde será a próxima aventura de Mark? O pano de fundo do próximo romance está no artigo que vem a seguir.

Trégua é mais uma vitória de Vladimir Putin

Apesar da retórica dos líderes da Otan, não é a aliança ocidental militar a vitoriosa até aqui no novo embate com o velho inimigo, a Rússia. É outra vez Vladimir Vladimirovitch Putin, ainda que agora os riscos assumidos pelo presidente sejam maiores. Assim como quando colocou uma Geórgia que buscava aliar-se ao Ocidente de joelhos em 2008, tirando-lhe autonomia sobre parte de seu território, Putin agora colhe mais um provável trunfo tático na Ucrânia. Considerando que o cessar-fogo entre separatistas pró-Moscou e o governo ucraniano evolua para algum tipo de acomodação política, os pró-Ocidente de Kiev foram emasculados como seus pares em Tbilisi em 2008. Como Barack Obama disse, tentando vender um peixe de outra natureza, trata-se de uma esperança. Se o rumo das coisas for o previsto, a entrada da Ucrânia na Otan ficará para um futuro improvável, e parte do território estará perdida (Crimeia) ou ingovernável (leste). O Ocidente não entende a Rússia. Dissolvida a União Soviética em 1991, tudo o que Otan e União Europeia fizeram foi expandir seus braços para a antiga esfera de influência de Moscou. O Ocidente tomou para si as simbólicas repúblicas bálticas, onde a tensão entre russos étnicos e o resto da população remonta à Segunda Guerra Mundial. Tente pedir uma cerveja em russo num bar de letões em Riga para entender o problema. Mas quando o namoro chegou às encruzilhadas energéticas da Rússia, Geórgia e Ucrânia por exemplo, a coisa mudou de figura. Putin reagiu, de forma paranoica segundo adversários, ao ver inimigos cercando seu território e seus gasodutos.

folha igor

O presidente encara riscos maiores, acompanhado por um Ocidente que trombeteia a militarização do Leste Europeu –ainda que 4.000 soldados não sejam bem isso. Os sucessivos embargos impostos à Rússia provocam danos reais ao país, e agora resta ver se eles serão desmontados com a perspectiva de alguma paz na Ucrânia. Mas o aspecto mais perigoso em questão é a segurança mundial. Um artigo escrito em agosto por um crítico feroz de Putin, o matemático Andrei Piontovsky, virou sensação entre analistas preocupados com isso. Ele sugere que o russo pode apoiar separatismo na Estônia. Só que o país é membro da Otan, o que implicaria a ação militar ocidental. Confrontado com uma derrota convencional, Moscou usaria de forma limitada armas nucleares contra alvos menos centrais da aliança, no Báltico ou na Polônia. Para evitar o apocalipse, o Ocidente reagiria contra uma cidade média russa, chegando a um cessar-fogo e vitória moral russa. O objetivo estratégico de Putin seria realizado: desmoralizar os EUA como garantidores da paz e retomar a influência da Rússia. Parece ficção e certamente é exagerado, mas desde então Putin falou duas vezes sobre o poderio nuclear russo e os EUA acusaram o Kremlin de testar mísseis proibidos para uso contra a Europa. A inapetência por uma invasão militar da Ucrânia mostra que Moscou também trabalha com limites. A realidade é distinta da ficção, e fica tudo para a próxima rodada. Esta foi de Putin.

 

Artigo publicado originalmente na Folha de S. Paulo. Link para a matéria: http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2014/09/1511995-analise-tregua-e-mais-uma-vitoria-de-vladimir-putin.shtml

Olá!

O texto desta semana no blog da VBM é uma reflexão interessante e divertida sobre os desafios da tradução do português para o inglês, assinado por Alison Entrekin. Para a surpresa de quem conhece alguns dos 40 livros brasileiros que Alison já traduziu, ela surpreende revelando que O FILHO ETERNO, de Cristóvão Tezza, representou um desafio muito maior do que CIDADE DE DEUS, de Paulo Lins.

Alison é uma pessoa chave na difusão da literatura brasileira no exterior, mas não só pela excelência de seu trabalho como tradutora. Por não estar vinculada a nenhuma universidade estrangeira, além de baseada em Santos-SP, ela se relaciona com as grandes editoras de língua inglesa, que publicam “para o mercado”, isto é, para o público em geral, não para os especialistas dos departamentos de Letras, avaliando, indicando e/ou traduzindo alguns dos lançamentos mais relevantes dos últimos anos.

Sem de maneira alguma desmerecer as grandes obras literárias que podem ser apreciadas apenas por quem domina um arsenal de recursos teóricos e técnicos, sabemos que uma literatura nacional para conquistar relevância deve apresentar variedade maior de narrativas, passíveis de ser lidas por leitores de diferentes níveis de erudição. Romances como DIAS PERFEITOS, de Raphael Montes, que Alison leu, indicou e está traduzindo para a Penguin-EUA.

