agosto 2014

Estamos inaugurando hoje o Blog da VBM com um artigo que escrevi originalmente para a edição 17 da revista do Observatório Itaú Cultural, que foi distribuída em Paraty. O título é “Ser ou Não Ser Brasileiro” e trata da literatura que autores brasileiros estão tentando emplacar no mercado internacional. Nosso blog será um espaço para nós nos manifestarmos a respeito de temas literários, editoriais ou relativos a nossos autores e estará aberto para todo mundo ligado à agência – profissionais ou clientes.

SER OU NÃO SER BRASILEIRO

Brasileiro tem pavor de ser exótico. É compreensível. Algumas de nossas melhores contribuições ao acervo artístico da humanidade poderiam ser enquadradas no exotismo, mas essas manifestações nos remetem a um tempo de nenhuma autonomia cultural e política, de subserviência aos ditames coloniais e imperialistas do que cabia a cada um criar e produzir; conduzem-nos à recente memória de nossa condição de quintal norte-americano, brasileiro compondo, escrevendo, pintando, para Tio Sam e o Velho Continente aprovarem a nossa batucada.

O exotismo seria a negação de uma sofrida e dolorosa urbanização e (incompleta) industrialização. Na literatura, não produzimos mais ficção que possa ser considerada exótica, embora sigamos atormentados com a aprovação do “Primeiro Mundo”. Minha experiência pessoal diz que, no Brasil, a pergunta mais frequentemente dirigida a um agente literário é: “o que espera o editor estrangeiro da literatura brasileira?”. Com olhar ansioso, repetem escritores, produtores culturais e jornalistas: “o editor estrangeiro ainda quer de nós uma literatura exótica?”. Há quase cinquenta anos não desembarcam nas livrarias americanas e europeias mulatas tão lindas e sensuais, tão contraditórias e divertidas, quanto Florípedes e Gabriela. Os editores que primeiro traduziram a obra de Jorge Amado estão aposentados ou já morreram. Para leitores e editores internacionais de hoje, a referência amadiana é desbotada, sem nitidez. Posso garantir: o editor estrangeiro não tem qualquer expectativa de que o autor brasileiro entregue uma ficção de caráter exótico para publicação internacional. O editor estrangeiro ignora nossos problemas com o exotismo, bem como nossas cólicas narcísicas em relação à nossa autoimagem e àquela que projetamos. O que talvez o editor estrangeiro espere de nós é que não tenhamos tanto problema em ser brasileiros. Será assim tão absurdo que se espere do Brasil uma literatura brasileira? Os EUA podem fazer uma literatura americana, a Itália, italiana, a Índia, definitivamente indiana, assim como os países latino-americanos apresentam sua produção nacional. No entanto, do Brasil não se pode querer, segundo cartilha que não se sabe quem entre nós determinou, uma ficção brasileira que, por meio de personagens densos, de uma voz própria, de uma linguagem inovadora, reflita dramas de nossa história e cultura naquilo que têm de local e universal. Para escapar à pecha do exotismo, novos autores brasileiros parecem se dedicar a suprimir de suas obras qualquer mínima marca nacional.

Mas logo que abri a agência VB&M, em 2012, ouvi, a esse respeito, um questionamento interessante por parte da scout Carmen Pinilla, que busca títulos em língua espanhola ou portuguesa para uma carteira que tem, entre seus clientes, algumas das mais importantes editoras do mundo:

“O Brasil é tão imenso, tem uma história tão intensa e diferente, com a influência africana, com tantos imigrantes da Europa, do Japão, com tantos cenários possíveis; por que sua literatura não reflete isso? Por que há tantos protagonistas que são autores autores com bloqueio criativo, em relações homo ou heterossexuais, mas sempre frustradas e bizarras, em metrópoles que se supõe que sejam São Paulo ou Rio, ou até fora do Brasil, mas nada muito delineado?”

Respondi que não era só isso que tínhamos a oferecer, mas a scout insistiu que era essa a ficção que dava o tom à literatura brasileira de hoje. Em seguida, recomendou enfaticamente a seus clientes O Arroz de Palma, de Francisco Azevedo, que apresenta uma história de família e imigração portuguesa, atravessando várias gerações, cujos direitos de tradução foram comprados em doze países, por editoras como Simon & Schuster, Planeta e Mondadori. Há muitas outras obras que exalam Brasil a cada parágrafo, como a ficção de Alberto Mussa, Edney Silvestre, Miguel Sanches Neto, Luiz Ruffato; ou ainda Tempos Extremos, de Míriam Leitão, Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, Eufrásia, de Claudia Lage; e outras cujos protagonistas nada têm a ver com aquele descrito por Carmen. No entanto, talvez façam parte mesmo de uma minoria. A escravidão e a ditadura estão espocando nos entrechos do romance brasileiro, mas há que se acatar as razões de Carmen para afirmar que o Brasil contemporâneo está estranhamente ausente de sua literatura.