Pessoa chave na difusão internacional da literatura brasileira não é força de expressão. A tradução para o inglês abre as portas para o resto do mundo, não só por seu peso específico, mas porque oferece a possibilidade a editores em todos os países de virem a ler o texto na íntegra.

Vejam o que aconteceu com DIAS PERFEITOS: depois de Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, apresentar o thriller de Raphael para Scott Moyers, da Penguin, e de este encomendar o parecer da Alison, contratando o livro, a VB&M vendeu os direitos para mais cinco territórios (Alemanha, Holanda, Espanha, Itália e Portugal), em alguns casos por valores inéditos para o Brasil. (Sem contar que Penguin, tendo comprado direitos mundiais de língua inglesa, vendeu os mesmos direitos e a tradução para Grã-Bretanha e Canadá.)  Daí a relevância da Alison para a literatura brasileira.

O artigo:

Sintaxes, sinapses e conversa de bar

As pessoas sempre me perguntam qual foi o livro mais difícil que traduzi. E, embora nenhum deles tenha sido particularmente fácil, um sempre me vem à cabeça: O filho eterno, do curitibano Cristovão Tezza.

Não achei difícil de ler. Aliás, li num golpe só, deslumbrada com a honestidade do autor ao lidar com um assunto extremamente delicado sem apelar para o sentimentalismo. Tanto que fui eu que sugeri o título The Eternal Son para a editora australiana que acabou comprando os direitos. O livro tinha me fisgado. Mas, por incrível que pareça, não atentei para a dificuldade da tradução. Simplesmente desliguei a tradutora interna, para ser apenas leitora e fã, e me esqueci da gramática…

Quer dizer, havia me deparado com o mais óbvio alguns meses antes, quando traduzi um capítulo para o site Words Without Borders: os tempos verbais. Tezza mistura tempos verbais do passado (pretérito perfeito, pretérito imperfeito, pretérito mais-que-perfeito) com o presente histórico, o que é bastante comum em português. É um recurso interessante. Permite que o autor conte uma história no passado, mas empregando de vez em quando um tempo verbal que parece aguçar a ação, dando a impressão de que é mais imediata, mais na nossa frente. E, o mais interessante, para mim, é que o leitor brasileiro não estranha nada – todo mundo entende que a história é no passado, e ponto.

Via de regra, não fazemos isso no inglês. Passado é passado e presente é presente. Isto é, por alguma razão que nunca entendi, fazemos isso em alguns documentários históricos, mas jamais por escrito. Creio eu. Para testar minha teoria (adoro desenvolver teorias, mas também gosto de testá-las para ter certeza de que não são apenas coisas da minha cabeça), fiz um rascunho da tradução e mandei para três amigas, número ímpar, para desempatar caso houvesse discórdia, perguntando se alguma coisa no texto as incomodava. Sim, responderam, que salada de tempos verbais é essa? Pronto. Teoria comprovada empiricamente por três amigas.

Fiz mais duas versões, uma completamente no presente e outra no passado, sem misturar. Mandei para as três de novo perguntando qual preferiam. A resposta foi unânime, a versão no passado – achavam que tudo no presente ficava cansativo depois de um tempo. Também achava, portanto me senti justificada em deixar no passado. Que havia ali uma pequena perda, havia, mas fazer o quê? Não sou muito de ficar lamentando o impossível. Bola pra frente.

Mas isso não foi nada. Foi só meses depois, quando comecei a tradução para valer, que me dei conta do outro problema, infinitamente maior e pior: a sintaxe do Tezza. A sintaxe dele é altamente idiossincrática e – por alguma razão que não entendia na época, mas para a qual hoje tenho uma teoria – completamente anti-inglês. Enquanto alguns textos parecem ter nascido para a tradução, outros resistem a qualquer tentativa. As frases do Tezza são longas e cheias de informações. E ele adora um aparte. E um aparte do aparte. E, às vezes – por que não? – um aparte do aparte do aparte. De repente, aquelas frases que eu tinha lido com tanto deleite, quando era apenas leitora e fã, viraram um labirinto em que tropeçava e me perdia. Ficavam estranhas no inglês. Respirei fundo e tentei, ao máximo possível, fazer uma tradução fiel à sintaxe dele – não tão presa ao português que perdesse a naturalidade no inglês, mas preservando as frases compridas, os apartes, o jeito espontâneo de emendar várias idéias numa frase só. E, com certa desconfiança, mandei para a editora.

Em determinado momento o editor me mandou o manuscrito de volta, desabafando: “A maior parte do tempo não sei o que o autor está dizendo. O sentido me escorre pelas mãos.” E foi assim que comecei o longo trabalho de revisão, fazendo o meio de campo entre autor, editor e eu mesma. O Tezza, uma alma sensível, percebeu o que estava acontecendo e se entristeceu. Recebi um email dele pedindo: “Me defenda, por favor!” E era o que eu queria fazer, tanto que tinha procurado preservar a sintaxe dele na primeira versão. Mas eu também entendia o editor, que parecia ter confirmado algo que eu vinha desconfiando ao longo do processo, sem conseguir articular muito bem: alguma coisa importante se perdia nessa tradução tão fiel à sintaxe do original… Mas o quê, exatamente?