Quando se olha para a produção literária norte-americana, a comparação causa ainda maior estranheza. Nos EUA, cada acontecimento histórico provoca tamanha profusão literária, que se criam quase subgêneros. Os ataques terroristas de setembro de 2001 propiciaram romances magistrais como Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, de Jonathan Safran Foer, Ao Pé da Escada, de Lorrie Moore, e Deixe o Grande Mundo Girar, do irlandês residente em Nova York, Colum McCann, para citar os de minha preferência. Recentemente, a crise financeira gerou, entre múltiplos títulos, pelo menos um rigorosamente impactante, Union Atlantic, de Adam Haslett, sobre titânico conflito entre um banqueiro poderoso e uma professora de História aposentada. Muito além do thriller e do policial, há desde o romance de beisebol até o romance universitário (campus novel) e a ficção sulista, afro-americana ou americano-nativa. São tantos gêneros e subgêneros que cada aspecto da realidade dos EUA parece refletido literariamente. Cada subgênero tem exemplos do mais descartável até a alta literatura. O que dizer dos romances de beisebol de Richard Ford? São memoráveis. Claro que não é uma comparação justa. O Brasil jamais cumpriu um básico compromisso burguês: a rede escolar universal e eficiente. Ainda assim é difícil entender por que não comparecem um pouco mais em nossa criação temas tão palpitantes como a humilhação que nossos políticos infligem à sociedade, com entrechos nos corredores do Congresso; ou o terremoto ideológico e existencial provocado por 12 anos de um partido supostamente socialista no poder. Não temos romances passados em plataformas de petróleo, bancos, laboratórios, universidades, casernas, redações, na selva amazônica violada pelas motosserras. O campo em guerra parece não ser da conta dos escritores.

Durante mais de uma década, resmunguei não entender como a experiência social, violenta e traumática, do confisco do dinheiro das pessoas na era Collor não tivesse espelho na literatura. Minha irritação foi aplacada quando recebi para publicar A Felicidade É Fácil, de Edney Silvestre. Mas deveria haver muitos outros livros com esse pano de fundo. Talvez os autores não abordem esses temas por recear serem desancados pela crítica universitária, tão poderosa na mídia. É certo que se escritores brasileiros assinassem romances equivalentes aos de Updike, Roth ou Cormac McCarthy, seria dito, aqui, que “escrevem para o mercado”, ainda que não se saiba onde há mercado para literatura brasileira no Brasil. Mas a razão mais provável para o que já me foi apontado como “mesmice”, “sameness”, na ficção brasileira, talvez seja o poço pequeno e homogêneo de peixes da mesma espécie, no qual os editores pescam os originais. Se a mirada editorial fosse mais larga, abrangendo o vasto território nacional e escritores das mais variadas formações, é possível que a denunciada mesmice fosse atenuada.

Seria bom também que houvesse um grande corpo de agentes, com gosto literário variado, e nos quais os editores pudessem confiar, uma vez que o trabalho de analisar originais não solicitados é insano demais para quem tem que, além de ler, produzir os livros. Em um sistema literário maduro, a grande contribuição do agente é “despatotizar” a literatura. Infelizmente, devo confessar que, como agente, eu mesma já cometi o pecado que denuncio. Dentre as centenas de solicitações de representação que a VB&M recebe todo mês, eventualmente, pesco textos de valor escritos por cientistas, militares, profissionais liberais diversos, residentes em vários pontos do país, que hesito em agenciar por receio da reação do meio a um nome sem conexões, no quase inexpugnável bloco de poder cultural que funciona entre o Rio de Janeiro e São Paulo. Como apresentar a um editor um autor novo que não seja conhecido nos grandes diários e/ou nas instituições culturais dessas duas cidades, ou sem cartas de recomendação de outros escritores do mesmo eixo?

No entanto, para usar a inesgotável metáfora de Edmar Bacha, cada região brasileira é Belíndia e, apesar de pouco acesso à educação para a maioria, em toda cidade brasileira há uma elite intelectual, bastante expressiva em números absolutos, que está produzindo e criando obras de interesse artístico e cultural. No Brasil, o poder cultural é ainda mais concentrado do que o financeiro. A concentração tem contornos não só de classe, como também geográficos. Os Estados Unidos, além de terem uma classe média instruída muito maior do que a nossa, no seio da qual podem surgir muito mais talentos, contam, em seu sistema literário, com milhares de agentes. E ninguém nesse sistema tem que ser mais profissional do que o agente literário, porque ele jamais vai se dar ao luxo de representar um escritor por amizade. O agente só pode representar a obra na qual acredita, porque será remunerado apenas quando fechar um contrato editorial. Se o livro apresentado não for considerado interessante para publicação, seu tempo de trabalho terá remuneração negativa, e ele pode se prejudicar. É por isso que o agente literário deveria ser muito bem-vindo no sistema editorial brasileiro. Se disserem que advogo em causa própria, vejam também que incentivo minha própria competição.

O editor brasileiro, aliás, acolhe o agente. O problema é o baixo número desses profissionais. No entanto, isso está mudando, e a riqueza e variedade da ficção, que a médio prazo estará em oferta, apontarão o novo grande romance nacional a representar o Brasil, tão galhardamente quanto o faz Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, lançado em 1984. Teremos então o livro que os editores estrangeiros esperam. E, mais importante que isso, esse livro será, exótico ou não, o romance que também leitores brasileiros estão aguardando para voltarem a ler a literatura do Brasil.

Luciana Villas-Boas