Vamos deixar a tradução de lado por alguns instantes. Agora é conversa de bar. Literalmente. Quando eu cheguei ao Brasil, há quase duas décadas, e saía com os amigos, ficava impressionada com a maneira das pessoas conversarem. Não conseguia entender as regras. Lembro de ficar de frente para um casal, numa mesa de bar, os dois falando comigo simultaneamente, contando a mesma história. Ou uma história diferente, não tenho certeza. Um falando sem parar, me olhando nos olhos, como se o outro não estivesse falando ao mesmo tempo e competindo pelo meu olhar a 30 centímetros de distância. E não pareciam se irritar um com o outro. Eu não sabia para onde olhar, quem escutar, em qual história prestar atenção. Acabava olhando de um para o outro que nem uma boba e entendendo lhufas.

Também ficava maravilhada com as conversas em grupo, em que as pessoas pareciam se cortar alegremente sem a menor preocupação com a história que o outro ainda não tinha terminado de contar. E o mais inacreditável, do meu ponto de vista, era que depois que a segunda – ou terceira, ou até quarta – pessoa tinha cortado a conversa, a pessoa que estava falando no começo retomava a sua história e terminava. Eu teria me perdido por completo. Esse caos me fascinava mais que as conversas em si. No meu país, as pessoas esperam a sua vez para falar. Quando uma termina a outra começa, e se alguém atravessar a conversa do outro antes da hora, pede-se muitas desculpas. Aqui no Brasil, perdi conta do número de vezes que fiquei esperando a minha vez, que não chegava nunca. Um dia, fiquei impaciente e resolvi sair cortando as pessoas também, já que, a meu ver, todo mundo cortava todo mundo. Mas logo percebi que não era bem assim. Aquilo que parece tão espontâneo tem todo um timing, e se você não acerta, passa por estúpido. Passei por estúpida. Quando eu cortava alguém, todo mundo parava de falar na mesma hora e ficava me olhando, a gringa mal-educada. Foi só depois de muitos anos de conversa de bar que adquiri esse timing (meus amigos que me corrijam se estiver enganada) e a capacidade de lembrar o que estava falando e voltar a terminar minha história depois de cinco ou dez minutos de conversas paralelas.

Teoria de bar da Alison: vocês, brasileiros, têm mais sinapses na região do cérebro que guarda informações durante conversas. Não digo que nascem com esse dom, mas sem dúvida o adquirem com o passar dos anos, desde pequeninos. E nós, falantes da língua inglesa, por termos outras regras de conduta, não desenvolvemos esta capacidade sináptica.

Estou brincando, mas não muito.

E não é só nas conversas de bar. Acontece na literatura também. Por infinitas questões culturais, a literatura de língua portuguesa tende a ser mais prolixa. As frases são maiores e mais complexas, com mais orações. É claro que existem exceções à regra, mas são exceções. E, por extensão da minha teoria de bar, cheguei à conclusão de que vocês, brasileiros, também têm mais sinapses na região do cérebro que guarda informações do começo de uma frase que vão ganhar complemento lá no pé da página, quando nós, da língua inglesa, já estamos boiando… Não é uma questão de inteligência, mas de prática, de usos e costumes. E a estética das literaturas – o que é considerado bom estilo em determinado país – anda de mão dada com esses usos e costumes.

Voltemos para o Tezza. Em algum momento do processo, subi na corda bamba e procurei achar um meio termo, ainda tentando preservar ao máximo a sintaxe e voz particulares do Tezza, mas fazendo algumas concessões para o leitor de língua inglesa, que simplesmente não tem a bagagem para navegar aquelas frases tão brasileiras. Não fiz 100% do que o editor queria, nem 100% do que o autor queria. Apostei no instinto e comecei a brigar pelo livro. E, no final das contas, acho que consegui recriar uma experiência de leitura parecida, embora, se alguém colocar tradução e original lado a lado, talvez ache que eu tenha facilitado um pouco o texto. Depende do ponto de vista. Tenho cá comigo que as pequenas modificações que fiz foram totalmente justificáveis, para garantir que o leitor da tradução não se perca, que continue lendo, porque o livro merece.

O esforço todo valeu a pena. O livro foi bem recebido pela crítica, o editor ficou contente, Tezza também (e espero que não tenha ficado muito traumatizado), e eu fiquei com uma teoria a mais para minha coleção.

The Eternal Son é publicado pela Scribe Publications na Austrália e no Reino Unido, e pela Tagus Press nos E.U.A. Em 2012, foi finalista no International IMPAC Dublin Literary Award.

Alison Entrekin é tradutora literária australiana radicada no Brasil. Verteu para o inglês Cidade de Deus, do Paulo Lins, O filho eterno, do Cristovão Tezza, Perto do coração selvagem, da Clarice Lispector e Budapeste, do Chico Buarque, entre outros.